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Foi um clássico dos que já é clássico ver

Três golos na primeira parte, um na segunda, 38 faltas, um treinador expulso, muitos erros de ambos os lados e um Sporting-FC Porto que acabou empatado, teve um senhor central de 37 anos como o melhor em campo, deixou as equipas com sete pontos no campeonato e foi um clássico dos que tantas vezes se vê em Portugal: muita agressividade, intensidade também, mas, demasiadas vezes, não com muito futebol

Diogo Pombo

CARLOS COSTA/Getty

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Ser defesa central não é como era antes, no tempo em que a área era o quintal, esses metros quadrados eram o raio de ação, importava era fazer bem feito lá dentro e pouco mais. Hoje nem pensar, estar no centro de uma defesa implica uma catrefada de coisas porque o futebol é coisa mutável, mas, dentro da área, se vier uma bola cruzada pelo ar e não havendo tempo, ou radar mental, para ver o que há à volta, um defesa central tem um voto de castidade contra algo em específico: cortar a bola para a entrada do retângulo que protege, pois ali, onde a distância para a baliza é menor, podem estar adversários à espera.

Não sei se olhou à volta, se sabia quem era quem nos palmos de relva vizinhos, mas Mbemba, central com muitos cruzamentos desenvencilhados da área no currículo, fugindo desse pecado, saltou e cabeceou a bola curvada por Porro não para canto, nem para a beira da área, os deuses do futebol que o livrem, mas cortou-a para trás, até para trás de Manafá, esperava o belga que para bem longe.

No costado do lateral, dentro da área, estava Nuno Santos, cujo pé esquerdo bateu na bola à primeira, sem a deixar ir à relva, uma pancada seca que a acelerou em linha reta entre o poste e o corpo de Marchesín, surpreso pela tríplice aliança de rapidez, arrojo e acerto que deram no 1-0 ainda nem nove minutos havia jogados no clássico faltoso, com muitos passes falhados e passes aéreos bombardeados para a frente, como muitos clássicos são por cá. Aí sim choram as divindades algures lá em cima.

Ser central equivale, também, a dobrar companheiros quando são batidos por um passe, ou por um jogador, compensá-los quando algo corre mal ou até fazer contenção de um espaço perto deles, caso sejam ultrapassados. E, às vezes, chega-se à bola num resvés, o adversário tão perto de a ter como nós, ocasião em que se pode decidir por muitas coisas sendo uma o tentar chutá-la, com força, contra ele, fiando-se na física escrita em lado nenhum que o ricochete imprevisível vai beneficiar o nosso lado.

Coates fê-lo, na área, parecendo ser essa a opção desde o primeiro passo que deu rumo à disputa do ressalto, cujo pimbolim acabou em Sérgio Oliveira, que a tocou para Zaidu logo a cruzar com mira em Uribe, médio que estava à frente do central e nas costas de Neto, mas que o uruguaio não atacou para fechar o espaço e evitar o 1-1. Dois erros centrais, dois ângulos de televisão fechados em centrais.

CARLOS COSTA/Getty

E o clássico tão classicamente português, com erros técnicos a multiplicarem-se nos dois lados. O Sporting sem capacidade para sair de trás de forma apoiada, com o adversário a deixar Coates receber, à frente da área, de um dos centrais, para depois o forçar a precipitar-se. O FC Porto a emperrar as trocas de bola por fora, devido aos toques a mais e, por arrasto, ao tempo perdido por ambos os laterais.

A pressão dos visitantes, com esta armadilha montada, convidava os visitados a preferirem, ainda mais, as transições rápidas, porque de outra forma apenas batiam linhas à boleia das conduções de bola de Matheus Nunes, mais um 8 com tração à frente do que um 6 com recato atrás. Esse era Palhinha, o estreante infrutífero com bola. O FC Porto, com os minutos, foi encontrando mais receções de Marega para, mesmo sem grande acerto, deixar outros de frente com apoios frontais para tentarem, coletivamente, inventar problemas nos últimos 30 metros. Nunca o conseguiram.

Por isso, teve que aparecer o que o FC Porto tem em doses cavalares, se comparado com o Sporting - talento e jeito individual para aparecer perto da área dos outros.

A ginga ambidestra de Corona, penteando a bola com ambos os pés, provável de optar por qualquer lado de quem o tenta defender, teve duas jogadas em que cravou adversários à relva, na área, para depois o cruzamento ou o remate não saírem. O estilo mais frenético, rápido e instintivo de Días, com roletas e simulações bruscas, fez o mesmo. Até, na reação a uma bola parada, uma transição rápido do FC Porto deixou o mexicano, de novo na área, a livrar-se de corpos com pézinhos de lã e a picar o 1-2 com classe sobre Adán.

A tudo se juntaram faltas com solas de chuteiras a encostarem em corpos alheios, um penálti do Sporting anulado pelo VAR, a consequente expulsão de Zaidu desfeita e, no meio da poeira, o cartão vermelho para Rúben Amorim, que da bancada passou a assistir à continuação do marasmo da equipa.

Até aos últimos 15 minutos, nunca foi mais do que tentar, pelos três centrais, atrair a pressão de um lado, de preferência o direito, para que Coates cortasse a bola pelo ar, a tirasse desse cerco e a depositasse em Nuno Mendes. Em quem a jogada murchava porque tudo o resto falhava - os médios não se posicionam para dar apoio, o extremo e avançado estáticos, à espera. O Sporting só teve Pedro Gonçalves, duas vezes, a rematar à entrada da área.

Mas aí apareceu outro central.

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

Képler Laveran Lima Ferreira tem 37 anos de labuta na posição e está um Pepe tão jovem quanto possível, esticou pernas e músculos para, na primeira parte, não cortar, mas impedir, de forma limpa, que três cruzamentos rasteiros entre ele e a baliza chegassem ao atacante nas suas costas, e, na segunda, bloquear o par de tentativas de Pedro Gonçalves apenas por tapar com corpo a via da bola para a baliza. Como se nada fosse.

Pepe foi o melhor no jogo do jogo, que nada de perigoso criou na segunda parte. Foi ele o que de mais majestoso teve este clássico, do qual, entre as 38 faltas, os ressaltos-mil, o pouco futebol jogado dentro de blocos adversários e as ínfimas jogadas com boniteza que fazem render os bilhetes que agora não se podem pagar, só não saiu imaculado porque, a três minutos de acabar, foi socorrer um erro logo após uma bola recuperada, virada iô-iô porque um carrinho de Palhinha devolveu-a ao lugar onde fora roubada.

Tiago Tomás cruzou, a bola passou por um Pepe sem tempo para lhe fechar o espaço e fazer mais do que saltar com as mãos atrás das costas, único vislumbre de impotência para impedir que o calcanhar de Sporar desviasse a bola, Marchesín a parasse e Vietto batesse a recarga para este clássico se fechar com um 2-2, quando o Sporting já tentava subir as linhas e ser mais intenso a pressionar.

O clássico foi abanado, primeiro, pelo talento per capita no drible e nos duelos fintadores, depois, pelos erros no passe e na saída de bola. Pelo meio, houve o imbróglio de faltas, expulsões, discussões e pouca ousadia, como tantas vezes há quando coincidem no campo as maiores, mais endinheiradas e qualitativas equipas do campeonatos. É clássico os grandes encontrarem-se. Já vai sendo clássico desencontrarem-se com outro tipo de futebol que não este.