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Como não aproveitar uma oportunidade, by FC Porto

Uma equipa entrou em campo sabendo que, ganhando, um ponto passaria a três. Essa equipa muito cruzou, muito insistiu nisso e pouco variou, para empatar (1-1) com o Rio Ave e terminar o encontro, que poderia ter sido o da fuga do Benfica, jogando no meio de uma orquestra sinfónica de assobio impaciente

Diogo Pombo

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O que invade a cabeça de quem, quatro dias após virar líder do campeonato, pela primeira vez, e a minutos de voltar a jogar, fica a saber que, ganhando, um ponto passa a três, uma algo ténue vantagem passa a ter um quê de conforto e se foge um pouco ao rival que durante tanto tempo se perseguiu?

Quiçá nervos, de quem sente o que está em questão, talvez ansiedade, caso muito pense no que aí vem e ainda não controla, ou porventura sinta motivação, a coloquial ‘pica’ para jogar, porque a hipótese oferecida é boa e apetecível e, no arranque do FC Porto-Rio Ave, quem está desse lado das possibilidades parecer ter a última reação a agitar-lhe os circuitos nos cérebros.

Os portistas atacam rápido, projetam muitos jogadores à frente da bola, Corona e Alex Telles alinhados quase com o início da área, cercam a área para reclamar todas as ressacas de jogadas. Há cinco minutos e Sérgio Oliveira ergue a cabeça na área, Kieszek tem de esticar os ossos para o contrariar. Há dezoito e Mbemba, no meio do caos, espera pelo resgate que Nakajima faz à sobra de um canto para rematar. 1-0, parecia o início de algo gordo e descansado.

Mas, do outro lado, o golo deu algo às cabeças do Rio Ave. A equipa que esperara, esperançosa numa linha de cinco, organizada, porém demasiado recuada para ter referências de passe fora das zonas de pressão imediata - engolidas, quase sempre, por Danilo e Sérgio Oliveira -, soltou-se. Terão pensado em atrevimento, ou, melhor vendo as coisas, em estar e jogar como sempre estão e jogam.

Pressionaram, em diante, na saída de bola do FC Porto, avançaram a equipa, tentaram ser ladrões no campo adversário e confiaram que ir passando a bola, no pé e rasteira, mais do que ser a melhor maneira para jogarem, era a forma como o costumam operar. Nuno Santos e Lucas Piazón aproximavam-se dos médios para tocar, Taremi ia arrastando defesas com uma desmarcação, em corrida, em qualquer jogada.

O Rio Ave ia crescendo, a confiança populava as cabeças dos jogadores, e, no FC Porto, parecia que a cautela investia sobre a equipa.

Há trinta e dois minutos e isso vê-se, tão claro, quando Taremi recebe uma bola, de costas, tem vários segundos para se virar, pedir uma tabela a Piazón, fintar Marcano quando a apanha e fazer o 1-1. Com espaço e tempo, mais a passividade de Mbemba, Marcano e Alex Telles, apareceram coisas que elevam qualquer jogador e o iraniano deu mais uma razão para os vila-condenses mais confiança terem.

Depois, havia trinta e cinco minutos e Nuno Santos, de bem longe, obrigou Marchesín alongar-se numa grande parada, última memória de uma primeira parte em que o FC Porto dominou a bola e o número de ataques, mas jamais controlou o que ia acontecendo no jogo. Já se ouviam assobios impacientes, os silbidos multiplicaram-se depois.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/Lusa

A audível perda de paciência de quem assistia era inversamente proporcional à originalidade de quem jogava. O FC Porto, com o tempo, aumentava os passes apontados a Alex Telles e Corona, laterais que mais encarregues ficaram de fazer algo com a insistência da equipa em atacar por fora e cruzar a bola para a área, desse por onde desse. Apenas um encontrou uma cabeça, no caso a de Soares (62’). De resto, a insistência no sempre no mesmo era menos produtiva a cada tentativa.

Insistindo em dar a volta à rotunda do Rio Ave, organizado com duas linhas de cinco, ora fechando na área, ora subindo o bloco e bem ajustando para controlar a profundidade, o FC Porto insista, portanto, em não retirar frutos disso. E, não conseguindo, também, furar por dentro, começou a tentar de longe.

Sérgio Oliveira bateu com estrondo um remate, Marega curvou uma bola, o português enfureceu outra bola para Kieszek para, ainda defender a recarga, mas não alcançar o terceiro ato, que entrou e foi anulado pelo fora-de-jogo centimétrico (3cm) visto pelo VAR. Com o tempo, o Rio Ave ia saindo nos contra-ataques que sempre esticava nos sprints de Nuno Santos. Um deles acabou com o português a picar a bola, de letra, para a acrobacia de Taremi não acertar com a baliza.

O silvado coro de assobios foi, com o tempo, aumentando. Quase todas as jogadas o tinham, sopros que punham brasas onde devia estar relva, faziam os jogadores do FC Porto apressarem-se quando deviam ter tino. Os últimos 10 minutos, que viraram 20, devido à compensação, foram um misto de chutões, balões e alívios sem nexo, seguidos de pressão louca para recuperar a bola. O tempo urgia e a oportunidade fugia.

No meio do caos barulhento e das investidas sem nexo, existia, quando podia, o Rio Ave, nunca chutador dessa bola longa só porque sim, sempre tentar respirar à medida curta, com futebol apoiado e à procura de passes certos no pé e não otimistas na frente. Nessa equipa vem parte da culpa desta demonstração de como não aproveitar uma oportunidade. O resto, (não) fez o FC Porto.