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O estado do sítio: a II Liga pode não terminar, a I Liga pode regressar em menos estádios, a luta dos clubes “pela sobrevivência” continua

O campeonato das possibilidades: a II Liga pode não terminar, mas os dois classificados podem subir à I Liga e os dois últimos até podem não descer de divisão. A I Liga pode regressar, mas num contexto completamente diferente e em contrarrelógio - e será sempre a DGS a decidir. E alguns clubes podem definhar se o campeonato não for retomado, pois alguns deles dependem 70% das receitas televisivas que deixaram de ser pagas

Pedro Candeias

ANTONIO COTRIM/EPA

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Estiveram lá António Costa, primeiro-ministro, Fernando Gomes, presidente da Federação, Pinto da Costa, presidente do FC Porto, Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, Frederico Varandas, presidente do Sporting, Tiago Craveiro, CEO da FPF – e também Pedro Proença, presidente da Liga, convocado à última hora, corrigindo-se assim um lapso que podia ser comprometedor.

Contabilizados os protagonistas, na reunião de São Bento onde se discutiu a retoma do futebol profissional em contexto de covid-19, não houve assento para representantes de clubes da II Liga. Mas isso não significa que o tema não tenha sido debatido, até porque o que acontece à II Liga implica a I Liga, pois há subidas e descidas de divisão a serem definidas.

De acordo com fontes próximas do processo houve uma solução provisória lançada para cima da mesa: a II Liga não regressa esta época.

Porque o seu regresso implicaria muitos mais jogos, a possibilidade de contágio aumentaria e também aumentaria o risco para a saúde pública; isso é inegociável para António Costa. Porque, por outro lado, feito o balanço entre os gastos com viagens, deslocações e estágios e o dinheiro não recebido da bilheteira (a assistência média por jogo é de pouco mais de mil adeptos nas bancadas por jogo), a conta até pode ser favorável.

E, finalmente, porque, segundo contaram à Tribuna Expresso, os clubes da I Liga estariam disponíveis para contribuir com parcelas dos dinheiros seus direitos televisivos para cobrir as perdas dos clubes da II Liga que não os receberiam com o cancelamento da competição. No total: dois milhões de euros a distribuir pelos 18 emblemas.

Quanto a descidas de divisão na II Liga, há duas medidas que irão ser discutidas em sede de Assembleia Geral da Liga, na próxima segunda ou terça-feira: o congelamento ou a meritocracia.

Assim, se a II Liga não for concluída, Nacional e Farense, os primeiros classificados antes da suspensão, sobem à I Liga; a seguir, das duas, uma: o Cova da Piedade e o Casa Pia, os últimos classificados, descem de divisão, ou então permanecem e a II Liga terá excecionalmente 20 equipas na temporada 2020-21 que resultaria na descida de quatro clubes na época seguinte para voltar à normalidade.

De acordo com fontes oficiais de clubes das duas ligas, a primeira hipótese é a mais viável.

E a I Liga?

A Liga tinha um modelo para o regresso à atividade chamado "Retoma Progressiva à Competição". Nesse documento, a que a Tribuna Expresso teve acesso, são especificadas as regras de higiene e de desinfeção, o uso de máscaras, luvas e o número máximo de pessoas nas bancadas presidenciais, estágios curtos, uso de carros individuais em viagens, etc.

Não é esse texto - que teve uma segunda revisão e que foi criticado por clubes ("um nado-morto") -, que conta para o Governo.

É um outro manual, a ser elaborado pela Federação Portuguesa de Futebol, que anunciou a criação de um grupo de trabalho para o efeito. Nessa task force estão vários especialistas, entre os quais o ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes, representantes da Escola de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, serviços de infecciologia do Hospital Curry Cabral e do Hospital São João - e também está a Unidade de Saúde e Performance da FPF.

[Por lei, e de acordo com um especialista em direito desportivo, o "Regime Jurídico das Federações Desportivas" e a "Lei de Bases da Atividade Física e Desporto" dão guarida à liderança da FPF neste processo.]

Segundo informações recolhidas pela Tribuna Expresso, está a ser estudada a hipótese de o campeonato ser retomado em contrarrelógio num número determinado de estádios (cinco, seis, sete) que reúnam as condições e as infraestruturas imprescindíveis para a segurança e higienização em fase de pandemia (acessos, tamanho de bancadas, etc). Neste caso, o Santa Clara e o Marítimo seriam forçados a ficar no Continente.

Os jogos poderiam ser disputados durante a semana e ao fim de semana, acelerando o processo de conclusão a tempo da tal data limite sugerida pela UEFA - 3 de agosto - para o final das ligas europeias. [Lá fora, a França e a Holanda encerraram as suas competições, mas a Alemanha, por exemplo, conta reabrir a Bundesliga a 9 de maio.]

É provável também que este grupo de trabalho aponte os jogos à porta fechada como a hipótese mais exequível em tempo de covid-19.

A sobrevivência

Os clubes estão, na generalidade, recetivos a estas medidas, pois um regresso à competição é decisivo para a "sobrevivência da indústria", diz-nos um presidente de um clube da I Liga. A situação "é dramática", garante a mesma fonte, pois o momento em que os operadores de televisão deixaram de pagar, foi o momento em que os orçamentos foram desfeitos.

Há emblemas cujas receitas de TV constituem 50% das receitas; outros, que pouco faturam em vendas de jogadores, dependem em 70% destes dinheiros. Nada receber, entre abril e 31 de agosto, abriria caminho "a falências".

Nota: subtraindo os três grandes (€28 milhões anuais, em média), o Braga (€10 milhões/ano) e o Vitória de Guimarães (€9 milhões/ano), um clube de meio da tabela recebe anualmente 3,5 milhões de euros dos operadores. Não havendo centralização dos direitos televisivos, caso único na Europa, as disparidades são gritantes.