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Árbitros mostraram menos cartões amarelos a equipas visitantes nos jogos sem público da I Liga. Porquê? É "subconsciente e involuntário"

Já se sabia que na Premier League, na La Liga, na Série A e na Bundesliga houve uma redução de 20.2% no número de amarelos mostrados a jogadores de equipas visitantes e essa tendência também foi verificada, na Liga NOS, por um estudo da empresa RunRepeat: em média, os futebolistas forasteiros viram menos 0.47 cartões amarelos nos jogos pós-confinamento, quando antes da paragem a tendência era para que acontecesse o contrário. Para Duarte Gomes, ex-árbitro, os números "batem certo" porque, quando há "o ruído e os protestos" do público nos estádios, existe a "tendência para haver mais decisões favoráveis à equipa que pressiona"

Diogo Pombo

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Entre as muitas e variadas mudanças que os jogos em estádios sepulcrais deram a quem está fora deles, portanto nós, que os vemos pela televisão, está o som. Passámos a ter palavras ouvidas para atribuir a cada movimento de lábios que descortinamos nos jogadores. Passou-se a ouvir o palavreado que eles gritam uns aos outros no relvado, até os palavrões que berram para o ar, pela simples retirada do estádio do elemento que, sem o qual, se descasca muito do que o futebol tem.

Os adeptos - mais o apoio, os cânticos, as palmas, os apupos e a boa barulheira que é habitual ouvir durante um jogo.

Sem público, a Liga NOS tornou-se mais igualitária em relação às grande ligas europeias. Porque, nisto, o futebol português não se distingue do inglês, do espanhol, do italiano ou do alemão, em todo o lado o ambiente perde sem público nos estádios e ficando todos aquém do mesmo, o futebol muda para quem o vê e o joga. E para quem o apita, pois também aqui o campeonato português revelou o mesmo que a Premier League, a La Liga, a Série A e a Bundesliga.

Nos jogos que teve após o confinamento, a Liga NOS registou, em médio, menos cartões amarelos mostrados a jogadores de equipas visitantes, concluiu um estudo da RunRepeat, que já se dedicara às quatro principais ligas da Europa e concluíra o mesmo, em cada uma.

Em 89 partidas contabilizadas depois da suspensão do campeonato (jogou-se um total de 90), as equipas da casa viram 242 cartões amarelos (média de 2.72 por jogo), contra os 200 das visitantes (2.25). Nos 217 jogos feitos antes da pandemia, a antagonia na balança era outra: os jogadores do clube que dava as boas-vindas viram 523 amarelos (2.41) e os futebolistas das equipas a competir em casa alheia receberam 610 cartões amarelados (2.81) vindos do bolso do homem do apito.

Da pessoa que igual é a um jogador por ser influenciável pelo contexto que a rodeia.

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Duarte Gomes foi árbitro durante 25 anos e sabe o quão influente são os gritos, o ruído, os apupos e todo o contexto barulhento de um recinto cheio de público. "Não tem grande ciência", diz à Tribuna Expresso, porque "bate certo com a perspetiva humana" que há dentro de quem chuta na bola ou sopra num apito, sobretudo se for novo, inexperiente e pouco rodado em partidas de clubes grandes em adeptos que os apoiam.

Os jogadores podem, ou não, ter sido menos agressivos na disputa de bola sem os decibéis de berraria vindos das bancadas. Podem, também, não ter chegado tão cedo à bola com a perda de ritmo de jogo durante o confinamento, talvez provocando menos duelos efetivos em campo. São hipóteses que poderão ter influenciado os números. Como o é a sensibilidade dos árbitros.

Quando há muito ruído, explica Duarte Gomes, "há tendência para haver mais decisões favoráveis à equipa que pressiona". Ele explica e sublinha, várias vezes, que "é um processo, obviamente, subconsciente e voluntário", também visto em "jogadores da equipa visitante, que tomam decisões erradas por serem pressionados nesse sentido", fazendo a conversa retornar à casa de partida: "Um jogador lançado num jogo grande, com muita gente, com muito impacto mediático, a probabilidade desse jogador falhar, por muito talento que tenha, é maior num jogo desses do que num jogo sem público, ruído ou protestos. Com os árbitros é rigorosamente igual".

Ao ex-árbitro internacional, hoje comentador televisivo, não lhe choca a redução do número de cartões amarelos mostrados a jogadores de equipas visitantes assim que os estádios passaram a ser exposições de cadeiras vazias - nem o facto de menos faltas terem sido apitadas a quem joga em casa alheia.

Em média, houve 16.69 faltas assinaladas, por jogo, a jogadores forasteiros, contra as 17.17 das equipas da casa. Nas partidas pré-confinamento, a balança desnivelava-se ao contrário, embora não tão acentuadamente: 15.8 por jogo para os visitantes, contra 15.68 para os anfitriões.

Quando há público, lembra Duarte Gomes, a energia das bancadas parece contagiar os jogadores da equipa da casa. "Tornam-se mais conflituosos, mais pressionantes e mais chatos, como o banco técnico, e isso é um fator de pressão adicional, têm isso do seu lado e fazem a pressão psicológica nas equipas de arbitragem", reconhece. Mesmo trabalhando-se "cada vez melhor no microciclo semanal de treino", lembra o quão difícil é replicar, para quem apita, este tipo de ambientes em contexto de treino, onde "é muito difícil simular jogos com público".

No fundo, Duarte Gomes argumenta que, subconscientemente, para um árbitro "marcar a favor da equipa visitante" tem de "ter muitas certezas" e, na dúvida, "é mais fácil marcar a favor da equipa da casa, por uma questão de impulso", quando está imerso num jogo a acontecer num estádio com milhares de pessoas de fora a puxarem pelos anfitriões. "É uma questão de subconsciente e que acompanha mais os inexperientes", que é trabalhável quanto mais prática for tendo quem apita - "Mais isentos dessa falha estão os árbitros mais experientes começam a ser imunes ao ruído".