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A final da Taça de Portugal, um jogo definido por fatores emocionais e por aquela ideia tão simples que é querer ou não ficar com a bola

Blessing Lumueno fala-nos do Benfica-FC Porto, um jogo entre duas equipas que sofrem quando são obrigadas a ter a bola durante muito tempo, e de como o lado das emoções e uma ação aparentemente simples poderá ter definido tudo

Blessing Lumueno

PAULO CUNHA/LUSA

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A primeira reunião que Guardiola teve com Víctor Valdés, quando foi escolhido para treinar a equipa principal do Barcelona, teve um grande impacto no guarda redes espanhol. No seu escritório, em Camp Nou, o treinador preparou o quadro magnético onde colocou duas peças perto da área. Pep pergunta a Valdés se sabia que jogadores representavam aquelas duas peças, tendo obtido uma resposta negativa. Nesse momento, diz-lhe que aqueles jogadores são os defesas centrais, que vão jogar com ele dando-lhe sempre a possibilidade de uma saída curta, e que era nesse tipo de saída em que mais iam apostar.

Naquele momento, Valdés sentiu-se confuso. Ele não percebia aquela linguagem, e achou até que o treinador estava maluco. Depois da explicação do treinador, e de algum tempo que teve para reflectir sobre a informação que lhe passava, o guarda-redes responde-lhe: se os queres aí, é melhor que a queiram; porque para eles jogarem aí, onde tu queres, eles têm de ser corajosos e querer ter a bola. Em todo este diálogo a parte fundamental é a última resposta que o treinador dá e que termina com a conversa: "Tranquilo!; Disso encarrego-me eu; É o meu trabalho, e eu vou garantir que eles vão querer ter a bola".

Este relato é feito na primeira pessoa por Víctor Valdés para o documentário “Take The Ball Pass The Ball”, de 2018, ao qual ele termina dizendo que foi aí o começo de tudo.

Parece uma ideia simples e que falar nela é um exercício estéril, uma vez que assumimos que qualquer jogador joga futebol pelo contacto com a bola e por querer ser diferenciado no que pode fazer em função dela. No entanto, não são assim tantos os jogadores – sobretudo em posições mais recuadas – que têm o conforto, a coragem, e são estimulados de forma adequada para que se possam sentir livres e jogar no campo inteiro. Mas isso, como muitas coisas, é algo que faz parte da ideologia de um treinador ou não. São hábitos difíceis de mudar, e é nos momentos que se julgam menos importantes que a escolha, o conforto, o hábito de querer ficar com a bola ou não pode ser absolutamente decisivo, como foi o caso da final de sábado.

Estiveram em confronto duas equipas que sofrem quando são obrigadas a ter a bola durante muito tempo, que são rudimentares na forma como tentam desorganizar o adversário, criar espaço, e atacar a finalização de forma simples. Duas equipas que vivem dos momentos do jogo onde tudo se decide rápido (transições), ou dos momentos menos dinâmicos onde o tempo para preparar e treinar torna tudo mais imprevisível, ainda que a execução seja quase sempre muito difícil (bolas paradas).

JOSE COELHO/EPA

E o jogo assim foi. Em toda a primeira parte mal jogado com bola, com as duas equipas a tentarem condicionar o adversário, e um FC Porto com dois lances onde consegue sair desse condicionamento, mas depois não conseguiu definir. Em 45 minutos, dois lances por parte das duas equipas é manifestamente pouco. A equipa de Sérgio Conceição, aliás, foi a única capaz de criar uma situação de golo, uma finalização limpa, durante esse período - falta rápida marcada por Otávio para Corona, que solicita Marega em apoio frontal. O avançado maliano segura muito bem, comprometendo Jardel e Nuno Tavares com o lance, o que criou um espaço entre Rúben Dias e o central que segurava o avançado. Com um toque de calcanhar, Marega deixa para Corona que tinha iniciado a marcha para invadir a área do Benfica. Com a oposição de Weigl, o extremo mexicano vê-se obrigado a puxar para o pé esquerdo e rematar para uma boa defesa de Odysseas.

O lance anterior ocorreu aos 3 minutos e depois disso há dois momentos que marcam o jogo de forma crítica: a expulsão de Luis Diáz, que altera por completo a dinâmica, e o corte do Jardel. A expulsão faz com que o Benfica seja obrigado a ter a bola durante mais tempo, e a estar na maior parte do jogo em ataque posicional. Ora, já sabemos que essa é e foi sempre a maior fragilidade do Benfica de Bruno Lage, ao qual Nélson Veríssimo deu continuidade. Jogar com menos um fez também com que o Porto tivesse de se resguardar mais perto da sua baliza, sem tentar condicionar em zonas adiantadas as saídas do Benfica, e mais do que isso, deu também o estímulo emocional extra do qual as equipas do Sérgio Conceição tanto precisam para se superarem na abnegação, no esforço, no compromisso colectivo.

Depois, o golo. Sair do intervalo com o treinador expulso, com um jogador a menos, e marcar na primeira ação perto da baliza do adversário, reforça tudo o que foi falado ao intervalo e eleva o estado mental “contra tudo e contra todos” para um patamar superior. Porém, antes do golo há uma acção tão simples, tão irrelevante, mas ao mesmo tempo tão determinante, que marca por completo a história do jogo. Artur Soares Dias apita para o início da segunda parte, a bola é atrasada para Pepe que de imediato tenta ligar longo, para uma zona onde o Porto tentava ter mais jogadores para atacar melhor não só a primeira como a segunda bola. O passe é impreciso e a bola segue para Jardel que está completamente só. O central corta, seguem-se duelos onde Danilo ganha a segunda bola, Gabriel ganha a terceira, Pizzi adianta a quarta, mas é novamente Danilo a recuperar, e o resto do lance é a última imagem que ficou na cabeça de todos - a abordagem defensiva de Weigl e a saída de Odysseas.

Aleatoriedade vs Controlo

É certo que Weigl errou e poderia ter abordado o lance com Danilo de outra forma, da mesma maneira que Odysseas coordenou mal a saída com os elementos da zona defensiva. Contudo, se Jardel tem tido uma ideia tão básica quanto o querer ficar no controlo do jogo, não se defender de uma perda e atirar a responsabilidade para a aleatoriedade, o lance não teria terminado daquela forma. E para quem acha que estou a culpabilizar o Jardel, desengane-se; mais uma vez, isto é trabalho dos homens do leme, que definem as intenções dos jogadores em larga medida. Numa equipa que quisesse ter a bola, Jardel matava no peito e saía a jogar, ou então, caso estivesse mais inseguro, teria atrasado para o seu guarda-redes ou tocado ao lado para Rúben Dias. Se calhar até, poderia ter optado por outras opções menos simples, mas dificilmente optaria por, num lance em que não tem pressão, entregar a bola para o duelo, para onde não se sabe quem vai sair mais forte.

Por vezes procuramos por razões tácticas e extremamente complicadas para explicar um jogo quando ele se define fundamentalmente por factores emocionais, ou por uma ideia tão simples quanto o querer ficar com a bola ou não. Diz-se que sou fundamentalista, que só olho para um tipo de jogo, que não vejo as coisas boas que outras formas de jogar apresentam; perdoem-me ser em contra-natura um fã absoluto dos jogadores, dos treinadores, dos directores desportivos, dos presidentes, e dos adeptos que, como eu, têm o atrevimento de querer ficar com a bola.