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Benfica: Um, dois, teste, som. Um, dois, zero a zero

Apesar de alguma lentidão e previsibilidade, o Benfica somou ocasiões suficientes para bater o Tondela e dessa forma retomar a liderança da Liga na retoma, coisa que nunca veio a acontecer. O que aconteceu foi um final arrastado, suado e deitado, como um jogo-treino a anteceder uma temporada, com futebolistas de cara e corpos bronzeados e visivelmente fora de forma - mas sem a confortável possibilidade de trocar meia equipa ao intervalo ou a oportunidade de fazer experiências técnico-táticas em busca dos modelos perfeitos. Por outro lado, ficou para história a encenação de um som ambiente artificial da BTV, que vitoriou o Benfica nos momentos em que esteve por cima e assobiou o adversário e algumas decisões da arbitragem. Uma meia originalidade, dentro da originalidade desta nova normalidade

Pedro Candeias

Gabriel, um dos melhores do Benfica, em plena perseguição a Richard Alexandre

Gualter Fatia

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A grande originalidade do Benfica - Tondela, além dos regressos do rejuvenescido Jardel e do recuperado Gabriel, era o som. Copiando o que se fez algures na Alemanha, os encarnados decidiram também eles preencher o eco com sons gravados de cânticos e cantilenas dos adeptos e das claques na emissão da BTV. De maneiras que, se fechássemos os olhos e desejássemos a normalidade com muita imaginação e algum mindfulness, não diríamos que o Benfica - Tondela se disputava à porta fechada, que é como quem diz, sem público.

Mas esta curiosidade levantava a dúvida: então e se o Benfica sofresse um golo ou Manuel Mota tomasse uma decisão polémica, sairiam assobios e apupos - ninguém gravaria insultos, obviamente - do sistema de som da Luz? Ou continuaria tudo em clima de festa artificial?

A resposta chegou por volta dos 38, 40 minutos, quando o Tondela conseguiu enfim trocar mais do que três, quatro passes no meio-campo do Benfica: saíram assobios variados, ou seja, a encenação estava a ser operacionalizada em tempo real. Concluíndo, que já vou longe, há um novo ofício no futebol: o DJ de jogos à porta fechada.

No período anterior à resolução desta charada, o Benfica foi amplamente superior ao Tondela, e logo aos três minutos podia ter chegado ao golo por Rafa, após assistência de Vinicius - defendeu Carlos Ramos com o pé esquerdo. Depois, o domínio encarnado prosseguiu provavelmente consentido pelo Tondela, que se trancou lá atrás, fechando ao meio e obrigando o adversário a jogar por fora, onde naturalmente o efeito-surpresa é menor.

E como o jogo interior estava proibido, foi pelas alas que o Benfica procurou chegar à vantagem, através de alguns lançamentos de Gabriel, sobretudo para Grimaldo, ainda que tenha sido um cruzamento largo de Rúben Dias para Vinicius a segunda ocasião mais flagrante da primeira-parte. Resumindo-a, os encarnados remataram mais e tiveram mais bola, mas a previsibilidade na sua condução, a falta de rasgos individuais e também de ritmo competitivo foram travando o ímpeto inicial - convém recordar que o FC Porto perdera na véspera e era tão-só a liderança que estava a ser jogada.

A segunda-parte arrancou mais ou menos como a primeira, com um remate de Rafa a sair ao lado da baliza de Cláudio Ramos; desta vez, a assistência foi de Weigl, que viria a sair insatisfeito ao minuto 59, o momento em que Bruno Lage quis abanar o status quo quando a sua equipa parecia ligeiramente melhor.

Lage trocou o alemão por Dyego Sousa, pô-lo ao lado de Vinicius, músculo com músculo, deixou Gabriel e Taarabt a tomar conta do meio-campo e Pizzi e Rafa nas linhas: 4x4x2 clássico com alguns resultados práticos, o mais evidente o facto de haver duas torres em movimento para marcar.

Por outro lado, a taxa de remates à baliza de Cláudio Ramos também subiu consideravelmente, alguns causando perigo real, como o cabeceamento de Rúben Dias que levou a bola à base do poste (77’), minutos depois de o DJ de serviço ter ‘assobiado’ um fora de jogo assinalado pela equipa de Manuel Mota. Houve igualmente um de Seferovic (entrou para o lugar de Vinicius), aos 80’, que saiu ao lado, e outro de Dyego Sousa (85’), que foi à trave.

O Benfica somava e foi ainda somando ocasiões suficientes para bater o Tondela e dessa forma retomar a liderança da Liga na retoma, coisa que nunca veio a acontecer. O que aconteceu foi um final arrastado, suado e deitado, como um jogo-treino a anteceder uma temporada, com futebolistas de cara e corpos bronzeados e visivelmente fora de forma - mas sem a confortável possibilidade de trocar meia equipa ao intervalo ou a oportunidade de fazer experiências técnico-táticas em busca dos modelos perfeitos. Portanto, o novo normal do futebol português é, para já, uma pré-época em regime de competição. Sem público e com algum som, vá, ambiente.

Não é bonito de se ver, nem particularmente simpático de ouvir, mas é o que há.

P.S. Benfica e FC Porto estão igualados na liderança da Liga, mas com vantagem para os portistas, pois bateram os encarnados nos dois confrontos diretos.