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Braga 1-0 FC Porto: a pronúncia do norte, a premonição de Horta, um prenúncio de crise

O Braga bateu o FC Porto no último minuto da compensação e conquistou a Taça da Liga quando tudo se encaminhava para um desfecho decidido nos penáltis. O autor do golo foi Ricardo Horta, o homem do jogo que abrira o clássico nortenho com um bom remate de pé esquerdo à barra, lançando as bases para um encontro entretido e intenso. No final, Sérgio Conceição não se aguentou e disparou para dentro

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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O simpático miúdo que entrou ao volante de uma mini-mini pickup na Pedreira com a bola de jogo orgulhosamente pendurada no seu veículo é a imagem perfeita para o Braga que se quer fazer grande.

Porque apesar do espírito sobressaltado do seu presidente e da bipolaridade futebolística do país, o Braga não é a filial escondida do Benfica que muitos querem fazer crer a outros tantos; é um clube sério e a sério, que disputa coisas. Acima de tudo taças, que são torneios mais curtos e menos expostos a arbitrariedades, permitindo histórias assim: nos últimos dez anos, o Braga ganhou a Taça da Liga (2013) e a Taça de Portugal (2016), perdeu as finais da Taça da Liga (2017) e da Taça de Portugal (2015), e também a final da Liga Europa (2011).

É um currículo respeitável para o qual o FC Porto estava avisado antes da final da Taça da Liga, pois fora derrotado pelos minhotos nessas finais que o Braga conquistara - e há pouco mais de uma semana, na Liga, os arsenalistas tinham batido os dragões, no Dragão. Num jogo, se bem se recordam - e este dificilmente se esquece -, com variadas incidências, em que os portistas falharam dois penáltis por jogadores diferentes e ficaram a sete pontos do Benfica.

Então, o Braga - FC Porto desta noite trazia consigo o extra do ajuste de contas, além do título (inútil) de Campeão de Inverno, designação que enfeitou o relvado da Pedreira antes do apito que deu início ao clássico. Que começou praticamente com uma bola à trave da baliza de Diogo Costa num remate do esquerdino Ricardo Horta.

E se é de bons inícios que jogos destes precisam, este não podia ser mais premonitório, pois acabou por ser de Horta - e de pé direito - o único golo (95’) de uma final que se encaminhava diretamente para as grandes penalidades. Bem, instantes antes, o triunfante Braga disparara à trave por Raúl Silva, o que deixou os da casa com uma ligeira vantagem no campeonato do tiro ao ferro - na primeira-parte, Soares chutara violentamente à trave (37’) uma bola que lhe aparecera a dois passos alargados da baliza e o resultado deste particular ficou 2-1.

Posto isto, uma conclusão popular: se muitas vezes se legitima a justiça do vencedor em encontros renhidos pelo número de oportunidades criadas, o Braga mereceu vencer a sua segunda Taça da Liga, novamente diante do FC Porto, que ainda não venceu uma. Uma segunda conclusão: na verdade, o jogo podia ter caído para qualquer um dos lados, mas aqui entra um fator estranho às análises e que se chama de estrelinha. E o competente Rúben Amorim, o treinador ainda não devidamente encartado, tem-na: cinco jogos, cinco triunfos, três vitórias contra dois grandes (eliminara o Sporting na meia-final da Taça da Liga), um título.

O clássico

Bom, o Braga - FC Porto foi essencialmente jogado em velocidade e em contra-ataques, com a pressão de cada um a resultar em erros forçados e também não forçados, sobretudo dos arsenalistas face à obrigatoriedade dogmática de sair a jogar desde a baliza. No final, os números não esclareceram quem foi realmente melhor: a posse de bola terá sido do Braga (53%) e o FC Porto terá rematado menos, mas melhor (nove, três à baliza, contra onze, apenas dois à baliza).

Na primeira-parte, o Braga apostou na ocupação dos espaços e na explosão de Galeno, fortíssimo no arranque e no drible, mas bastante frágil no momento de decidir o que fazer quando o guarda-redes estava à vista. Na maior parte dos casos, o extremo escolheu mal, rematando disparates ou falhando o passe para o colega isolado, mas a sua utilidade era inegável, provocando a desordem do lado portista. Por seu lado, o FC Porto procurou Marega e Díaz e os livres laterais e os cantos bem batidos por Sérgio Oliveira.

Ao intervalo, o 0-0 era um parcial adequado para um clássico entretido e agradável de seguir, mas que baixaria de intensidade na segunda-parte. Porque as pernas e os pulmões começaram a faltar, os músculos cederam, aqui e ali dos dois lados, e as substituições nada trouxeram de novo. Romário Baró, Manafé, Uribe, Trincão, Wallace e Novais entraram sem consequências práticas para o encontro que, como se disse há cinco parágrafos, ia diretamente para a marcação de grandes penalidades - até ao momento em que Horta chutou a lotaria para fora dali, após alguns ressaltos.

O Braga saiu por cima e o FC Porto foi-se abaixo emocionalmente, com vários futebolistas em lágrimas e com o treinador a deixar críticas profundas à estrutura do clube. É possível que venha aí uma espécie de crise.