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O FC Porto começou como se nunca tivesse partido e acabou partido sem saber como recomeçar

O FC Porto perdeu em Famalicão, por 2-1, e pode comprometer a liderança do campeonato que recomeçou esta quarta-feira, 87 dias depois da suspensão. Os famalicenses marcaram primeiro, num disparate de Marchesin, que pôs a bola nos pés de Fábio Martins; depois, os portistas empataram por Corona, mas não conseguiram manter a frieza necessária para concretizar a recuperação. Sofreram então segundo golo e, a doze minutos dos 90, com os músculos e os pulmões em falência técnica e o coração na boca, as possibilidades de transformarem a desvantagem em vantagem reduzir-se-iam primeiro a poucas - e a seguir a nada. Com Zé Luís e com Aboubakar e sem o providencial golo de bola parada que tantas vezes safou Sérgio Conceição, o FC Porto acabou derrotado, visivelmente cansado e abatido. Porque o amanhã pode ser madrasto. Na quinta-feira, o Benfica defronta o Tondela e desse encontro pode sair uma nova reviravolta no campeonato. Dizer que será definitiva é um exercício inútil, pois toda a gente percebeu que é capaz de dar cambalhotas frontais e à retaguarda. É uma questão de oportunidade

Pedro Candeias

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Bem sei que se passaram muitos dias desde o dia em que isto ficou suspenso, e a malta daí em diante em suspense, a tentar adivinhar datas, procedimentos, protocolos, atirando riscos contra oportunidades e patinhando entre certezas, possibilidades, plausibilidades ou impossibilidades - a maior de todas, claro, a de que a bola podia voltar como dantes, quando nada seria como antes.

Naturalmente condicionada, a coisa foi retomada e o primeiro classificado do campeonato jogou contra a outrora surpresa do campeonato num estádio sem público e as claques e os adeptos do lado de fora. Tinham bombos e megafones na mão, cânticos na voz e as obrigatórias máscaras cirúrgicas postas na cara para certificar o bom comportamento, embora isso não escondesse o duvidoso distanciamento social.

Ouviam-se muito e bem, o árbitro apitou para o arranque do Famalicão - FC Porto e os portistas regressaram como se nunca tivessem partido. Não tinham o lesionado Marcano e o castigado Alex Telles, mas parecia lá estar tudo o resto, aquela intensidade muscular, o meio-campo agressivo, a profundidade de Marega e a inaptidão de Marega também: por duas vezes, o maliano ficou perto do guarda-redes Defendi, numa chutou mal, noutra cruzou pior.

Era vintage FC Porto, num 4x4x2 em linha ou por vezes em losango, pressionando alto um adversário que gostava de sair a jogar; não faltaram igualmente os lances de bola parada em que o poderoso Danilo apareceu num par de ocasiões no lugar certo, com a impulsão certa - e o cabeceamento errado.

Mas, apesar de tudo, o mais normal seria que uma das correrias de Marega entre o lateral e o central ou que um cruzamento/bola lateral batida por Sérgio Oliveira resultasse num golo - porque o Famalicão, enfim, não dava literalmente luta.

Dos rapazes da casa, houve apenas um sprint espevitado de Diogo Gonçalves após um salto mal colocado de Pepe. Frente a frente com Marchesin, o português falhou, mas descobriu-se ali uma fraqueza que podia ser explorada, pois o destro Manafá não é um bom lateral-esquerdo e Pepe troca os pés como central à esquerda.

Até final da primeira-parte, não daria mais Famalicão e o FC Porto colecionou ainda lances de relativo perigo. A estratégia pressionar-primeiro-disparar-depois resultara há uma volta no Dragão, nada indicava que não pudesse resultar novamente.

Assim houvesse pernas e assim não houvesse imprevistos. Só que as primeiras acabariam por falhar e os segundos por aparecer.

Pois então chegou a segunda-parte e tudo mudou num sobressalto: ao minuto 48, Marchesín disparatou num passe para o talentoso Fábio Martins que fez o 1-0, o seu 8.º golo na Liga esta época. As consequências seriam imediatas: o FC Porto iria apertar mais e o Famalicão abdicar, remetendo-se avisadamente à defesa e procurando o contra-ataque. Faltava perceber até onde iria a resistência de cada um dos jogadores, pois aquelas semanas no sofá e nas bicicletas e depois nos exercícios individualizados nunca poderiam replicar um treino e um jogo de alta competição.

Algo tinha de ceder.

E quando Corona empatou - aos 74’, num cruzamento perfeito de Sérgio Oliveira - e pediu calma nos festejos, não por causa da Covid, mas porque não aguentava o cabedal, e enquanto a bola era apressadamente posta ao centro e o mexicano recebia cuidados paliativos para câimbras, foi dado o sinal de partida para um fim de jogo suado e desgastado dos portistas.

Que sofreram outro golo três minutos depois, outra vez num momento bizarro de toca-e-foge sem oposição, entre Pedro Gonçalves e Racic, com o médio português emprestado pelo Wolverhampton a bater pela segunda vez um clube grande da Liga - para a Taça marcara ao Benfica.

A doze minutos dos 90, com os músculos e os pulmões em falência técnica e o coração na boca, as possibilidades de o FC Porto transformar a desvantagem em vantagem reduzir-se-iam primeiro a poucas - e a seguir a nada. Com Zé Luís e com Aboubakar e sem o providencial golo de bola parada que tantas vezes safou Sérgio Conceição, o FC Porto acabou derrotado, visivelmente cansado e abatido, porque o amanhã pode ser madrasto.

Na quinta-feira, o Benfica defronta o Tondela e desse encontro pode sair uma nova reviravolta no campeonato. Dizer que será definitiva é um exercício inútil, pois toda a gente percebeu que toda a gente é capaz de dar cambalhotas frontais e à retaguarda. É uma questão de oportunidade.

P.S.: A batida e a trilha sonora que anunciam os últimos cinco minutos dos jogos nesta retoma da Liga são uma futilidade que incomoda.