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A ilegalidade do mérito: um texto para explicar a realidade complexa dos cursos de treinadores

Luís Freire e César Peixoto criticam critérios de acesso e falta de cursos. Federação Portuguesa de Futebol diz que são “adequados”, UEFA acha que “não faz sentido” abrir mais vagas e a Associação Nacional de Treinadores considera que os critérios garantem “seriação, rigor, transparência”. Um movimento de 40 treinadores enviou uma carta à FPF e já foi criada uma petição pública pela reformulação dos processos formativos de treinadores em Portugal

Diogo Pombo e Mariana Cabral

Luís Freire subiu, esta época, o Nacional da Madeira à I Liga. Foi a sexta subida de divisão que o treinador conseguiu em oito anos. Tem apenas o nível II (UEFA B)

Gregório Cunha

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“Sou treinador de futebol, tenho o segundo de quatro níveis, sou português e quero, em Portugal, tirar o terceiro, e depois o quarto, para estar nos conformes e poder treinar na I Liga. Mas, mesmo que a vida me corra bem e as equipas em que toco ganharem, e os interessados fizerem fila, demorarei pelo menos três anos a poder candidatar-me ao curso de IV nível.”

Luís Freire é, no fundo, como este eu metafórico. Quando, em 2017, chegou ao Mafra, tinha o UEFA B (nível II), exigível para treinar no Campeonato de Portugal, no qual se estreava, mas onde só ficou um ano, pois subiu logo a equipa à II Liga, onde a habilitação necessária é o grau III. Aí começaram os problemas. “Sendo treinador principal e subindo o Mafra, passo a estar ilegal se quiser continuar no Mafra. Portanto, obrigam-me a ser treinador-adjunto no papel a partir daí”, lamenta à Tribuna Expresso o técnico, que ainda hoje mantém esse nível II.

Depois, Luís Freire treinou o Estoril Praia, em 2018-2019, e promoveu à I Liga o Nacional da Madeira esta época. Estava ilegal e assim continuará, porque, a 13 de julho, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) rejeitou a sua inscrição no curso de grau III, tal como recusou há três anos. Na altura, “diziam que não tinha dois anos enquanto treinador nos campeonatos nacionais”. Agora já os tem e a sua candidatura ficou como suplente, o que o deixou “surpreso e revoltado”.

Como Rúben Amorim, no Sporting, que tem apenas o nível II, será um dos treinadores, na prática, ilegais e sem habilitações a trabalharem na I Liga em 2020-2021. A eles se juntará Tiago Mendes, que não possui o IV nível e já foi confirmado pelo Vitória de Guimarães como o treinador para a próxima época. Esta temporada ainda houve Silas, também no Sporting, ou Custódio, no Braga. “Isto traz problemas financeiros para mim e para o clube, porque, estando no banco sem me poder levantar, estou sujeito a multas e sou tratado como ilegal, quando fiz tudo para estar legal e não tive oportunidade”, critica Luís Freire, licenciado e mestre em Educação Física e Desporto.

Existem quatro níveis de treinador de futebol, reconhecidos por esta ordem: UEFA C, B, A e Pro. Em Portugal, os cursos para os dois primeiros são geridos pelas associações distritais de futebol, aos quais é possível obter equivalência académica, via Instituto Português da Juventude e do Desporto (IPDJ); os cursos dos níveis III e IV são da responsabilidade da FPF. Já existiram, igualmente, dois cursos B+A, destinados só a antigos jogadores que tenham cumprido, pelo menos, 50 internacionalizações A ou sete épocas na primeira divisão. São conhecidos como os aceleradores de carreira.

É a Federação que, em parte, define as condições de candidatura e, à Tribuna Expresso, defende as duas épocas (para o nível III) e as três (nível IV) feitas em campeonatos nacionais — nos escalões de formação, no Campeonato de Portugal ou na II e I Ligas — como “um requisito adequado” com vista a “habilitar treinadores para dirigirem equipas que participam nas competições de topo nacionais e internacionais, de clubes e seleções nacionais”.

Para os cursos UEFA A e Pro, os anos passados a treinar em divisões distritais não contam. Pode um treinador ter 10 épocas feitas, sempre a ser campeão distrital por várias equipas, que a irrelevância se mantém. Isto tramou Luís Freire na primeira vez que se candidatou, mesmo tendo subido o Pêro Pinheiro, duas épocas seguidas, na Associação de Futebol de Lisboa. “Um treinador pode subir as divisões todas e não há lei nenhuma que proteja quem tem mérito desportivo vindo de baixo. Este é o grande problema da lei.” Da qual a Federação vai além.

A Lei nº 106/2019, de 6 de setembro, estipula que para ter acesso a cursos do nível III e IV qualquer pessoa deve ter, respetivamente, um e dois anos de prática com o grau anterior. A FPF, contudo, exige dois e três. “É o período mínimo que consideramos adequado”, reforça o organismo. A UEFA, no documento que regula esta área, exige uma época para cada nível. À Tribuna Expresso, a entidade explica que “é apenas um critério mínimo” e “cada federação está no seu direito de exigir padrões mais elevados”. E acrescenta: “Não faria sentido educar 100 treinadores de cada vez, porque seria impossível encontrar 100 vagas onde pudessem treinar.”

