Sporting, nomeado para pior argumento original
Enquanto uma equipa do Sporting apática, lenta e errática fazia por ganhar (2-1) ao Portimonense, houve adeptos a manifestaram-se fora do estádio contra Varandas e um vice-presidente e a filha terão sido agredidos no pavilhão ali perto. É o contexto tão ciclónico e caótico do Sporting, original de tão negativo que é, mas que vai perdendo originalidade por já tantas vezes se ver este argumento a ser repetido
09.02.2020 às 19h56
Carlos Rodrigues/Getty
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É alto, avançado, a primeira das funções que lhe incumbe é o golo e, pelas raízes da tradição na última meia década, vivalma se acostumou a ver o Sporting e, no campo, avistar um tipo de tais funções a arrastar a posição para a esquerda, receber a bola, acelerar a corrida contra o central, fixá-lo no duelo e tentar driblá-lo, em velocidade, em direção à área bendita.
Sporar é avançado e alto, eram-no também Slimani e Bas Dost, ambos, porém, de outra estirpe estilística de homens feitos para marcar golos, porque o esloveno dá mais toques às ações com bola, sai da área para se associar às jogadas e faz por criar espaço para si, se a equipa não arranjar forma de o pôr a jeito de finalizar. Ele, também por ter a etiqueta de novo, é original no Sporting.
Nesta infeliz versão de Sporting, consumido por constantes rumores de assembleias, destituições, contestações e conflitos-mil, exemplo disto a manifestação de adeptos que, à hora de jogar contra o Portimonense, se juntou ao lado do estádio silenciado, no interior, que nem missa sem padre, sepulcral como uma partida de futebol é em lado nenhum, a assistir à palidez de um 3-4-3 apático e letárgico pelos jogadores que tem dentro.
Perante uma primeira pressão mansa, refém dos arames que prendem o talento técnico de Jackson Martínez num corpo doloroso, nem Mathieu, nem Neto conduzem a bola, só esporadicamente o faz Coates, para tentar tirar adversários de posição e provocar espaços.
O resto da equipa assiste, todos longínquos, a teimarem na profundidade, ninguém a dar apoios frontais no ataque e o central uruguaio a descompensar o acerto nos desarmes e interceções com passes, chutões e ideias mal medidas. O Sporting remata pela cabeça de Battaglia, num canto, logo aos 3’, para depois minguar na falta de intensidade geral, que faz qualquer jogada do Portimonense para lá do meio campo ser uma coleção de bolas descobertas de pressão.
É assim que vão tocando e passando até Anzai não desmarcar Jackson, mas colocar-lhe a bola nos pés, quase tiro ao alvo, obrigando o colombiano a dar uso ao que permanece imutável, venham as lesões e mazelas: a receção orientada que desequilibra Neto, o remate ajeitado que ultrapassa Maximiano e ainda desvia no poste. Esteja o tornozelo reduzido a cinzas, Jackson Martínez terá sempre futebol dentro.
O Sporting não melhorou, a concessão de espaços em campo próprio continuou, o portador da bola seguiu imperturbado - a equipa parece tentar incomodar mais os adversários na metade do campo alheia -, Wendel e Battaglia nunca tinham jogadores perto, a oferecerem-se nos apoios e o livre curvado pelo pé esquerdo de Mathieu, ao ângulo, foi um à parte independente do jogo, mas que lá deu um empate ao intervalo.
Carlos Rodrigues/Getty
Silas abdicou do esquema, tirou um central para ficar com Jovane Cabral e dois extremos e a largura onde a equipa trocava a bola, de um lado ao outro, lentamente e sem rasgo, acentuou-se. Rafael Camacho arriscou, Battaglia também, o par de remates de fora da área afrouxaram-se para fora, tentativas isoladas e incapazes de sacudir a tábua rasa de criatividade com bola do Sporting que, coletivamente, não mostra coisas trabalhadas para atrair pressão e abrir espaços.
Tendo a cabeça, o jeito, a técnica e os pés mais aptos para, sozinho, desencadear algo com bola, Luciano Vietto bateu um livre que rasou a barra e, haja um jogador, mostrou-se entrelinhas para tabelas com Wendel de calcanhar e deixar o brasileiro a rematar na área. Mas, igualmente, sozinho, falharia só com o guarda-redes Gonda à frente, isolado por Sporar após uma perda de bola do Portimonense a sair a jogar.
Levar a bola em passeios rasteiros incessantes, sempre laterais, de um lado ao outro sem algo a destoar, deu em auto-golo quando um largo cruzamento de Acuña foi desviado pela cabeça de Jovane e, depois, pelo pé de Jadson. Ao alívio suspirado pelo acaso procedeu um tiro de longe de Dener que Maximiano salvou, outro de Plata para Gonda se agigantar, um remate torto de Sporar e um demasiado certeiro de Wendel ao poste.
Com o jogo rendido a transições, esticões em corrida, duas equipas partidas e pressa em qualquer jogada nos últimos 15 minutos, o Sporting melhorou, cresceu no caos e na desordem, o que é entendível pelo maior espaço e tempo que os jogadores tiveram para executar coisas, mas algo estranhamente, porque parece ser no olho do furacão que esta equipa, e este clube, se acostumaram a estar.
Uma tempestade cheia de tufões dentro - as tais assembleias, as destituições pedidas, as guerras com as claques, os tais projetos de meses com treinadores, os jogadores que ficam a dever em qualidade aos dos rivais - agitados pela depressão que é ter milhares de adeptos, fora do estádio, a gritarem por demissões e a alastrarem revoltas, enquanto, ali ao lado, no Pavilhão João Rocha, um vice-presidente do clube (Miguel Afonso) e a filha, menor, terão sido agredidos, à porta de um elevador.
E o Sporting é infeliz porque, de tudo isto, nada parece já ser original, tão banalizado, repetido e prolongado vai sendo o contexto que recria para si. Por isso, talvez, Mathieu encolhe os ombros, suspirando, quando o jornalista da “Sport TV”, ainda no relvado, lhe pergunta genericamente pelo jogo e como se desenrolou. “Como sempre, o mais importante é ganhar”, desabafou.
O Sporting venceu no campo e está em terceiro lugar do campeonato. Fora, e melhor que nós saberá o francês, o clube vai-se embrulhando no argumento que inventou, um guião que seria galardoado com o Óscar na noite em que eles se entregam: pela originalidade do caos, que é tão sua, há tanto tempo, que de original, infelizmente para o clube, já vai tendo menos.
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