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Golpe de marketing ou apenas alguém com pouca qualidade? A passagem de Martunis, o menino do tsunami, pelo Sporting

No verão de 2015, o Sporting foi buscar Martunis para integrar a equipa de juniores e viver na Academia. Era o menino que, uma década antes, tinha sido encontrado entre os escombros de um tsunami na Indonésia com uma camisola de Portugal e se tornara amigo de Cristiano Ronaldo. Martunis reapareceu esta semana, três anos depois, a leiloar uma camisola do capitão da seleção para ajudar as vítimas da covid-19. Mas o que aconteceu durante a experiência no Sporting? A Tribuna Expresso falou com quem coincidiu com o indonésio para tentar descobrir

Diogo Pombo

SONNY TUMBELAKA/Getty

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- O vosso aplauso, por favor, para o mais recente atleta do Sporting!

Ia a frase de Artur Torres Pereira a meio e as palmas já chocavam umas contra as outras. O próprio vice-presidente para a Expansão e Núcleos afasta-se do microfone, começa a aplaudir e as últimas palavras ouvem-se a desvanecer. No ruído apoteótico surge um rapaz indonésio de fato e gravata, aperaltado e com os braços no ar, que acorre a abraçar Bruno de Carvalho e a vestir a camisola do Sporting que o presidente lhe entrega.

Timidamente, apercebe-se de que é suposto falar. Aproxima-se do microfone e solta umas palavras retraídas que são libertadas por uma tradutora. Ele está feliz e agradecido por “realizar um sonho”, diz “viva ao Sporting!” no português possível e o pavilhão aproveita a possibilidade para o voltar a engolir com aplausos.

Uma década antes desse verão de 2015, Martunis fintara os impossíveis para ser encontrado entre os escombros deixados pelo tsunami que varreu a Indonésia, com uma camisola de Portugal no corpo. Já com 17 anos, o menino que Cristiano Ronaldo conhecera e ajudara era o novo reforço dos juniores do Sporting e ia viver na Academia de Alcochete para “estudar e aperfeiçoar o seu futebol”.

Quase cinco anos depois, ei-lo crescido, barbudo, casado e com tiques de influencer, a anunciar, esta semana, o leilão de uma camisola de Ronaldo no Real Madrid, assinada pelo próprio, no Instagram, onde é seguido por mais de 150 mil pessoas. O dinheiro servirá para ajudar vítimas da covid-19 na Indonésia. Terá sido a primeira vez desde a tal apoteose na gala do Sporting que voltou a ser notícia em Portugal.

Mas, durante a época de 2015/16, como foi a passagem de Martunis no clube?

Instagram

O difundido na altura foi que o indonésio ia jogar nos juniores do Sporting. Batia certo, Martunis tinha 17 anos e dissera-se que já estava a treinar com uma equipa desse escalão no seu país. Só que bateria errado e “raramente” treinou com a equipa júnior em Alcochete.

O contacto que Filipe Çelikkaya teve com Martunis “foi muito rápido”, recorda à Tribuna Expresso. À época adjunto de Tiago Fernandes nos juniores do Sporting, Filipe guardou a impressão de um miúdo “muito humilde”, fruto “da sua experiência de vida” e moldado pelo “trajeto muito difícil” que teve. “Tínhamos muito respeito por tudo o que tinha passado na vida, os colegas percebiam que era uma pessoa diferente deles”, garante o técnico, hoje no Shakhtar Donetsk, na equipa técnica de Luís Castro.

Apenas se lembra de o ver “duas ou três vezes em campo”, menos do que a memória de Bruno Fernandes guardou. O agora avançado do Sintrense diz que, no máximo, Martunis treinou “umas 10 vezes” com a equipa. “Quase nunca treinava”, resume à Tribuna Expresso. Quando se equipava e aparecia “tinha sempre dores em algum lado” e não se recorda de reconhecer qualidade no indonésio - “se tivesse, acho que me lembraria”.

Bruno suspeita que o rapaz, durante a temporada, treinou com os juvenis. Filipe confirma a descida de degrau. Não sabem quem a decidiu, mas, “devido a muitos aspetos maturacionais e de qualidade”, havia “um desfasamento” óbvio. Martunis tinha 17 anos e da Indonésia aterrara numa equipa de clube grande, no meio de 20 e tal miúdos a fazerem pela vida no limiar da escada que ascende ao futebol profissional.

Outras bocas dizem-nos que a balança dos poderes no indonésio pendia muito mais para o lado do esforço, ou quase toda. O talento era uma pluma. Não sabia falar português, nem há relatos que tenha aprendido. Noutro balancear das coisas, existia um prato com o marketing e outro cheio de nada no lado desportivo.

Para aprofundar a questão, Filipe Çelikkaya sugere à Tribuna Expresso que se fale com João Couto. Era, na altura, o treinador dos juvenis, será a pessoa que mais terá lidado com Martunis, mas o Sporting, em tempo de pandemia, lay-off e futebol parado, não autoriza. A Tribuna Expresso tentou falar com jogadores que passaram pelos juvenis em 2015/16, mas não obteve respostas.

O que, de facto, fica da passagem do indonésio pelo Sporting é “o exemplo” que era para os outros jogadores. “Porque há coisas mais importantes na vida do que o futebol”, resume o ex-adjunto dos juniores, assegurando que havia “muito respeito por tudo o que tinha passado na vida”.

Factuais, também, são as palavras que o então presidente Bruno de Carvalho disse, quando se anunciou a chegada de Martunis: “Vai estar na Academia, vai trabalhar connosco, vai estar nos serviços do Sporting. Vamos trabalhar com ele também no seu desenvolvimento enquanto ser humano e homem”.

Nada disse sobre jogar futebol. E Martunis nunca chegou a jogar pelo Sporting.