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“O único branqueamento que nós fazemos aqui no Santa Clara é com lixívia Javisol para limpar a roupa aos jogadores”

Um dia depois das buscas no único clube açoriano da Primeira Liga, o presidente Rui Cordeiro, também ele alvo da investigação, diz estar de consciência tranquila e garante total colaboração com as autoridades. Caso investiga alegados favorecimentos com transferência de jogadores para o Benfica

Sara Sousa Oliveira

Rui Cordeiro, presidente do Santa Clara

CD Santa Clara

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Rui Cordeiro desce as escadas que ligam a loja à SAD do Santa Clara passam 10 minutos da hora marcada. Menos de 24 horas antes, o edifício que escolheu para falar sobre o caso, no centro de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, tinha sido encerrado pelas autoridades judiciais. Vários elementos da Polícia Judiciária estiveram das 8h às 22h30 desta segunda-feira, 9 de novembro, a recolher acessos, ficheiros informáticos e todo o tipo de documentos para juntar ao processo que investiga vários crimes fiscais e económicos no universo desportivo.

Numa declaração lida à comunicação social, e com direito a perguntas, o presidente do Santa Clara confirmou as buscas - o clube açoriano já o tinha feito ontem em comunicado - à sede, à sua residência e ao seu escritório de advogados. “Ninguém gosta de ver os seus filhos chorar pela manhã quando alguém entra na privacidade da nossa casa, ninguém gosta de ver a sua dignidade profissional belicada com buscas domiciliárias, somos humanos e custa ver o nosso nome ser julgado na praça pública em lume brando sobre a capa da presunção de inocência”, sublinha Cordeiro. O presidente do clube açoriano diz que o caso foi desencadeado através de uma denúncia anónima que tem por base “uma campanha insidiosa” que visa “aniquilar a honra e a dignidade pessoal daqueles que tentam reerguer este clube e prestigiar os Açores”.

Durante cerca de 20 minutos, o antigo advogado, que atualmente se dedica a tempo inteiro à presidência do clube, sublinhou, por mais de uma vez, “estar de consciência tranquila”. Cordeiro diz que não se verga ao medo e tudo fará para colaborar com a justiça. “O único branqueamento que nós fazemos aqui no Santa Clara é com lixívia Javisol para limpar a roupa aos jogadores”, garante.

O presidente açoriano diz que ninguém no cargo que ocupa foi tão insultado. Falou dos lucros do Santa Clara, que rondam os 900 mil euros, das contas e salários em dia, mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia, bem como das dívidas que diz terem sido completamente liquidadas ao fisco e à Segurança Social. “Quando o Santa Clara era um cavalo que não tinha dentes, estava raquítico e a cambalear ninguém o queria montar”, mas agora, garante Rui Cordeiro, “que é ágil, rápido e orgulhoso da sua crina açoriana e da sua bravura, todos o querem montar”.

Juíz Carlos Alexandre nos Açores para liderar buscas

Para além da SAD e da loja oficial do Santa Clara, várias residências foram ontem alvo de buscas em São Miguel. Para além da casa de Rui Cordeiro, os inspetores entraram também nas residências de Diogo Boa Alma, diretor desportivo do clube açoriano, e na do administrador Khaled Saleh, representante do maior acionista privado do Santa Clara: Lau Seng Glen, um investidor natural de Singapura que tem apostado no Santa Clara nos últimos anos.

O nome do país consta do comunicado que o Ministério Público (MP) divulgou sobre o caso. Os inspetores investigam “a aquisição dos direitos desportivos e económicos dos jogadores por parte de clubes nacionais de futebol, empréstimos concedidos a um destes clubes e a uma sociedade desportiva por um cidadão de Singapura com interesses em sociedades sediadas nas ilhas Virgens Britânicas”, pode ler-se na nota do MP. As contas entre dois clubes, incluindo o Santa Clara, seriam utilizadas para a circulação de dinheiro, e estão na mira das autoridades.

As atenções da investigação centram-se sobretudo nos negócios em torno de três jogadores líbios, um deles, Hamdou Elhouni, transferido em 2016 para o Benfica e mais tarde para o Desportivo das Aves, como avançou a revista "Sábado".

O pagamento de prémios de jogo em dinheiro, a “satisfação de dívidas pessoais de dirigentes”, o envolvimento de outro tipo de sociedades, ligadas por exemplo, ao setor imobiliário, bem como a omissão de operações fiscais”, sublinha o MP, são os principais eixos da investigação que, nos Açores, foi liderada por Carlos Alexandre. O Expresso sabe que o juíz do Tribunal Central de Instrução Criminal, responsável pela Operação Marquês, esteve a conduzir diversas buscas na ilha de São Miguel, tendo havido 29 no total, a maioria na maior ilha açoriana.

Em causa, estão os crimes de corrupção ativa e passiva, fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, participação em negócio e recebimento indevido de vantagem.