Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Três jogos depois, Tiago demitiu-se. Vitória chamou-lhe "manifestação de insegurança"

Nunca fora treinador principal, ainda está a frequentar o curso de nível IV da UEFA, fez três jogos com o Vitória e decidiu demitir-se. Tiago Mendes terá alegado falta de participação na política de contratações, mas o clube de Guimarães defende que houve sempre "concordância". Em setembro, Carlos Freitas, diretor-geral, garantira que só um dos então 11 jogadores contratados (acabariam por ser 16) não fora antes discutido com o treinador

Diogo Pombo

HUGO DELGADO/LUSA

Partilhar

- Mais do que palavras, esperem para ver.

Reticente nem um pouco, afirmativo como tudo, emanante de confiança, assim se resumiu Tiago, o ex-jogador, já Tiago Mendes Cardoso, o treinador então acabado de ser apresentado no Vitória Sport Clube, berço onde mais gente enche um estádio fora das gentes dos três ditos grandes e onde, em concordância, muito se exige.

E não seria diferente com um novo técnico que ao mesmo tempo era um técnico novo e novato: aos 39 anos, o português ia ter a primeira experiência como treinador principal.

Antes, fora apenas adjunto de Diego Simeone durante uma época, no Atlético de Madrid, e trabalhara outra época na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), nas equipas técnicas das seleções entre os sub-15 e os sub-20. Faltava-lhe um ano para cumprir "o mínimo de três épocas desportivas" exigido pelos requisitos de acesso ao curso de nível IV (UEFA Pro). No qual foi, contudo, excecionalmente admitido pela federação, sem que o seu nome constasse na lista pública de candidatos aceites.

É onde está, desde 5 de outubro, a ter a segunda de três fases de formação específica, que termina no sábado (10) ou na terça-feira (13), dependendo do curso no qual está inserido (a FPF abriu dois).

Até à noite desta quinta-feira, ainda era o treinador principal do Vitória, mas demitiu-se com uma derrota (B-SAD), um empate (Rio Ave) e uma vitória (Paços de Ferreira) em três jogos no campeonato. Não pelos resultados, começou por avançar o "Record", mas por insatisfação, por um alegado desgosto face a contratações que pretendia ver feitas e não viu, algo que confirmou o clube sem o confirmar ipsis verbis, ao escrever, em comunicado, que "todas as decisões tomadas relativamente à equipa principal tiveram a participação e a concordância do técnico".

O Vitória garantiu o que quem manda em muita coisa no Vitória garantira em setembro, entre várias coisas ditas em entrevista à Tribuna Expresso. "Todos, à exceção de um, foram alvo de partilha e de discussão com o Tiago", explicou Carlos Freitas, diretor-geral, quando o clube já contratara 11 dos 16 jogadores depositados no carrinho de compras até ao fecho do mercado.

Octavio Passos/Getty

- Vou repetir a resposta dele na sua apresentação, que foi "esperem para ver".

Rebobinando de novo, e além desta frase, Carlos Freitas disse, explicou e detalhou vários coisas, entre elas o "percurso imaculado em termos profissionais", a "convivência ao mais alto nível" e "uma cultura de exigência profissional permanente" que reconhecia em Tiago, auto-apresentado como "um treinador exigente, que gosta de ter a bola e controlar os jogos".

O Vitória tentou ter muita bola, mas não conseguira, em qualquer dos três jogos realizados, o controlo anunciado. Tempo ainda havia, como teria que haver para um projeto com um novo técnico, tantos jogadores novos e uma nova forma de trabalhar, porque resultados no futebol não aparecem quando a noite passa a dia, mas Tiago Mendes resolveu apresentar a demissão.

O clube admitiu-se surpreso pela "posição manifestada", por quebrar "um trabalho de largos meses entre a estrutura do futebol e o treinador escolhido pela Administração" para "a construção e preparação de um plantel que permitisse concretizar a política desportiva do Vitória SC e alcançar os objetivos traçados". Um trabalho, defende o Vitória, no qual Tiago "teve total autonomia para o exercício da sua liderança".

O Vitória deu também a entender que o treinador comunicou a sua demissão quando já estaria a frequentar a formação específica do curso UEFA Pro, na Cidade do Futebol, em Oeiras. Decisão, lamentou o clube, que "só pode ser recebida como uma manifestação de insegurança que é incompatível com o Vitória SC".

  • Tiago: “Lembro-me de conversas com o Roger no Benfica e de o insultar na cara. Por causa da qualidade imensa e da pouca vontade que tinha”

    A casa às costas

    Aos 39 anos, Tiago Mendes mantém o riso fácil de menino, mas a experiência suficiente para saber que no futebol nada está garantido. O treinador adjunto das seleções sub-16 e sub-20 fala-nos do seu percurso ambicioso, que desde o início tinha o estrangeiro como prioridade, onde contava conquistar o título que sempre lhe fugiu, a Liga dos Campeões. Tiago conta pormenores da passagem pelo Benfica, o Chelsea de Mourinho, o Lyon e revela os piores momentos vividos na Juventus. Recorda as alegrias no Atlético de Madrid e aborda as várias idas e saídas da seleção, antes de revelar que não esperava ver tanto lixo à volta do futebol quando regressou a Portugal, há pouco mais de um ano

  • Carlos Freitas: “O Vitória é super interessante para jovens potros que se queiram afirmar e estejam tapados no seu crescimento”

    Entrevistas Tribuna

    Foi campeão em Portugal, esteve na Grécia (Panathinaikos), em França (Metz) e em Itália (Fiorentina), onde deixou amigos antes de chegar a Guimarães, no verão de 2019, para ser diretor-geral do Vitória SC, que não cumpriu os objetivos classificativos na primeira época. Em entrevista à Tribuna Expresso, Carlos Freitas explica a política de contratações do clube, o investimento em jovens das maiores ligas da Europa (alguns até campeões europeus de seleções), o gosto que tem pelo projeto da Red Bull no futebol e o porquê da aposta em Tiago Mendes, que terá a primeira experiência como treinador principal e, entretanto, já concluiu o IV Nível: "Não vejo como será esse diploma a fazê-lo mais ou menos preparado para o desafio"

  • Tiago não está na lista de candidatos aceites, nem tem os anos de requisito, mas está a tirar o curso de nível IV da FPF

    Futebol nacional

    O novo treinador do Vitória de Guimarães está a participar no curso UEFA Pro da Federação Portuguesa de Futebol, apesar do seu nome não constar na lista de candidatos aceites que foi divulgada pela entidade, nem ter o requisito mínimo de três épocas feitas em campeonatos profissionais, enquanto treinador. O clube vimaranense deverá ficar sem Tiago ao longo da temporada, pois o curso obriga a que todos os inscritos participem em três ou quatro períodos em regime de internato