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A pior coisa que podem fazer ao Benfica: obrigá-lo a passar tempo com o FC Porto

Nos 180 minutos que coincidiu em campo com a equipa de Sérgio Conceição, o Benfica muito emperrou pela falta de movimentos de apoio aos médios, quando recebem a bola, e a lenta e desgarrada reação às perdas de bola. O FC Porto foi agressivo e intenso a atacar as fragilidades que o rival disfarça contra outros adversários, ganhou (3-2) o clássico, reduziu a desvantagem no campeonato para quatro pontos e provou que não há pior companhia em campo para a equipa de Bruno Lage

Diogo Pombo

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Vendo aquela grande, circular e amarela fonte de luz no céu, indo e vindo ciclicamente, e as formas projetadas de todas as coisas a mudarem de sítio, os humanos, matutando na cabeça, lá descobriram que, espetando algo na vertical e seguindo o rasto da sombra, iriam magicar uma forma de rastrear a passagem do tempo.

Os egípcios ergueram obeliscos, dividiram o dia em dois blocos de 12 horas, os gregos e os romanos inventaram as suas engenhocas, e, milenarmente falando, o mundo evoluiu para contarmos segundos, minutos, horas, dias, meses e anos, chegariam os relógios e o tempo ganhou existência. As pessoas passaram a ter essa coisa abstrata e impalpável para se regerem, é assim há sabe-se lá quanto, mas, em 2019/20, parece não haver jogo na Liga NOS que respeite o tempo.

Às atrasadas 20h34 começou o clássico que, repetindo-se há tanto, nos habituou a esperar o que, até se contarem 10 minutos, nem estava suceder por aí além. Taarabt recebia, rodava e passava, Pizzi e Rafa tabelavam, o marroquino ligava-se aos portugueses entrelinhas. Pepe e Marcano respeitava Uribe, o colombiano alastrava a paciência à equipa e não se apressavam a procurar a profundidade tão querida por Marega.

O FC Porto e o Benfica eram calmos, rasteiros e pacientes a jogar.

Mas, aos 10’, foi tempo de Grimaldo dar espaço para Otávio corre com bola na linha, nunca o tentando desarmar, nunca tendo cobertura próxima de alguém, nunca evitando que o brasileiro se virasse, contasse segundos com a bola e, talvez por isso, fizesse toda uma linha defensiva olhar apenas para a bola que cruzou e Sérgio Oliveira, acrobaticamente, rematou na área.

O 1-0 fez o FC Porto, mais ainda, apertar as receções de bola de Weigl, intrometido entre os centrais para tentar dividir a pressão de Soares e Marega, encostar um médio em Taarabt para o condicionar a decidir de costas e avançar a equipa, em bloco. Os jogadores foram mais intensos nos momentos de perda, mais agressivos se tornaram no ataque às segundas bolas e este acumular de ‘mais’ fê-los, aos poucos, encostar o Benfica à própria área.

A palmada com meia mão na bola de Marchesín, projetando-a na vertical e não para trás da baliza, ao acudir a um remate de cabeça de Chiquinho, que deixou Vinícius fazer o 1-1 na recarga (18’), foi um evento casual e não causal.

O Benfica já pouco ou nunca construía jogadas pela relva, onde pisam os pés de Weigl, Taarabt, Pizzi, Rafa e Chiquinho, os cinco que tentavam estar juntos, mas sem se apoiarem de frente, tocarem rápido ou se mexerem para encontrarem um terceiro jogador livre que os livrasse da pressão coletiva que o FC Porto executava, em bloco bem alto, à medida que o tempo passava.

Essa pressão amarelou Taarabt pela impaciência, encolheu o Benfica a 30 metros de campo, deixou Ferro exposto, uma e outra vez, a posses de bola que o forçavam a lidar com as corridas de Marega - sempre a fugir-lhe com arranques pelas costas - que o FC Porto não procurava de forma direta, mas rasteira, com passes a saírem mais de perto. De forma mais pensada, tiravam tempo ao já vagaroso tempo de reação com que o central do Benfica ajustava a posição, os apoios e a postura às bolas que não eram assim tão imprevisível de entrar na sua zona.

