Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Covid-19. Rotinas, noticiários, motivação e objetivos: o psicólogo Jorge Silvério explica-nos o processo de adaptação dos atletas

A acompanhar as seleções de futsal e atletas olímpicos,o primeiro mestre em Psicologia do Desporto em Portugal diz que o adiamento dos Jogos Olímpicos foi um alívio para os praticantes face às restrições de treino impostas pelo confinamento e o medo de contágio. Jorge Silvério, 54 anos, diz que a forma como os desportistas estão a lidar com a incerteza não é uma questão de género, já que na resiliência de todos nós pesa mais a personalidade e as experiências passadas

Isabel Paulo

Jonathan Knowles

Partilhar

Os jogadores estão confinados em casa há três semanas. Faz sentido manterem a rotina, acordarem e 'treinarem' à mesma hora?
Faz sentido ter uma rotina que não precisa de ser necessariamente igual à que existia antes do confinamento em casa. O facto de os atletas terem obrigatoriamente de fazer exercício ajuda-os a manter uma rotina, mas não deve ser rígida. Manter uma rotina não quer dizer que os dias sejam todos iguais, desde que se mantenha o treino físico e mental, até para que não se instale uma monotonia que, somada ao facto de estar confinado e de não se saber a duração desse confinamento, possa ter consequências negativas.

Que exercícios mentais se podem fazer para tranquilizar o espírito?
Para além das tarefas que têm a ver com o facto de estarmos a falar de profissionais cuja principal 'ferramenta' é o corpo, e por isso precisa de ser cuidada, os atletas que acompanho seguem um conjunto de tarefas no seu treino mental adequadas a cada um. Para além disso, há que fazer outras tarefas, desde cursos online até actividades de lazer como filmes ou séries ou jogar (é uma das coisas que normalmente a grande maioria dos atletas já faz).

Que equipas e atletas está a acompanhar?
Estou a trabalhar com a seleção de futsal, masculina e feminina, e atletas olímpicos a título particular. Não vou revelar nomes por dever de sigilo.

É importante manterem-se informados da evolução a covid-19 no país e no mundo?
É importante ter um ou dois períodos definidos diariamente para acompanhar as notícias sobre a pandemia em fontes credíveis. Da minha prática enquanto psicólogo do desporto e dos estudos e investigação que tenho realizado, estou convencido que a tenacidade, conceito que tenho desenvolvido e elaborado, se tem revelado decisiva para o sucesso dos atletas. Todos necessitamos de tenacidade para enfrentar esta crise. Manter o treino mental, tal como o treino físico! Aqui assume extrema importância a formulação de objectivos, pois sendo a técnica mais poderosa de motivação permite que os atletas tenham um rumo e uma direcção. Aliás, os atletas têm outra vantagem sobre os não-atletas: ultrapassar obstáculos e viver com incertezas é aquilo a que estão habituados, além de trabalho árduo e sacrifício. Outro valor a que estão habituados, e nestas horas de crise pode fazer toda a diferença, é sobrepor os valores colectivos aos individuais e é isso que todos temos de fazer - 'FICAR EM CASA'.!

Como se evita o pensamento de 'esta época já acabou, já não vale a pena eu esforçar-me para fazer mais nada agora'?
Como ainda não se sabe o que vai acontecer e sendo esse um dos possíveis cenários, é importante trabalhar por duas razões: o treino físico faz parte das tarefas de um profissional de desporto e, mesmo que nesta época já não haja mais competições, na próxima haverá seguramente. É o que já estão a fazer, por exemplo, os atletas olímpicos com que trabalho. Os Jogos Olímpicos foram adiados para 2021 e o facto de não saberem quando voltarão a competir em provas nacionais, europeias e mundiais levou, é claro, à alteração se planos de treinos, mas continuam a trabalhar.

Faz sentido espairecer com coisas que habitualmente não fazem, como jogar Playstation?
Faz todo o sentido experimentar coisas que não se costumam fazer por falta de tempo.

Devem falar com colegas que estejam a passar pelo mesmo ou contactar outras pessoas fora do círculo de trabalho para evitar estarem focados sempre na mesma coisa?
Um dos aspectos mais importantes para enfrentar este confinamento é manter o contacto social à distância, desempenhando aqui as novas tecnologias um papel extremamente importante. E ajuda ter contacto com os colegas de equipa para partilharem experiências e manter o espírito de grupo (muitos clubes fazem-no com treinos colectivos com cada um na sua casa ou com grupos de partilha nas redes sociais). Quaisquer que sejam os interlocutores, é inevitável falar da pandemia, mas temos de fazer um esforço de manter o foco noutras questões para evitar a sobrecarga do assunto..

