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Um dia num estádio vazio em Coimbra: o B-B-B-Bennie and the Jets, os insultos em dolby surround e a saudade de ti, adepto comum

Foi uma final da Taça de Portugal como nenhuma outra, sem adeptos, sem Jamor, sem a solid wall of sound do estádio cheio. Uma final em que todos os sons foram individuais, desconcertantes para quem assiste, em que o bom e o mau é mais difícil de esconder

Lídia Paralta Gomes

FPF

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Contam-me que minha avó Maria, que eu conheci mal porque ainda mal era gente quando ela partiu, dizia amiúde uma frase curiosa, mas dura, porque assim era a vida e a minha avó Maria também. Dizia ela então que “muito se poupa por não haver”, que é basicamente outra forma de se dizer que não se gasta o que não se tem e não há cá tempo para lamentações.

Problema maior é quando não se pode ter aquilo que já se teve – custa-nos mais, seguramente. Foi preciso chegar uma pandemia, que encheu os estádios de vazio, para eu perceber o que é verdadeiramente mais impressionante num estádio cheio de gente: é aquela parede de som Phil-spectoriana, aquela solid wall of sound do B-B-B-Bennie and the Jets, do Elton John, o som cheio, denso, em uníssono a sair de milhares de vozes ao mesmo tempo sempre que há um lance de perigo, uma falta mais dura, um golo. Essa parede vem contra nós e, curioso, não nos abana. Pelo contrário, dá-nos um chão, como se o nosso corpo fosse parte indissociável daquele som homogéneo, espontâneo, que não obedece às ordens de ninguém mas apenas ao instinto, àquilo que o futebol nos provoca.

Num estádio vazio não temos onde nos agarrar. A final da Taça de Portugal foi o meu primeiro jogo pós-pandemia, o meu primeiro jogo sem adeptos e, de repente, dei por mim numa luta dentro da minha cabeça: garanto-vos, é mais fácil chegar a um estado zen de concentração – porque, bem, estamos a trabalhar - num estádio com 80 mil pessoas do que só com 22 no relvado, em que cada som é um som individual e não aquela massa. Ao som seco da bola a bater junta-se a cacofonia dos três ou quatro relatos de rádio ali mesmo ao nosso lado, cada um com a sua cadência e tom, cada um a tomar o seu bocadinho do nosso espectro de atenção.

E, pelo meio, há um jogo a decorrer. Um jogo que, diga-se, até ali ao final da 1.ª parte também não fez muito por nos agarrar e só terei percebido isso quando algures ali pelos 20 minutos dei por mim a olhar para os dois topos do Cidade de Coimbra para tentar descortinar em qual deles estava na primeira vez que fui ao futebol, quando este estádio ainda era carinhosamente tratado por Calhabé, sem o lifting do pré-Euro 2004. Era um Portugal-Liechtenstein, o ano 1998 ou 1999, não sei ao certo. Só sei que Portugal ia empatando 8-0 e que, no final, entrei no carro e disse aos meus pais que tinha sido o dia mais feliz da minha vida.

Francisco Paraiso/FPF

A procura pelo lugar imaginário da minha infância acabou aos 35’, quando ouvi o primeiro impropério vindo da boca de um dos protagonistas, algo que, confesso, demorou bem mais do que estava à espera: era Rúben Dias, a incentivar os colegas com um TV-PG rated “bora car**** f***-se”.

A partir daí a coisa descambou: Luis Díaz foi expulso e foi em perfeito dolby surround que vieram todos os desenvolvimentos, duas ou três porradas na estrutura do banco do FC Porto, a indignação dos jogadores, Sérgio Conceição a exigir distanciamento social a Manuel Mota quando este lhe indicava o caminho para a rua. Lá de cima, nas varandas dos prédios que circundam o estádio, atoladas de gente, um vislumbre de bancada. Mas os sons de “ladrão!”, para Artur Soares Dias também vinham de dentro do estádio: nada como podermos ouvir todas as frequências para percebermos que, para lá dos programas de TV de adeptos, a toxicidade do discurso também vem de quem usa o emblema do clube como fato de trabalho.

Posto isto. Saudades de ti, adepto comum não organizado, que nestes dias te tornas parte de uma massa e nos fazes não ouvir as coisas más do futebol.

De resto, uma Taça de Portugal sem piqueniques, sem ajuntamentos, sem aquele anfiteatro do Jamor não sabe, de facto, ao mesmo e até eu que nunca fui a um jogo no Jamor sei disso mesmo. E quem estudou em Coimbra, como esta que vos escreve, saberá certamente o que é o sentimento de quase desolação que é passar pela primeira vez um fim de semana na cidade que a cada sexta-feira se esvazia de estudantes nos comboios e nas carreiras rodoviárias. Curiosamente, em plena covid-19, na Coimbra antiga ouvia-se mais espanhol e francês do que alguma vez ouvi há 12 anos e isso traz alguma esperança. Quem sabe no próximo ano já possamos estar todos de novo juntos. No Jamor ou no Quebra Costas a beber um copo.