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Não é preciso desconfiar deste Famalicão

No último minuto de compensação, um canto fez Gabriel marcar o golo que deu a vitória (3-2) do Benfica contra o Famalicão de quem Bruno Lage disse ser preciso desconfiar, cheio de psicologia invertida. Este Famalicão prático, atacante, valente e atrevido, que jogou na Luz de uma forma que valoriza o bom futebol, contribuiu para um bom jogo e mantém esta meia-final da Taça de Portugal bem aberta para a segunda mão

Diogo Pombo

Gualter Fatia/Getty

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Não querendo, de todo, spoilar-vos, pois ninguém o merece, em “1917” e na ilusão do seu infinito plano continuado há dois momentos em que o protagonista solitário, a ter que atravessar um trecho de França pintada de guerra, confia que haja recíproca confiança do inimigo e trama-se duplamente no filme que, como todos os que versam sobre a mais horrível versão dos homens, também é um conto de desumanidade.

Porque uma guerra será sempre isso, um lugar onde cabem as mais terríveis coisas que o desporto não é, nem prega, nunca será, mas o futebol, com os seus hábitos de fazer o que for necessário para ganhar, com o tempo foi apregoando apenas uma faceta que, se viu ou vai ver o filme, cedo despita qual é - a desconfiança, ou o não confiar no que se julga vir aí que Bruno Lage defendeu para lidar com o Famalicão.

Uma equipa que perde bolas, falha passes, tem as linhas espremidas contra a própria área e sofre, por instantes até sufoca, com a intensidade da pressão alta e rápida que o Benfica aplica, perdida qualquer bola, com Taarabt e Gabriel a impedirem que alguém se vire para o jogo.

A surpresa do campeonato aguenta. Sobrevive ao peito com que Pizzi teima um passe longo de Gabriel e logo liberta Chiquinho, a correr área dentro, que remata com força (10’), mas para a bancada e, contados 15 minutos, adapta-se ao avançado que sobra na pressão fazer sombra a Gustavo Assunção e a Pizzi fechar muito mais a linha de passe para o lateral esquerdo do que Cervi, do lado oposto.

As saídas de bola que os jogadores do Famalicão insistem em ser bravos e manter na relva, em trocas curtas, começam a muito sair pela direita, onde Ivo Pinto e Diogo Gonçalves arranjam forma de fugir à pressão com Uros Racic, o interior que os ajuda. É o médio que rasga um passe para o lateral cruzar uma bola rasteira, nas costas de toda a linha defensiva do Benfica, para encontrar, na área, a pessoa mais remota em campo.

Do pé direito de Pedro Gonçalves sai o escândalo que é falhar (18’) uma oportunidade destas, mas, também, a confirmação da desconfiança. A partir daí, o Famalicão iguala o Benfica nos momentos de pressão e fixa referências nos médios, sobretudo Gabriel, técnico e apto a evadir adversários para qualquer lado, mas lento a executar por mais brilhante que seja a pensar.

A desconfiança que Lage insistiu evocar justifica-se pelo bom que é para nós, que assistimos ao jogo, e o mau que é, particularmente, para o Benfica. O jogo de futebol na Luz é bom, rápido, intenso, com muitas posses de bola ao primeiro toque e pouquíssimos chutões sem nexo. As equipas enfrentam a pressão alta alheia fazendo mexer os jogadores, tentando usar referências para tabelar e insistindo no exercício de confiar na capacidade dos jogadores que têm.

Há uma tabela que Pizzi provoca com Chiquinho e o deixa, na área, a rematar cruzada e rasteira uma bola que Seferovic quase alcança. Toni Martínez encontra a baliza de Vlachodimos após um passe picado, mas um fora-de-jogo anula-o. A exceção é Jardel que, quase no intervalo, perde uma bola que acabara de cortar, Fábio Martins atrasa-a para o remate de Pedro Gonçalves rasar o poste direito. É uma das incapacidades e uma que merece desconfiança.