César Peixoto tirou os cursos para os níveis II e III na Irlanda do Norte

César Peixoto tirou os cursos para os níveis II e III na Irlanda do Norte

Gualter Fatia/Getty

É por isso que há treinadores como César Peixoto. Tirou os níveis II e III na Irlanda do Norte, onde, à semelhança da Escócia, as federações se ficam pelos mínimos da UEFA e exigem apenas um ano de prática como condição de acesso aos cursos. Passou as duas últimas épocas a treinar na II Liga, ficou “estupefacto” com a lista de candidatos aceites nos níveis III e IV. Que foi divulgada pela FPF numa sexta-feira à noite, quando os cursos começariam na segunda-feira seguinte. Não foi aceite.

Peixoto considera “absurdas” as regras em Portugal, onde “se demora mais tempo a tirar um curso de treinador de futebol do que de médico”. Diz que não lhe “cabia na cabeça não entrar”. Critica como, “somando tudo”, só “aos 45 anos, mais ou menos, é que poderia ser treinador” se cingisse a sua formação a Portugal. Está com 40 anos e, “se as coisas fossem ‘normais’ como nos outros países”, diz que “teria tirado aqui, porque [é] português e é em Portugal” que trabalha, mas já pensa regressar a Belfast para tirar o último nível: “As pessoas têm de perceber que o facto de não haver muitos cursos, aliado a estas regras todas e mais algumas, atrasa e prejudica muito a vida dos treinadores.”

César e Luís criticam o número de cursos abertos, que consideram reduzidos, e os anos exigidos pela FPF nos critérios de acesso aos cursos, aos quais acresce o tempo necessário para os completar. No caso do UEFA A, iniciado a 13 de julho, serão seis meses (316 horas), até 12 de janeiro de 2021. A Tribuna Expresso sabe que Rúben Amorim nem se candidatou ao nível III em Portugal, por já estar inscrito num curso na Irlanda.

Luís Freire defende que “tem de haver preocupação das pessoas responsáveis em adequar a lei à realidade”. Importa “perceber porque é que um treinador que sobe todas as divisões não consegue tirar o curso em Portugal”, sendo “obrigado a ir gastar dinheiro no estrangeiro”. E questiona: “Não há ninguém na ANTF que se interesse por estas temáticas, que defenda os treinadores e diga ‘basta’?”

Sim, a ANTF

José Pereira, presidente da visada Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF), é sempre muito crítico quando um clube da I Liga contrata um técnico sem o nível IV. Em resposta ao Expresso, admitiu que os critérios de seleção “são discutíveis”, mas conferem “seriação, rigor, transparência e impessoalidade” ao processo de formação, reconhecendo que “não será possível atender ao pedido de todos os interessados”. A FPF recebeu 460 pedidos de inscrição para o curso de grau III, no qual havia 30 vagas, e 199 para as 40 vagas disponíveis no de grau IV.

A UEFA permite a realização de um curso de nível IV a cada dois anos. Desde 2012-2013 ocorreram nove em Portugal e a FPF “solicitou por três vezes” a prática de mais um, o último dos quais agora, para ter duas turmas de 20 técnicos no curso UEFA Pro, onde a prioridade vai para treinadores principais da II Liga e adjuntos da I Liga, com os restantes candidatos dificilmente a entrarem.

Porque, depois, existem os critérios de seleção.

Em caso de sobrelotação para as 30 vagas do III nível, a federação dá prioridade, por ordem decrescente, aos treinadores adjuntos de equipas da I e II Ligas, seguidos dos técnicos principais do Campeonato de Portugal ou da Liga BPI feminina, e por aí fora. No IV nível, para o qual são abertas, por norma, apenas 20 vagas, os treinadores que estejam em clubes da terceira divisão apenas surgem no 10.º lugar das prioridades (tal como no III grau). Caso seja um(a) técnico(a) do campeonato nacional feminino, fica em último.

Antes do anúncio da abertura destes cursos, 40 treinadores com o nível II assinaram uma carta, enviada à FPF, criticando “a situação de impasse” em que se encontram “há mais de 10 anos” e pedindo “condições justas, inclusivas e igualitárias”. Vasco Silveira, organizador do movimento, revela que "houve muitos treinadores que não quiseram fazer parte da exposição" por "receio de represálias", embora tenham "manifestado o apoio" à iniciativa que, lamenta, teve “abertura zero para um aumento do número de cursos e vagas” na resposta que receberam da entidade.

Entretanto, surgiu uma petição pública pela "Reformulação dos Processos Formativos dos Treinadores de Futebol em Portugal", em cuja apresentação se lê que "o número de curso abertos e vagas para UEFA A e UEFA Pro têm sido ridiculamente reduzidos" e "são as entidades formadoras portuguesas estão a cortar as pernas e os sonhos ao seu treinador". A petição conta, para já, com quase 1.800 assinaturas.

Versão atualizada do texto originalmente publicado na edição de 25 de julho do Expresso.