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Voltar a jogar depois de dois meses a treinar em casa? "Vai haver um pico de lesões. Isto não é saudável, nem é bom para a competição"

Francisco Martins é preparador físico e trabalha, ou já trabalhou, com vários internacionais portugueses e diz que quando a I Liga for retomada e "começarem a aparecer os jogos e a intensidade aumentar, o risco elevado de lesões vai ser muito maior". Porque, durante dois meses, por muito que tenham treinado em casa, os jogadores tiveram "cargas mecânicas muito baixas" e "estímulos muito redutores" que uma mini-pré-época não deverá compensar. João Faleiro, fisiologista do exercício, lembra que ninguém "aprendeu nos livros, ou foi ensinado, a alterar o planeamento tendo em conta um vírus que aparece a meio do campeonato"

Diogo Pombo

Alexandre Simões/Getty

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Faz dois fins de semana que o futebol voltou. A Alemanha chegou-se à frente e rejubilou-se com o retorno, que se jogou entre 16, 17 e 18 de maio e já vai na terceira fornada de partidas feitas perante ninguém nos estádios. Mas, finalizada a primeira das jornadas pandémicas, contavam-se oito jogadores lesionados com problemas musculares, não com pancadas ou traumatismos.

Antes, houve mazelas a aparecerem, aos poucos, antes sequer de haver jogos. Axel Witsel magoou-se nos adutores, Gonçalo Paciência teve “uma pequena lesão no pé”, os gémeos de Zlatan Ibrahimovic pararam-no, uma entorse no joelho frenou João Félix e uma rotura de um ligamento parou Iván Marcano, do FC Porto. Outros exemplos haveria de músculos a arreliarem futebolistas no retorno à competição, ou aos treinos.

A reclusão tocou a todos. Foram quase dois meses em casa, os clubes deram equipamento aos jogadores, os preparadores físicos acompanharam à distância, fez-se o que se pôde. Se agora e em diante surgirem lesões, "vai-se tendencialmente pensar que estão relacionadas com esta situação", disse, há dias, o presidente da direção da Associação Nacional de Médicos de Futebol.

Pedro Mendonça acha que pensa que um "acréscimo exagerado" de problemas musculares não acontecerá e, mesmo que aí venha, não acha "que sejam óbvia e diretamente relacionadas com este tempo de paragem que os jogadores tiveram". Mas há quem ache.

Mesmo que, durante os quase dois meses em casa, “tivesses jogadores a treinarem muito bem ao nível de ginásio”, com passadeiras, bicicletas de vento ou máquinas de remos, Francisco Martins defende que “não conseguiste dar os mesmos estímulos em termos de treino de força, de trabalho anaeróbio e de sistemas energéticos”.

Foram apenas os estímulos possíveis, explica-nos, que são “completamente diferentes” dos que os jogadores têm nos clubes, onde há bola à mistura com “mudanças de direção e aceleração”. O preparador físico que trabalha ou já trabalhou, individualmente, com jogadores como Bruno Fernandes, João Mário, José Fonte, Gonçalo Paciência, Ricardo Pereira, Renato Sanches ou Luís Neto, teme que em Portugal e lá fora “vai haver um grande pico de lesões” em jogadores.

As equipas da Bundesliga voltaram aos treinos na primeira semana de abril, quase mês e meio antes do recomeço da competição. Mais ou menos o tempo de treino com o clube que grande parte dos futebolistas da I Liga terão até 3, 4 e 5 de junho, quando se começará a jogar as primeiras de 90 partidas que restam no campeonato.

A maior parte dos jogadores ficaram “50 e tal dias” em casa, “a fazer aqueles treinos” com cargas mecânicas “muito baixas”, sem serem, “nem de perto”, o que acontece no treino de clubes “em termos de estímulo neuromuscular e em relação à componente músculo-esquelética”.

E não será pouco mais de um mês de mini-pré-época, onde “temos que meter o gás todo”, defende Francisco Martins, que vai preparar os jogadores da melhor maneira.

Francisco Martins fez a formação no Belenenses e jogou futebol até aos 23 anos.

Francisco Martins fez a formação no Belenenses e jogou futebol até aos 23 anos.

Nuno Botelho

Porque nem será, de todo, uma pré-temporada com os seus tiques normais - além de mais curta e entre dois períodos intensos de competição, não haverá jogos de preparação, em que os jogadores poderiam ir tendo 15, 30, 45, 60 minutos ou o tempo de jogo que seja, de forma gradual.

De repente, lamenta o preparador físico, “queremos introduzir a competição outra vez de uma maneira muito elevada quando o corpo esteve parado durante muito tempo”. Diz que “isto não é benéfico, não é saudável, nem é bom para a competição”. Mas, como resume João Faleiro, esta era uma de duas possibilidades que existiam e foi a escolhida por quem competia decidir.

O fisiologista do exercício explica à Tribuna Expresso que, optando-se por condensar o calendário, tudo vai depender “da gestão, do planeamento e do olho de cada preparador físico” dos clubes para se “adaptarem a algo que nunca aconteceu”.

Não há livros ou manuais que João Faleiro tenha tocado na Faculdade de Motricidade Humana, ou no Barça Innovation Hub, onde também se formou na Gestão de Cargas de Treino em Futebol, que ensinassem “como alteramos o planeamento tendo em conta um vírus que aparece a meio do campeonato, obriga os jogadores a estarem dois meses parados e força uma mini pré-época”.

É território quase desconhecido e terreno não explorado para toda a gente.

O tempo a treinarem em casa, mais o que terão já de trabalho nos clubes, terá de preparar os jogadores para o regresso à intensidade da competição, que chegará aos jogos a cada três ou quatro dias.

Francisco Martins designa-o como "um patamar muito bruto para o corpo". João Faleiro aponta à tal condensação do calendário competitivo. “Não é o único fator, mas esta adaptação a esta gestão do treino vai ditar o aumento, ou não, das possibilidades de lesão. Não temos nenhuma referência, nunca ninguém nos ensinou, será o conhecimento das pessoas adaptado às circunstâncias e ao improviso”, analisa.

À distância, por mais que as modernices tecnológicas e telemóveis espertos aproximem as gentes, diz ele que “é quase impossível” fazer o que sempre tenta, ao trabalhar com cada atleta: “Replicar em treino o máximo de exigência que pode acontecer em contexto competitivo”.

É por isso, igualmente, que Francisco Martins crê que a I Liga, quando regressar, terá jogos com “uma intensidade muito baixa”. Ou então, acrescenta, veremos jogos em que “os jogadores parece que correm a passo, porque não estão preparados, não por falta de treinos durante quase dois meses, mas porque estiveram 50 e tal dias em casa, com estímulos completamente diferentes”.

A Bundesliga vai na terceira jornada pós-retorno e, a partir desta semana, já terá jogos a cada três ou quatro dias, para todas as equipas. “Aí é que vamos ver se haverá uma quebra grande de rendimento e um maior aparecimento de lesões”, vaticina. O campeonato português também chegará lá e aí veremos quantas arrelias musculares haverá nos jogadores.