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Arquitetura minimalista

O FC Porto ganhou a Taça ao Benfica (2-1) como ao Benfica lhe ganhou o campeonato: sendo mais eficaz, defendendo bem, aproveitando as bolas paradas mesmo a jogar com menos um homem. Mies van der Rohe disse um dia que "menos é mais" e também é por isso que o FC Porto termina a época com uma dobradinha histórica, a primeira desde o ano de sonho de Villas-Boas, há 9 anos

Lídia Paralta Gomes

Carlos Rodrigues/Getty

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Mies van der Rohe era arquiteto e foi o último diretor da Bauhaus, a escola de design alemã que tudo revolucionou pela arte da subtração. Menos espalhafato, menos pormenores, menos debruados, a arte ao serviço do prático, da vida do dia a dia que pede simplicidade. Aquela frase “menos é mais”? É de Mies van der Rohe.

E podemos dizer que esta final da Taça, um pouco à imagem da época, foi um exercício de arquitetura minimalista do FC Porto, que ao caos da 1.ª parte, entre expulsões, faltas e mau futebol, respondeu com a frieza de uma casa geometricamente perfeita e energeticamente inteligente, marcando dois golos quando jogava com menos um homem, fazendo mais do que o adversário e de forma mais simples, com linhas mais direitas e um enorme sentido prático.

Depois da expulsão de Luis Díaz na reta final da 1.ª parte, à qual se seguiu o vermelho a Sérgio Conceição, numa altura em que o jogo já tinha esquecido a bola e abraçado a quezília, o FC Porto terá percebido que só sendo melhor naquilo em que efetivamente é muito bom poderia vencer a final da Taça a um Benfica à procura de lavar a cara depois da debacle pós-pandemia. E o FC Porto é bom a ser minimalista: a ser terrivelmente eficaz nas bolas paradas, absolutamente sólido lá atrás.

Logo no arranque da 2.ª parte, Mbemba, o impassível central que, sem ninguém notar, foi uma das figuras do FC Porto 2019/20, marcou duas vezes, de cabeça. Aos 47’, aproveitou uma saída em falso de Vlachodimos após um livre lateral para fazer uma espécie de chapéu aos atarantados defesas do Benfica. Dez minutos depois, também após um livre, apareceu sozinho em frente ao guarda-redes grego, com Rúben Dias e Jardel alheados do lance. E voltou a não falhar.

CARLOS COSTA/Getty

Taarabt e Vinicius assistiram ao 2-0 do FC Porto na linha lateral, à espera de entrar, e aquele segundo golo foi um cruel lembrete para o Benfica que talvez o marroquino e o brasileiro já deveriam estar em campo há muito tempo. Com eles, a equipa de Veríssimo melhorou, teve mais bola, mas apareceu então Pepe em modo pára-brisas, a limpar tudo sem cerimónia, e sobressaiu a eficácia da defesa do FC Porto, só ultrapassada quando Diogo Leite, já nos últimos 10 minutos, carregou Rafa e permitiu a Vinicius reduzir da marca de grande penalidade.

Daí até final, o Benfica ainda podia ter marcado – Jota atirou ao poste já dentro dos descontos – mas a dobradinha, a primeira do FC Porto desde a época de sonho de Villas Boas, há 9 anos, não fugiria.

Podemos sempre discutir se o estilo do FC Porto é mais ou menos bonito. Não há grandes rendilhados: há um aproveitamento quase cirúrgico de erros e dos lances estudados – porque tudo se treina – e dentes cerrados lá atrás. Mas os factos, esses, não mentem. Em três jogos com o Benfica esta época, o FC Porto ganhou todos. E acaba a época com dois títulos. Goste-se mais ou menos, a arquitetura minimalista é como as vitórias: nunca sai de moda.