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A implosão do Sporting, cortesia de Paulinho

Mathieu dissera que o Braga era favorito por jogar em casa. Não, o Braga era favorito por, desde que Rúben Amorim lá chegou, jogar mais, melhor e com um plano mais claro que o Sporting, que perdeu (2-1), teve dois jogadores expulsos e acabou tão desnorteado em campo quanto o clube tem sido, ultimamente, fora dele. Os minhotos estão na final da Taça da Liga

Diogo Pombo

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A pálida pele, sarapintada por sardas às dezenas, o cabelo ruivo, invulgarmente descolorado para ser loiro, e a postura sempre séria de Jérémy Mathieu não são novas. O francês joga cá no burgo há muito, faz três anos, ter-lhe-ão explicado à chegada como a história e a tradição têm o Sporting, em Portugal, mesmo que não o soubesse antes de se comprometer com o turbilhonante clube.

Dizer que, em Braga, o Sporting local é favorito a ganhar uma meia-final da Taça da Liga contra o Sporting verde e branco devido a isso mesmo, por ser anfitrião, podia ser uma afronta, lá está, pelo historial de vitórias, feitos e títulos. Mas, vendo bem o estado recente das coisas, Mathieu enganou-se não no lado da balança que favoreceu, sim no peso que escolheu por-lhe em cima.

Não lhe pesaram as últimas três semanas e uns dias do Braga, tempo a que é treinado por Rúben Amorim e se organiza com três atrás, dois alas a puxarem marcações na largura, dois médios interiores a esconderem-se nas costas da primeira pressão e um avançado a servir de apoio frontal para deixar os extremos, ao centro, virados para a baliza com a bola.

Mais importante: quando a perdem, pressionam muito, rápido e com referências de pressão bem definidas.

E, se uma equipa faz o que o Sporting fez, juntando todos os jogadores no lado da bola, em campo próprio, torna-se mais fácil apertar esses cercos, que mais facilitados ficam por ser Battaglia o transportador de bola, que é roubado para, em três passes, se ver Ricardo Horta a rematar de pé esquerdo (8’), em jeito, na área, para o 1-0 mais do que justificado. Durante quase 20 minutos, os minutos anulam todas as posses de bola do adversário.

Ter Battaglia com Doumbia não precavê o Sporting contra a construção de jogadas pelo centro, cheias de passes verticais para João Novais ou Fransérgio, porque o zelo do trinco argentino em não deixar a linha defensiva em igualdade de números fá-lo encostar atrás, quando o Braga sai a jogar da própria área, deixando um dos médios a jeito de receber um passe dos centrais.

E ter Doumbia e Battaglia puxou, forçosamente, mais por Wendell, cujos dá-e-vai buscar à frente e condições de bola são a forma que a equipa mais usa para ultrapassar linhas de pressão. Bruno Fernandes usa-o como parede para rematar, Rafael Camacho recolhe dele, já na área, para fazer o mesmo.

São os esticões com que o Sporting, aos poucos, se livrou da montagem feita para condicionar a forma de jogar do Braga - que nem por isso conseguiu - e responder às tentativas de Galeno, o bip bip aos sprints da esquerda para dentro, com bola, fugitivo à marcação de Ristovski e à cobertura de Coates, que muito ameaçou marcar antes de o cérebro dos minhotos parar, em massa, quando fazem uma falta para frenar outra condução de Wendel.

Todos olham para o árbitro, uns refilam, outros apenas esperam para ver, enquanto Bruno Fernandes é batido a bater o livre para Mathieu, o mais solitário dos jogadores esquecidos na área, dar a oportunidade a Silas de, ao intervalo, corrigir o coxear do Sporting em cima de um resultado empatado.

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Bolasie sai do banco para dar à equipa o extremo que Bruno Fernandes fingiu ser, mas não é, porque é sempre atraído para o centro com e sem bola, nunca acompanhado o ala do seu lado e deixando aberta a opção para o Braga virar a bola para longe da pressão. O Sporting melhora em 15 minutos, é mais compacto a defender, encaixa na organização do adversário, tem os melhores jogadores possíveis a jogarem nas posições certas e a cabeça de Coates, num canto, ameaça que algo está a mudar.

Mas, ao dividir uma bola, o congolês atira-se às pernas de Sequeira com a bola da chuteira, é expulso e o jogador a menos faz o Sporting voltar a abrir espaços, um pouco por todo o lado, ao princípio do Braga sempre buscar passes verticais à procura de receções de Paulinho que deixem alguém de frente para a área.

A cada ação, Galeno bem arranca, solta-se e recebe orientado, até falhar na direção dos remates. A cada passe vertical saído dos defesas, Fransérgio domina, vira-se e arranca em condução até fixar um adversário. A cada bola que os extremos recebem ao centro, o Sporting sofre, mais ainda quando a expulsão é o incentivo para entrar Trincão. Cada intervenção que tem é uma tentativa de inventar algo.

É quase meia hora de bola a ser controlada, abusivamente, pelo Braga, com o Sporting remetido a uma linha de cinco na área, com três centrais em campo, toda uma equipa atrás de quem tem o bem precioso e os minhotos a serem vítimas da vantagem nos números: perante o bloco tão recuado do adversário, apenas acumulavam jogadores na área, sem quem pedisse um passe por dentro, uma tabela, uma combinação que fosse.

Muito foram tentando, sempre, mas cruzando muito, aproximando-se da área por fora, até Trincão ou Esgaio terem a bola, à direita. Um desses cruzamentos foi desviado pela cabeça de Raúl Silva para a de Paulinho, escondido nas costas de Mathieu para se elevar rumo ao 2-1 a um minuto da hora e meia, quando Silas já se preparava para trocar de guarda-redes e confiar em Renan para os penáltis.

À errada estratégia inicial, à incapacidade de lidar com a pressão do Braga e contrariar as suas saídas com bola, ao incauto Bolasie e à reclusão auto-forçada atrás, por Silas, quase abdicando de deixar a equipa com condições para atacar, o Sporting juntou uma implosão exagerada assim que Paulinho carregou no botão.

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Mathieu, que já ficara a refilar por algo aquando do golo, atropelou Esgaio muito depois de o lateral passar a bola, barafustando um pouco mais. O francês foi expulso, montou uma zaragata, empurrões de pouco sentido a serem trocados, mais expulsões para quem estava nos bancos e o Sporting desnorteado, sem rumo e com o sangue a ferver, eliminado da Taça da Liga que conquistou nas duas épocas anteriores.

Não ouvimos o corajoso Rúben Amorim antes do jogo, pela questão de habilitações e níveis de treinador, com que a Liga de Clubes não o deixa falar, mas já o ouvimos mencionar a estrelinha, o não mudar a forma de jogar e a fidelidade às ideias que o compensaram com quatro vitórias em tantos jogos, as duas últimas contra FC Porto e Sporting.

Este Sporting, cadente na qualidade per capita que tem no plantel, limitado pela gestão desportiva sem rumo aparente, ultra dependente de um Bruno Fernandes que já nem salva uma equipa como salvava, uma equipa do Sporting que foi a Braga acabar sem tino aparente, imagem de um clube que se divide entre julgamentos em tribunal, contas por equilibrar, dinheiro por controlar com pinças e desamores entre o presidente e as claques.

Um Sporting que implodiu no lugar e na altura em que, nos últimos dois anos, conseguira injetar-se com um pouco de oxigénio, uns quantos créditos, um quê de esperança para o que lhe faltava disputar.