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SAD do Aves não pagou apólice de seguro dos jogadores, cancelou treino e diz que não jogará contra o Benfica e o Portimonense

O último classificado do campeonato, já despromovido, tinha treino agendado para as 17h30 deste domingo, mas a SAD cancelou-o devido ao cancelamento da apólice de seguro contra acidentes de trabalho, que diz não ter verbas para reativar e, por isso, não vai acomparecer aos dois jogos que restam no campeonato. Mas o treinador e os jogadores compareceram, na mesma, nas instalações do Desportivo das Aves, com António Freitas, presidente do clube que culpou a SAD de tudo o que tem vindo a acontecer: "Isto é uma vergonha. Isto não é o futebol português"

Diogo Pombo

Paulo Nascimento/Getty Images

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O Desportivo das Aves tinha um treino marcado para as 17h30 deste domingo e tudo seria normal, fossem as coisas normais. Mas são todo o contrário disso.

A equipa já tem a descida à segunda liga confirmada. Os 25 jogadores do plantel não recebem salários há quase três meses. Alguns já rescindiram e vários estarão em processo de rescindir contrato com o clube, cuja SAD já deu publicamente conta da intenção de não comparecer ao último jogo da Liga NOS, contra o Portimonense.

Agora, também a partida frente ao Benfica, às 21h15 de terça-feira, pode estar em causa.

A SAD do Aves cancelou o treino deste domingo por não ter reunido dinheiro para pagar a apólice de seguro contra acidentes de trabalho dos jogadores. Não tendo o seguro acionado, diz que a equipa também não irá comparecer aos dois jogos que faltam no campeonato, contra Benfica e Portimonense. A garantia foi dada Estrela Costa, assessora da SAD, num telefonema feito com a "Sport TV".

Assim que soube dessa intenção, António Freitas, presidente do clube, eleito no final de junho, compareceu com alguns adeptos nas instalações do clube. O objetivo seria conversar com os jogadores e convencê-los a não terminarem os seus vínculos para que a equipa se pudesse apresentar na derradeira jornada do campeonato.

Não treinando, este domingo, os jogadores também não se submeteram aos testes de despistagem à covid-19 que cada clube da I Liga é obrigado a realizar, 48 horas antes de um jogo, de acordo com o protocolo imposto pela Liga de Clubes e pela Direção-Geral de Saúde.

Plantel apresentou-se para treinar, presidente critica SAD

Mas Nuno Manta Santos e os jogadores terão ignorado as indicações da SAD e comparecido no estádio do Desportivo das Aves para treinarem. Ao estádio deslocou-se também António Freitas, presidente do clube, eleito no final de junho, inicialmente com o objetivo de convencer os jogadores a não rescindirem os contratos.

Porque, na segunda-feira, os 25 futebolistas do plantel poderão rescindir os contratos, unilateralmente e por justa causa, pois aí se cumprirão 90 dias consecutivos sem receberem qualquer vencimento, como explicou "O Jogo". Essa condição consta no seu contrato coletivo de trabalho.

Entretanto, ao telefone com a "Sport TV", o presidente António Freitas revelou que estava nas instalações do clube, com os jogadores, mas que não lhes era permitido treinarem por Estrela Costa, assessora da SAD a quem dirigiu fortes críticas e culpou pela situação decadente do clube:

"A administração da SAD tudo, tudo tem feito para que o Aves não realize os dois jogos. O clube está disposto a fazer sacrifícios para ajudar, tenho aqui o plantel pronto para treinar, estavam prontos para defender o nome do clube, estão aqui todos para podermos realizar o jogo de terça-feira com o Benfica. Não levantamos qualquer entrave. Mas este senhora [Estrela Costa] cria outro. Isto para mim só tem uma palavra: chantagem. Isto vai obrigar-me a falar com jurídicos. Estão a arruinar o clube, que vai fazer 90 anos em novembro, e a pôr em causa o futebol nacional. É uma falta de respeito."

A Liga sabe perfeitamente o que se está a passar, tem feito tudo o que seja possível para que os jogos se realizem. O Pedro Proença sabe perfeitamente que esta senhora não tem colaborado em nada. O Fernando Gomes também. Estive sempre do lado da solução e não do problema. Ela arruina este clube, o clube vai desaparecer das provas e ir para a distrital, mas vai ter uma penalização. O clube tem o patrimónia todo pago, não está nada hipotecado. A direção anterior, por maior respeito que tenha por ela, deixou um protocolado assinado e eles não pagam nada a ninguém. Isto é uma vergonha. Isto já está a correr páginas na UEFA. Isto não é o futebol português."