O Benfica já sofria por todos os lados, perdendo todas as segundas bolas ao centro, quando Alex Telles bateu o 2-1 no penálti assinalado à bola (38’) que tocou no braço de Ferro. Mais quando Ferro, de novo ultrapassado por uma fuga de Marega nas suas costas, deixou o maliano cruzar uma bola que o desespero em forma de corte de Rúben Dias desviou para o 3-1.

Não seria em 15 minutos de intervalo que o Benfica atinaria a forma de sair de detrás, ligar a construção e criação de jogadas, tendo os jogadores a tocarem a bola naquela telepatia aparente de quem parece ter tudo treinado e a sair com fluidez. Não haveria tempo, o tempo que há desde o início da época para o trabalhar para quando, do outro lado do campo, surge um adversário como este.

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Um FC Porto agressivo, intenso e pressionante, em bloco alto, que terá usado o tempo de treino para se preparar a jogar desta forma, condicionando o Benfica a errar perto da sua área e aproveitando as bolas recuperadas, estando o rival desorganizado, para acelerar e deixar alguém em condição de rematar à baliza.

Houve, porém, os 20 primeiros minutos na segunda parte, tempo em que Marega trocou para a esquerda do ataque e passou a dirigir desmarcações para os metros quadrados de Rúben Dias. Em parte, o FC Porto piorou, já não o encontrava na profundidade, ficou sem as suas receções perto da baliza que deixava a equipa avançar. E, também, porque baixou as linhas e já não acertava tanto na pressão.

O Benfica fez a sua parte, melhorou nas posses de bola, Weigl já fixava adversários em condução, Chiquinho fugia em diagonais para as alas, não ficando à mercê de apertos ao centro e abria espaço para Rafa aparecer a jeito de os passes quebra-linhas de Taarabt o encontrarem. Uma receção do pequeno português na área, de costas, ajeitou a bola para Vinícius se duplicar em golos no 3-2.

O clássico esperneava com vida com a melhoria da vida com bola do Benfica. Conseguia dar mais passes às jogadas, Vinícius estava mais móvel no raio dos centrais, Pizzi e Rafa já tabelavam e o FC Porto baixou o bloco, vendo baliza apenas quando Sérgio Oliveira curvou um livre a rasar a barra, pouco depois de o tempo contar uma hora e Bruno Lage decidir que Taarabt já não devia estar em campo.

Tirando o marroquino para ter Seferovic na frente, o Benfica mirrou em tino e critério nas trocas de bola que inauguravam as jogadas. Os passes apontaram mais para as alas, Grimaldo foi fustigado por cruzamentos a pedido, o seu jogo tornou-se previsível e o FC Porto, notando-o, recolocou Marega no quintal de Ferro, soltou-se em transições à boleia de Corona e Luis Díaz e voltou a pisar a área contrária.

Só um cruzamento rasteiro Vinícius que Seferovic quase desviou e um remate rasteiro de Chiquinho foram ameaça para o FC Porto, única equipa a beneficiar com o passar do tempo: voltou a conquistar as segundas bolas, não partiu a equipa, as hesitações de Ferro deixavam-no ter jogadores a receber na frente e Luis Díaz, a acabar, ter uma oportunidade para castigar ainda mais o tempo em que o Benfica coincide em campo com este rival.

A equipa de Bruno Lage fechou o jogo montada com três defesas, um trio de avançados, bola a ser batida diretamente para a frente e os jogadores desconectados. Em desespero, sucumbida à urgência, um auto-pedido de socorro perante a iminente segunda derrota do campeonato, de novo contra a equipa de Sérgio Conceição, outra vez intensa e agressiva a explorar a falta de movimentos de apoio aos médios que recebem a bola e a reação partida, lenta e desgarrada às perdas de bola.

São fraquezas que disfarça frente a adversários de outro nível, mas que o magoam e o emperram contra o FC Porto, único (para já) a expor, tão claramente, o quão melhor o Benfica deveria comportar-se, com os jogadores que tem - são sete golos sofridos nos últimos três jogos.

A equipa tem tempo (faltam 14 jornadas) e números (ainda há quatro pontos a mais na liderança) para o corrigir, mas o tempo mais sofrível que teve neste campeonato foram os 180 minutos que coincidiu com o rival no campo.