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O desenrascanço do Benfica

Não foi bonito, muito menos espetacular, nem por isso dinâmico ou constante. Foi uma vitória desenrascada (2-0) pelo Benfica contra o Vitória, que chegou a ser superior em alguns períodos do jogo, para ter a felicidade possível quando está nas barbas de ter a infelicidade de uma época

Diogo Pombo

Gualter Fatia/Getty

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Tim Lomas é psicológo, desconheço se feliz é, mas quer muito à felicidade, pelo menos dedica-se a ela, mais precisamente ao que nos sai da boca, dos dedos ou da caneta e remete para ela, seja a grafia ou a fonética que forem. Não importa a língua, é irrelevante a origem, interessa apenas que seja uma palavra não traduzível em outra e com conotação positiva, agradável, em suma feliz.

Começou, há uns anos, a dicionariar esta espécie de compêndio da felicidade, pedindo contribuições a quem estivesse para aí virado, venham daí todas as coisas boas e intraduzíveis numa palavra, mais nunca será demais. Deu-lhe o nome técnico de The Positive Lexicography Project, vai com 142 línguas, o português é uma e a quarta das 14 palavras lá estão é a mui portuguesa palavra desenrascanço.

É “uma solução improvisada” ou um “desembaraço astuto”, segundo a descrição inglesada do termo, como a fazer cerimónia na primeira vez que vai a casa dos pais do namoro iniciado há pouco tempo. Porque desenrascar, em bom português, também pode ser a coisa boa que aparece sabe-se lá como, de onde e de que maneira, quando tudo parecia estar a dar, lenta porém inevitavelmente, para o torto, como a bola que sai da bota de Chiquinho depois de ser cruzada à força por Nuno Tavares e desviar em Vinícius.

O psicólogo talvez não conheça o Benfica, até pode nunca ter ouvido falar, é provável que desconheça ser a equipa começou a época a direito, entortou-se, conseguiu endireitar-se com barriga engordada de pontos para, nos últimos tempos, se ter encruzilhado de novo ao jogar como o faz contra o Vitória: sem rapidez dada à bola, jogadores estáticos, encaracoladas reações à perda de bola, cada um por si a defender e a mesma seca de comportamentos coletivos a atacar a baliza.

O golo que faz, aos 37’, é um desenrascanço contra-corrente, uma bola cruzada pelo lateral que falhara receções de frente para o jogo e fora batido já várias vezes por Marcus Edwards, uma delas da mais previsível das formas estando a bola no inglês, que cortou da direita para dentro na área e curvou a bola contra a barra. O outro lateral, André Almeida, também já fora apaticamente batido quando Florente picou uma bola para a área e Bruno Henrique, acrobaticamente, a rematou para Vlachodimos salvar na linha.

Eram do Vitória as saídas de bola limpas e verticalmente filtradas, com os centrais de olho em passes rasteiros para os extremos, vindos ao centro do campo para tocarem a bola nos médios que vinham de frente, já virados para a baliza, já com a primeira e desgarrada pressão do Benfica ultrapassada, prontos a entrarem na metade do campo contrária em superioridade númerica contra um Gabriel desinteressado em fazer contenção, sempre a deixar Weigl com demasiado espaço e adversários para tapar sozinho.

E aos atrasos e perseguições desesperadas do alemão sucederam faltas, um cartão amarelo e ele a ser janela mais aberta e visível para o imbróglio de problemas coletivos que moram na casa do Benfica. Foi ele que Veríssimo decidiu substituir, logo à meia hora, por Florentino, um médio que sabemos ser bom, intenso a reagir à perda, com olhos de sobra para ver os espaços em campo e simples e prático a distribuir - mas que não jogava desde fevereiro. Ou novembro, se for caso do campeonato.

Gualter Fatia/Getty

Ele ressurgiu e com ele a equipa, um pouco mais atinada a comportar-se sem bola - o português dá capacidade de ladroagem de bola uns metros à frente, e num maior raio de ação - e a ter alguns passes rasteiros e verticais pelo centro, coisa que Weigl tem e muito faz, mas a quem a equipa não se estava a mostrar.

Meia segunda parte foi deste não espetacular, ainda previsível, ainda lento, mas menos errático Benfica, que já não falhava passes tão descarados e recuperava bolas mais cedo. Ganhou tempo com bola, reduziu a queda de Gabriel para descolar passes da relva, atraiu a pressão do Vitória para descobrir espaços nas costas dos jogadores que fazia mexer e encontrava as tabelas pelas linhas que tanto e sempre tenta, mas, nos últimos 30 metros, continuava a não desenrascar o que fosse.

Os de Guimarães sofria com o critério acrescido dos jogadores do Benfica. Ficou a ver Edwards e Ola John à distância, sem alimentar de bola os tipos que mais coisas inventam que seja traduzíveis em felicidade para a equipa, as poucas que recebiam eram à entrada do meio campo, de costas, sempre pressionadas, contexto que apenas mudou por volta dos 75’, quando André André carregou um contra-ataque até rematar à entrada da área.

Aí o Vitória acentuou a pressão média-alta, voltou a reaver bolas a meio campo e a ter Pêpê a dá-las e buscá-las de frente para o bloco do Benfica. Nada de ameaçador fez a não ser um golo de João Pedro que não valeu por estar em fora-de-jogo, num canto defendido letargicamente à zona por uma linha onde nenhum jogador atacou o espaço à sua frente.

Do quase-golaço de Seferovic, a 40 metros da baliza, e do seu real-golo feito a partir de um cruzamento rasteiro de Rafa, pela direita, se fez o resto de um jogo mais lento do que dinâmico para o Benfica, que desenrascou o primeiro golo contra tudo o que estava a acontecer e só a partir daí tocou na felicidade que lhe é possível, de momento - adiou a provável festa do título do FC Porto, garantiu o segundo lugar do campeonato e o direito a entrar na pré-eliminatória da Liga dos Campeões.

O Benfica não se desembaraçou astutamente, nem improvisou uma solução. Conseguiu, sim, desenrascar-se para ser feliz perante a iminente infelicidade que lhe parece ser cada vez mais inevitável.