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Mantas, máscaras, chá, Vicks e um gato: uma noite estranha no Bonfim

Depois de muita polémica ao longo da semana, lá se disputou o Vitória de Setúbal-Sporting, com o desfecho esperado - o Sporting ganhou (1-3) - mas com dificuldades inesperadas - o Sporting sofreu a bom sofrer com um Vitória remendado

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MÁRIO CRUZ

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Às tantas, já na 2ª parte do (estranhíssimo - mas já lá vamos) Vitória de Setúbal-Sporting, um ilustre do futebol inglês mostrou que estava atento ao que se ia passando no Bonfim: "Brunooooo já marcou esta noite".

Rio Ferdinand, ex-central do Manchester United, referia-se, obviamente, a Bruno Fernandes, que está precisamente a caminho de Inglaterra neste mercado de inverno, mas a pergunta que se impõe, mais além da menção aos dois golos do médio português, é esta: será realmente este o jogo que a Liga portuguesa quer que seja visto além-fronteiras? Com apanha-bolas de máscaras na cara, adeptos às turras na bancada, presidentes desentendidos no camarote, um gato preto (irónico) a atravessar o relvado, jogadores a levarem com Vicks no peito a meio do jogo, chá a ser distribuído, enfim, toda uma panóplia de factos caricatos que deixaram para segundo plano aquilo que realmente interessa, o jogo.

Gualter Fatia

Mas, a bem da verdade, também há que dizer que o jogo propriamente dito que se viu esta noite, em Setúbal, não foi propriamente um hino ao futebol. Com Battaglia de volta ao onze, dado o castigo de Doumbia, e Borja no lugar de Acuna, lesionado, Silas optou por manter os restantes titulares que já tinham entrado em campo contra o FC Porto, a saber: Ristovski, Coates, Mathieu, Bruno Fernandes, Wendel, Bolasie, Vietto e Luiz Phellype.

Do outro lado do campo, Julio Velázquez teve muitas mais dificuldades em encontrar titulares para colocar em campo - só convocou 16 jogadores, aliás -, dado o surto gripal que afetou grande parte do plantel, pelo que o onze foi inédito: Milton Raphael, Mano, João Meira, Pirri, André Sousa, Leandro Vilela, Éber Bessa, Carlinhos, Zequinha, Mathiola e Guedes. Ou seja, em relação ao último jogo, apenas André Sousa, Éber Bessa, Zequinha e Carlinhos se mantiveram na equipa.

Ainda assim, não se pode dizer que o Sporting tenha sido claramente a melhor equipa em campo. O Vitória até começou melhor, com um livre perigoso de Pirri, mas o Sporting lá se foi instalando no meio-campo alheio - mas nunca demonstrou a clareza e a criatividade suficientes para criar oportunidades de golo dignas desse nome.

Só aos 27 minutos, conseguiu, pela primeira vez, enviar a bola na direção da baliza adversária - e mesmo aí o remate foi... um autogolo. Depois de um cruzamento forte de Ristovski para a área, João Meira desviou a bola para o fundo da própria baliza, fazendo o 1-0 para o Sporting.

Desfeito o nulo, parecia que o Sporting iria tranquilizar-se no jogo, e o segundo golo surgiu mesmo pouco depois: Pirri derrubou Bruno Fernandes na área e o capitão encarregou-se de concretizar o penálti assinalado. Nada que afligisse por aí além os adeptos do Vitória que, mesmo com a desvantagem, aproveitavam para ir gritando "olés" quando a própria equipa conseguia trocar a bola repetidamente - há que ressalvar, também, que os golos do Sporting foram as únicas duas vezes em que os visitantes conseguiram almejar a baliza de Milton Raphael.

MÁRIO CRUZ

À entrada para a 2ª parte, o Sporting tinha tudo para viver uma noite descansada, e até esteve perto do 3-0, logo a abrir: na área, Pirri perdeu a bola para Wendel, mas o brasileiro deslumbrou-se com a oferta e não conseguiu o remate desejado.

Ao contrário do expectável, depois disso, o Sporting abanou - e de que maneira. Aos 63 minutos, depois de uma perda de bola infantil de Mathieu no meio-campo defensivo, Carlinhos rematou com potência de fora da área e a bola passou por cima de Max, que ainda a desviou, mas pareceu mal batido.

O golo animou os anfitriões e aumentou drasticamente o ritmo do jogo (que por vezes pareceu estar em nível de pré-época), com o Vitória agora a querer aproximar-se muito mais vezes junto da baliza de Max.

Gualter Fatia

Já com Camacho em campo, por lesão de Vietto - estará disponível para o dérbi de sexta-feira? -, Mathiola arrancou pela esquerda e arrancou também um cartão amarelo a Coates - este sim, não jogará contra o Benfica, por acumulação de amarelos. No livre subsequente, Éber Bessa atirou forte, mas Ristovski desviou a bola da baliza.

O susto seria maior no lance seguinte: Carlinhos cruzou e, no centro da área, Guedes cabeceou à trave e ainda falhou a recarga à baliza por centímetros.

Silas desesperava no banco e com razão: não se percebia bem, nesta altura, qual era afinal a equipa de "doentes" em campo. Mesmo com Pedro Mendes e Jesé no lugar de Luiz Phellype e Bolasie, o Sporting não melhorou e só chegou ao 3-1 final, mais uma vez, devido à enorme eficácia do homem que, convenhamos, vale mais de meia equipa em Alvalade: Bruno Fernandes recebeu a bola de Camacho e, já na área, rematou para novo golo.

No cômputo geral, foi, obviamente, uma vitória justa do Sporting, mas muito mais difícil e muito mais tremida do que era esperado. Já o Vitória, mesmo perdendo, pode ficar descansado. Julio Velásquez tinha dito, na antevisão do jogo, que não queria "fazer uma figura de merda". Não fez, bem pelo contrário.