A Liga está preocupado. O Pedro Proença tem sido uma pessoa extraordinário, tem falado muitas vezes comigo, até para me dar força. A Liga tudo tem feito para que o clube possa estar presente. Estou desgastado. Eu e a minha direção tudo estamos a fazer, estamos à procura de investidores. A assessora diz que articula tudo com o presidente da SAD, mas essa senhora é que monta a estratégia. Nem sei o que dizer. Não posso, com 20 dias de presidência, ficar com o ónus de algo de muito mau que vai acontecer com este clube."

Para as 19h está marcada uma conferência de imprensa de António Freitas.

SAD confirmou: não há dinheiro

Pouco depois, foi a vez de Estrela Costa conversar, por telefone, também com a "Sport TV", a confirmar que, de facto, ordenou que as sessões de treino da equipa fossem canceladas. A assessora da SAD não revelou qual o valor em falta para o pagamento da apólice de seguro em causa.

"A SAD do Desportivo das Aves está a tentar articular com a Liga todos os dispostos, no sentido de ultrapassarmos esta situação. Não conseguimos. Portanto, hoje [domingo], por volta da hora de almoço, pedidos, na qualidade da administração, para serem cancelados os treinos da equipa de futebol.

A 17 de junho fomos informados pela Caravela Seguros e pela Liga de que a nossa apólice estaria anulada. Sabemos que o Regulamento das Competições não nos permite efetuar o treino e o jogo sem os jogadores devidamente segurados para um possível acidente de trabalho. Após uma reunião de urgência da admnistração, não conseguimos reunir a verba para pagar o seguro e, portanto, decidimos não comparecer aos seguintes jogos e cancelar os treinos. São motivos de força maior.

A luta foi incansável no sentido de ultrapassarmos esta questão. Obviamente, não seria justo para os restantes clubes, que pagam os seguros Caravela, admitirem que se faça a reativação da apólice sem o pagamento. Aqui não está em causa o rigor da Caravela ou da Liga, mas efetivamente temos a apólice de seguro para acidentes de trabalho anulada e não podemos fazer o treino, nem os jogos.

Hoje [domingo] deveríamos estar a realizar os testes à covid-19, obrigatórios, segundo o plano de retoma, 48 horas antes do jogo. Só por isto já está em causa esse plano de retoma.

A Liga apresentou-nos soluções dentro das fragilidades que tem. A Liga não pode dar dinheiro a uns e não a outros. A única maneira de ultrapassarmos isto é termos dinheiro e capacidade financeira para pagarmos as nossas obrigações contratuais para a realização dos jogos. A Liga não pode assumir uma responsabilidade financeira de um clube. Também a Caravela não pode autorizar que uns paguem o seguro e ser mecenas com outros.

O facto de não treinarmos é uma decisão da admnistração por termos uma anulação da apólice de seguro e por não podermos, mesmo, realizar o treino."

O risco de não comparência e o papel de Estrela Costa

Na quinta-feira, 17 de julho, a SAD do Aves revelou, em comunicado enviado à agência "Lusa", que devido a "rescisões quase diárias" de jogadores do plantel "com vários meses de salários em atraso", não estava "reunidas condições para salvaguardar a verdade desportiva e transparência na luta pela permanência" na primeira divisão e que ia pedir à Liga de Clubes a não atribuição dos pontos desse jogo. O Tondela, por exemplo, já criticou publicamente a postura do clube.

A direção do clube reagiu, no mesmo dia, escrevendo no site que "se demarca totalmente da decisão" baseada em razões "deploráveis e descabidas", tendo-se prontificado a "assumir todas as despesas de deslocação e alojamento para que a equipa tenha condições de marcar presença no jogo da 34ª e última jornada da Liga NOS, em Portimão".

O capital da SAD do Desportivo das Aves é detida em 89,9% pela Galaxy Belivers, empresa cujo principal acionista é Wei Zhao, cidadão chinês. e marido de Estrela Costa, escreveu o jornal "Record".

Em maio, a dirigente comprou 10% das ações que Luiz Adriano, brasileiro que presidira à SAD do Aves até à semana anterior, tinha na empresa. Passou, portanto, a ser a nova acionista da empresa e assessora da Sociedade Anónima Desportiva da qual se demitira, em março, do cargo de diretora-executiva, alegando discordâncias com a forma de gestão do futebol.

Um mês depois, circulou pelas redes sociais um áudio de uma suposta conversa entre Estrela Costa e Wei Zhao, na qual a portuguesa acusada o empresário de chinês de ter vendido três jogos e "ter feito rolar" um treinador, na altura Augusto Inácio, que entretanto foi substituído no cargo por Nuno Manta Santos.

A SAD do Aves reagiria, pouco depois: "esta SAD lamenta e repudia veementemente o conteúdo e a veracidade de infundadas afirmações contidas na referida gravação. Na verdade, as mesmas são falsas, demarcando-se completamente do seu conteúdo".