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Ficou 4-0, mas no final uns e outros pouco falaram de futebol. Fazê-lo seria desonrar a sua memória

O Benfica venceu justamente o Desportivo das Aves (4-0) num jogo que fica marcado por tudo o que foi acontecendo ao clube de Vila das Aves e que relegou o resultado para um plano secundário. O futebol português faleceu um bocadinho mais nesta penúltima jornada da Liga

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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O primeiro momento de silêncio alguma vez registado aconteceu a 12 de fevereiro de 1912, no Senado português e em memória de José Maria da Silva Paranhos, Barão do Rio Branco, que morrera a 10 de fevereiro no Rio de Janeiro. No site dos debates parlamentares está descrita esta resolução que durou dez minutos, “por consideração, pois, para com todos estes aspectos daquele vulto notável”. Este protocolo carregado de simbolismo seria depois replicado nas mais variadas circunstâncias, até no desporto, especificamente neste desporto, onde os 10 minutos foram encurtados para um, em homenagem aos que partiram.

Que se saiba, ninguém remotamente ligado ao Desportivo das Aves - Benfica tinha morrido antes do jogo, mas como o futebol falecera um bocadinho nos dias que o antecederam, era justo prestar-lhe tributo: o minuto de silêncio foi substituído por 60 segundos em que os atletas do Benfica trocaram a bola sem qualquer sentido. De cabeça baixa, os jogadores do Aves terão revivido os episódios absurdos que toda a gente conhece: a SAD que não queria ir a jogo e que lhe deixara caducar a apólice do seguro e não lhes pagava há meses, também ficara com as chaves do autocarro e das portas do estádio, deixando os balneários por arrumar, sem assessor de imprensa – e provavelmente sem a Taça de Portugal conquistada em 2018. Uma bebedeira inconsciente.

Ora, “se os mortos não bebem”, como disse um dia a Maria D’Aires ao Diogo Infante, certamente também não jogam à bola, pelo que o Benfica foi encontrar um adversário moribundo, desfeito mas honrado, embora vencido à partida; a derrota à chegada foi anunciada logo ao minuto quatro, quando Pizzi desmarcou Rafa e este fez o seu sétimo golo na Liga, após uma subtil receção orientada.

Os encarnados, ainda treinados por Veríssimo mas já com o Mestre da Tática a fazer vistorias à casa, apresentaram-se com uma grande surpresa (Svilar na baliza), outra assim-assim (Florentino foi titular pela primeira vez desde novembro) e com razoável intensidade: Vinicius cabeceou por cima (15’) num cruzamento de Pizzi, Chiquinho fintou-se a ele próprio dentro da área (24’), Pizzi chutou bem para uma defesa estranha do estreante Sheytanov (39’) e Vinicius voltou a cabecear para fora (40’). A conclusão é aritmética simples: o Benfica foi bastante superior, apesar de uma tímida reação do Aves, já fora I Liga 2020-21, que lá se tentou recompor do coma induzido com o andamento do jogo.

Nunca seria suficiente.

A segunda-parte começou com o terceiro cabeceamento seguido falhado por Vinicus (48’) e depois com o penálti assinalado contra o Aves, por mão na bola de Bruno Morais. Chamado à conversão, Pizzi fez o 18.º golo na Liga, o 30.º de uma época singular; a seguir, procurou várias vezes o 19.º (é o goleador da Liga) e o 31.º (Bruno Fernandes fez 32, a melhor marca de sempre de um médio) golos e seria com frustração que pontapearia o poste num falhanço inesperado (71’).

Nesse momento, já entrara Seferovic, de cabelo reluzente, e também Dyego Souza, para os lugares de Vinicius e de Chiquinho, significando que o Benfica tinha agora dois pesos-pesados lá à frente para derrubar a defesa a cinco de Manta Santos. Nem um nem outro, porém, se assumiriam realmente decisivos para a construção da goleada que selou o jogo - seria o miúdo Gonçalo Ramos, médio poderoso de 19 anos, a fazer o 3.º (85') e 4.º (87') golos, cristalizando em campo as esperanças que alguns responsáveis encarnados depositam no papel.

Ficou 4-0, mas no final uns e outros pouco falaram de futebol. Fazê-lo seria desonrar a sua memória.