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Possivelmente, o melhor jogo que poderia haver para arrancar o campeonato

Um FC Porto, presumivelmente, igual a si próprio com Sérgio Conceição, face às poucas saídas no onze, contra um Sporting de Braga com a identidade de Carlos Carvalhal para jogar apoiado a todo o campo. O jogo grande da primeira jornada deste campeonato (21h, Sport TV) pode muito bem ser, também, uma das partidas do ano

Diogo Pombo

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A bola está na área, roda calmamente do guarda-redes para um dos centrais do FC Porto, que rodopia numa receção bailada para se virar, teria ele visto e ouvido que tinha tempo e espaço, por uns 80% das equipas do campeonato optam, por norma, em deixá-los estar, em não condicionar a primeira fase em que matutam o que fazer à bola. Preferem esperar, juntar o bloco a meio do campo, talvez até atrás da linha que o divide, encurtar espaços e prevenir o que, muitas vezes, acaba por acontecer.

Esse central, confortável a encarar o jogo, soltará um passe para o lateral ou um médio, e mais vezes com três ou quatro passes do que com uns nove ou 10, essa bola viajará bem na vertical, atacará as espaços abertos por jogadores a aproximarem-se, dando-se a um passe, para chegar a quem correr para esses que foram provocados, e porque se banalizou um dos fins do FC Porto e não tanto os meios, eis essa bola a encontrar uma diagonal de Moussa Marega na profundidade ou na vizinhança entre um central e um lateral adversários.

Acostumou-se convergir o estilo do FC Porto numa descrição que, com o tempo, se banalizou: é uma equipa vertical nas suas posses de bola, com muito olho para ataques à profundidade, de pressão alta na saída adversária e cheia de intensidade na disputa de duelos, a que se junta a capacidade de criar situações para marcar em cantos, livres e lançamentos laterais, reflexo de trabalho nas bolas paradas.

Tendo, para já, apenas dado vazão a Fábio Silva e Vítor Ferreira, canalha que muito pouco participava de início na equipa, e falando-se que Soares poderá seguir-se, esse sim um titular, mas para cuja posição foi contratado Mehdi Taremi, se calhar não é aconselhável esperarmos grandes variações ou alterações na forma de jogar do FC Porto com Sérgio Conceição. Também estamos um pouco às escuras, porque nenhum dos jogos de pré-época foram televisionados.

Mas, neste FC Porto que mantém a capacidade de Alex Telles em entregar cruzamentos e bolas paradas à distância, o desequilíbrio driblador de Jesús Corona para bater linhas e os médios titulares, que puxam pelo ritmo das ações da equipa, talvez apenas a esperteza e a capacidade de se associar em toques curtos de Tahremi possam entrar já na dinâmica da equipa.

Neste campeonato que arranca pandémico, entre regras, bolhas e controlo, com poucas amostras desvendadas de cada equipa para mortais como nós, que esperamos atrás de ecrãs e teclados, o primeiro embate do estilo do FC Porto de Conceição será com o novo Braga de Carlos Carvalhal.

A apetência para pressionar alto e condicionar, ao máximo, a saída de bola alheia, encontrará uma expectável vontade em construir com passes rasteiros, desde a área, usando o guarda-redes como opção para tentar ganhar nos números a quem pressiona tão à frente no campo e criar espaços para de lá sair de forma apoiada, por centro do campo ou por uma ala.

Isso tentou e quis fazer Carlos Carvalhal, a época passada, com o Rio Ave, no mesmo estádio onde retorna este sábado (21h, Sport TV1) e tentará, agora com o Braga, cimentar um estilo de futebol apoiado, cheio de jogadores a esperarem por passes entre linhas, num futebol de constantes atrações por dentro para sair por fora (e vice-versa) baseadas nos passes curtos, como já prometeu que iria fazer.

A ousada proposta de jogo do treinador ganhará em qualidade de pés, cabeça e técnica em Braga, onde mesmo sem o dínamo em espaços curtos que é Nico Gaitán, lesionado, ou sem o Taremi que admitiu pedir ao presidente e viu fugir para o Dragão, tem baseado a pré-época nos irmãos Horta, no jogo associativo do avançado Paulinho e na calma de Al Musrati que trouxe na bagagem de Vila do Conde.

Contra a forte pressão e contra-pressão do FC Porto, previsivelmente a querer recuperar bolas em zonas altas do campo, haverá o arrojo do Braga em querer atrair essa vontade na própria área para encontrar os médios da equipa nas costas da primeira ou segunda linhas de pressão - ou, até, poderá querer surpreender, saltando essas tentativas de roubo com uma saída mais direta, pela relva ou pelo ar.

São muitos ‘se’, muitas hipóteses, tantas possibilidades que não passam disso, mas garantem uma coisa.

Para inaugurar um campeonato, nada melhor que um choque de estilos tão assumidos e vincados nos treinadores, entre praticamente a mesma equipa feita campeã nacional, treinada por quem diz que “sabermos o que fazer quando não temos a bola é tão importante como saber o que fazer no momento em que a temos, onde a recuperamos” (ao Expresso, deste sábado), e a equipa cada vez mais a intrometer-se entre os tidos grandes, agora orientada por quem garante que “vai jogar com os mesmos fundamentos de jogo” (aqui, à Tribuna Expresso) que trouxe do Rio Ave.

Foi o choque entre FC Porto e Sporting de Braga, a época passada, que faíscou uma reação em Sérgio Conceição, após a perda da Taça da Liga, para criar faísca na equipa então a comer pó no campeonato e dali partiu para recuperar qualidade de jogo, mentalidade e (futuras) conquistas. É este o choque que poderá vincar, mesmo tão cedo na temporada, a bitola da qualidade de jogo que poderemos esperar desta edição do campeonato.