Porque, tanta é a pressão do bloco do Famalicão contra os médios, que a primeira filtragem de bola nos centrais do Benfica ganha importância e as limitações de Jardel são trocadas pelos passes rasteiros, fortes e limpos de Ferro. A equipa alivia a dependência em Gabriel na saída, cria dúvidas nos outros, volta a entrar de rompante no jogo, encosta o adversário em campo próprio e um cruzamento de Seferovic bate no braço de Riccieli.

Carlos Rodrigues/Getty

Quando o penálti de Pizzi entra (53’), ainda a robusta aptidão de Taarabt em resistir à pressão - nunca perdendo a bola, virando-se sempre sobre o corpo do adversário e dando-a jogável para alguém - sustenta as posses de bola do Benfica, que nele confinam enquanto o pulmão e a cabeça atinada para a equipa pressionar duram. São, outra vez, uns 15 minutos.

Perdendo a pressão imediata e compacta pós-perda, o Benfica teria de confiar no resto quando, dando tempo e espaço para o Famalicão pensar o que faz às bolas recuperadas. O resto é ter linhas coesas, jogadores a fechar os espaços entre eles, uns a darem cobertura a outros, todos a olharem à volta e a terem noção de como, e onde, tapar. Ou seja, uma organização defensiva confiável.

Sem a passividade de Taarabt e Gabriel, sem Ferro a tentar (mais uma vez, em mais um jogo) um desarme à queima, sem coberturas próximas, sem uma equipa a recuperar rápido as posições, três evidências expostas quando Pedro Gonçalves se vira com a bola a meio do campo, arranca e tabela com o extremo de igual apelido já na área, onde empata (60’) o jogo de forma calma, como se nada fosse.

Com as baterias de Taarabt e o raio de ação de Gabriel a caírem, os ataques do Benfica dependiam cada vez mais do que produzia por fora, onde, chegado aos últimos 30 metros, a confiança crónica nos cruzamentos rasteiros, muitas vezes para trás, deixavam o Famalicão a jeito de recuperar bolas já com jogadores de frente para a baliza, a precisarem de menos um toque, uma virada de corpo ou um levantar a cabeça para partirem no contra-ataque.

Outra saída rápida fez Pedro Gonçalves lançar Toni Martínez, com todos os jogadores do Benfica apáticos, demasiado fixados onde estava a bola, a verem o espanhol rematar (73’) rasteiro e confirmar que, pelo terceiro jogo seguido, um adversário marcava dois golos na Luz, onde a urgência agora rebentava.

Rafa e Carlos Vinícius entraram para dar companhia a Seferovic, fixou-se mais gente na frente, mas só uma raridade desequilibrou o Famalicão, que deixou André Almeida receber um passe entrelinhas, ao centro, que tocou para o entrado brasileiro rematar, Vaná defender para o lado e o pequeno bip bip desviar (78’) a recarga para o 2-2. O empate desencadeado por um lateral direito experimentar o jogo interior que quase nunca ousa.

Até à compensação, mais e maior buracos se abriram nas reações do Benfica às vezes em que o Famalicão teve a bola, o mesmo que descrever os últimos minutos como uma equipa a não querer acelerar assim tanto contra os hectares de espaço que era vagado por jogadores que não se posicionavam onde deviam. O Famalicão tinha o empate, ao Benfica sobrava insistir até ao fim e, num canto, Gabriel apareceu no meio da não reação dos primeiros três elementos da defesa à zona para cabecear.

No último de cinco minutos de compensação surgiu o golo que fez o Benfica ganhar, nem por isso decidir a eliminatória e, muito menos, nublar o comportamento com bola, a valentia, o atrevimento dos jogadores e a postura geral do Famalicão, já não uma surpresa, mas um sério caso de como o bem-fazer as coisas, condimentado com coragem em fazer frente para ganhar em vez de evitar perder.

É tido como aconselhável aplicar desconfiança ao que não se conhece. Não ao que, cada vez mais, está a ser provado como confiável. Porque este não é o primeiro, nem será o último, bom jogo de futebol com o Famalicão em campo, em que o Benfica pode confiar uma coisa - não terá uma segunda mão fácil destas meias-finais da Taça de Portugal.