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Esperámos 87 dias. E fomos recompensados com um golo assim

Um golaço de Lucas Fernandes fez-nos lembrar, quase três meses depois, que o futebol estará sempre pronto para nos dar beleza quando os tempos são feios. O Portimonense venceu o Gil Vicente por 1-0 no jogo que marcou o retomar da I Liga, o primeiro jogo pós-covid

Lídia Paralta Gomes

LUÍS FORRA/LUSA

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“Esteja alerta para a regra dos três
O que você dá retornará para você
Essa lição você tem que aprender
Você só ganha o que você merece”

É assim, com esta quadra recitada em português do Brasil, que arranca o terceiro álbum dos Portishead - chamado “Third”, nem de propósito -, um adágio sobre o karma, sobre o poder das boas ações ou, talvez, quero eu pensar, sobre a resiliência, pela recompensa que chega a quem tem a capacidade de esperar.

Como nós, todos nós, que aguentámos 87 dias para voltar a ver futebol, que nos foi roubado por um vírus invisível e, por isso, trapaceiro. E eu, que nem sou de acreditar nestas coisas do destino, dos deuses que lá em cima puxam uns cordelinhos para que os bem-comportados tenham o seu respetivo pagamento, confesso que quase me tornei crente no momento em que Lucas Fernandes, brasileiro do Portimonense, achou que todos merecíamos algo bonito depois de semanas e semanas sem futebol, sem jantares com amigos, sem imperiais no café, sem um abraço dos pais e sem tantas outras coisas. Estávamos no minuto 50 do jogo que marcou o recomeço da I Liga, quase três meses depois, quando o médio, descaído na esquerda, viu lá ao fundo o canto esquerdo da baliza do Gil Vicente e percebeu que era ali que a bola tinha de entrar.

Foi um golaço, um remate forte, potente, colocado, perfeito, que ainda bateu no poste para polvilhar de algum drama o momento - e quem já não tinha saudades destes microsegundos de drama que o futebol por vezes nos dá?

LUÍS FORRA/LUSA

Nós ganhámos o que merecemos, como diz a voz brasileira da canção dos Portishead, um grande golo no reinicio do campeonato e o Portimonense talvez até tenha ganhado uma nova vida porque aquele golo além de bonitão deu ao clube do Algarve a primeira vitória desde 30 de novembro, que é o dia de aniversário da minha mãe e parece-me numa outra vida - parece não, é mesmo - quando ainda se podiam fazer festas de aniversário com muita gente e muitos abraços. Os mesmos abraços que Lucas Fernandes não recusou a ninguém depois daquele remate, os grandes e inesperados golos são inimigos do muito pensar, das regras que tivemos de assimilar rapidamente desde março e que por vezes, sem má intenção, se nos varrem da cabeça porque o futebol também é das emoções e não dos mecanismos.

O Portimonense fica assim mais perto da tona da água, apesar de ainda estar nos lugares de despromoção. O Gil Vicente talvez se possa queixar de alguma injustiça, num jogo onde quase nunca se notou a falta de ritmo ou as ferrugens que poderiam oxidar os movimentos e as rotinas dos jogadores depois de tanto tempo sem futebol. Mesmo no silêncio, as duas equipas tentaram jogar: houve ideias mas, no entanto, pouca execução, à exceção daquele remate de Lucas Fernandes.

Talvez o resultado mais justo fosse um empate, porque a equipa de Vítor Oliveira começou melhor e respondeu bem ao golo naquele estádio onde até Marcelo Rebelo de Sousa estava presente, e não, não se trata de mais um movimento de ubiquidade do Presidente da República mas sim obra da tarja gigante que vestiu as bancadas do Estádio Municipal de Portimão, com centenas de caras, umas mais anónimas que outras, as mesmas que não podem estar ali, porque este vírus ainda não nos deixou completamente livres.

Mas um dia vai deixar.