As ligas profissionais estão suspensas e ninguém sabe quando irão recomeçar. Quais são as grandes angústias dos jogadores enquanto estão em modo de espera?
Esta situação desafiante pela qual todos estamos a passar, podendo mesmo definir-se como uma crise, traz para os atletas e para todos nós uma série de incertezas. Sempre que há incerteza há ansiedade, neste caso adensada pela falta de controlo. Os atletas deparam-se várias questões/angústias: quando haverá competições? Como ficam os objectivos traçados para esta época e para as próximas? Para os atletas que finalizam contratos, como irá ser o futuro profissional? Temos atletas com objectivos diferentes e em diversas situações: para uns a meta é o Europeu de Futebol, já adiado e portanto a incerteza imediata foi eliminada. Outros, cuja época competitiva ainda decorre, embora suspensa, como é o caso dos campeonatos de futebol, os objectivos mantêm-se: serem campeões, lutar por lugares europeus, não descer de divisão. Em termos individuais, renovar contrato, mudar de equipa, atingir um determinado desempenho desportivo, traduzido em defesas ou golos ou passes, são preocupações que não mudam. E tal tal como para todos nós, há o receio permanente de não serem infectados pelo vírus.

Têm orientação de exercícios dos seus treinadores. E de psicólogos?
Sei que há equipas que não têm e que alguns jogadores têm procurado ajuda particular para enfrentarem melhor esta situação.

O surto, em termos de gestão de treino, é mais complicado para os desportos colectivos. Psicologicamente também?
São especificidades diferentes e requerem abordagens diferentes, mas não creio que se possa dizer que é mais complicado para uns ou outros. Assim como também não se pode dizer em relação à maneira como os géneros (masculino ou feminino) reagem.

Homens e mulheres lidam de igual forma ao confinamento?
Sim. A forma como lidam com o distanciamento social depende mais da personalidade e experiências de vida. Ser mais ou menos resiliente, não é uma questão de género.

Tem conhecimento, prático ou teórico, de casos de atletas submetidos a confinamento e quais melhores práticas recomendadas para este tipo de situação?
Tenho conhecimento prático. Neste caso introduzimos outra variável, que é a possibilidade de haver doença e de o isolamento social ser a 100%, até se confirmar ou não a existência do vírus. Aqui é preciso um acompanhamento ainda mais regular e ver quais os pensamentos presentes, que variam muito de pessoa para pessoa, para a tranquilizar.

A nível psicológico, é diferente estar de 'quarentena' desportiva devido à pandemia ou sem treinar por motivo de lesão?
Muito! O atleta parado devido a lesão sabe que se trabalhar e recuperar tem mais ou menos uma data prevista para voltar a competir. Neste surto, não. Ou seja, a incerteza é maior. Outras diferenças são que esta pandemia pode ser mortal e, numa lesão, os outros, família, amigos, colegas de equipa, não estão ameaçados.

Pedro Proença em entrevista ao Expresso, acredita que haverá condições para terminar a Liga esta época. Também acredita?
Não consigo ter dados que suportem a expetativa do presidente da Liga. Quero acreditar que sim, para bem de todos!

Existir ou não campeão nacional esta época é desgastante para os jogadores?
Há claramente outras questões mais importantes para eles, como a saúde e bem-estar deles e dos seus familiares. E as questões relacionadas com as incertezas individuais das suas carreiras.

O adivinhado rombo financeiro para os clubes, levou o presidente da Liga a dizer que depois desta catástrofe o futebol vai mudar. Acha que os jogadores têm noção que os salários vão encolher ou ter salários em atraso, como já acontece no Desportivo das Aves?
A situação dos salários em atraso é um flagelo que não deveria acontecer de todo. Quanto às mudanças, penso que toda a sociedade irá mudar em função deste acontecimento e o futebol, fazendo parte dela, também, embora seja difícil para já prever como…

O adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio pecou por tardio? Como viveram os atletas o impasse?
A partir do momento em que houve decisão, diminuiu a ansiedade. Agora mantêm-se uma série de incertezas sobre o resto da época, de financiamento e mesmo em relação à vida pessoal deles: alguns tinham o objectivo de terminar as carreiras nos Jogos, outros querem ser mães ou pais, outros prescindiram de um ano na carreira académica para apostarem tudo no ano dos Jogos. Outros, ainda estão na luta para confirmar ou obter as marcas de qualificação que lhes possam dar o tão almejado passaporte pelo qual lutaram toda a carreira, mas mais intensamente ao longo dos últimos quatro anos. Para estes, com todos os cancelamentos de provas que tem havido (e bem, pois a saúde de todos nós tem que estar acima de tudo), acresce ainda a incerteza de como irá ser daqui para a frente o processo de qualificação.

O Sindicato dos Jogadores ativou uma linha de apoio psicológico permanente para os jogadores de futebol. Os clubes profissionais oferecem todos apoio psicológico?
A medida do Sindicato é excelente. Nem todos os clubes da I e II Liga têm este tipo de acompanhamento, pelo menos regularmente, o que é uma falha.

Como é o seu dia a dia?
Estou em teletrabalho, naturalmente. A trabalhar muito mais, sobretudo por vídeo-conferência, que as solicitações e inquietações são muitas.