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O futebol, o choque de cabeças e o risco de concussão cerebral continuam numa relação complicada

Em dois dias, houve dois choques feios de cabeças na Premier League e na Liga NOS. Só Raúl Jiménez, o jogador que ficou inanimado e com uma fratura no crânio, abandonou o jogo. Os outros (Nicolás Otamendi, David Luiz e Rodrigo Pinho) foram remendados e regressaram ao campo nem 10 minutos depois, que é o tempo obrigatório no râguebi para um jogador permanecer fora, a ser examinado por médicos, enquanto um substituto provisório ocupa o seu lugar. Falta assim tanto para que as regras do futebol permitam algo parecido? O IFAB só começou a discuti-lo em outubro de 2019, em janeiro deste ano criou um grupo de trabalho dedicado à concussão cerebral e disse que "testes preliminares" das substituições temporárias poderão começar em 2021

Diogo Pombo

JOHN WALTON/Getty

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Lá está a bola cair com a gravidade no Funchal, o sandwich forma-se, o aperto de Rodrigo Pinho entre Gabriel e Nicolás Otamendi fá-lo ter um ricochete no corpo do brasileiro quando salta, batendo depois de frente no argentino. É um choque cara com cabeça. Ambos caem, agarram-se ao rosto e aquilo parece mundano; o jogo segue e há três duelos pela bola até se ouvir um apito que pare tudo.

Manuel Mota demorou sete segundos.

O árbitro acerca-se dos tombados, dá ordem para que entrem os dois médicos de cada clube e logo zarpa do sítio, parecendo mais preocupado em lidar com uma ameaça de zaragata uns metros ali ao lado, entre outros jogadores.

Dois minutos certos passam e Otamendi está de pé, com touca de natação a tapar-lhe a cabeça, pronto para retomar a ação. Três minutos e 20 segundos após o choque, Rodrigo Pinho é deitado numa maca e levado para fora do campo. Ao todo, demora quase 7 minutos a voltar ao jogo com um penso na cara e um olho a precisar do tratamento de um naco de carne se isto fosse como nos desenhos animados antigos; só que animação, aqui, é nenhuma. Ambos os jogadores permaneceriam em campo no Marítimo-Benfica, até ao fim.

No Funchal, o departamento médico do Marítimo “fez o primeiro filtro” de análise a Rodrigo Pinho de forma “visual”, a que se seguiram “testes no local” e a própria “mensagem transmitida pelo jogador”, informou o clube à Tribuna Expresso. Depois, no balneário e durante o intervalo, o brasileiro “voltou a ser seguido com atenção” e fez-se um “controlo da situação já com outros instrumentos”, nos conformes da “série de procedimentos" que o Marítimo tem definidos "para este tipo de lesões".

Do Benfica, até ao momento, não foi possível obter uma explicação sobre a atuação médica que houve em relação a Otamendi, na segunda-feira.

Em Londres, no domingo, a bola parou num canto, é curvada ao primeiro poste e a plenitude do silêncio nos estádios permite que todos ouçamos o som, parece uma pedra da calçada que foi arremessada e bate contra um passeio. Pááá. Raúl Jiménez e David Luiz caem, nem dois segundos se demora a ouvir o apito, quem está à volta berra por ajuda, médicos do Arsenal e do Wolves correm para lá e staff de emergência médica do estádio também.

Jiménez já caiu inanimado, recebe oxigénio, um colar cervical é-lhe colocado, deitam-no numa maca e quase 10 minutos depois está a ser carregado para fora do campo. Nessa noite, seria operado a uma fratura no crânio. Ainda no jogo, nem 2 minutos volvidos da violência do choque, David Luiz estava de pé, a sangrar, mas na vertical, depois sentar-se-ia na relva para a ferida que tinha na cabeça ser suturada com sete pontos e tapada com uma ligadura.

David Luiz foi suturado com sete pontos e voltou a jogar até ser substituído ao intervalo

David Luiz foi suturado com sete pontos e voltou a jogar até ser substituído ao intervalo

John Walton - Pool/Getty Images

Com a cabeleira escondida pelo branco, aproximou-se dos médicos que levavam o mexicano para fora do estádio antes de reentrar na partida mal esta foi retomada. O brasileiro seria substituído ao intervalo não por precaução, decisão médica ou para prevenir consequências de saúde. “Fizeram-lhe todos os testes, ele estava bem, mas não se sentia confortável em jogar com o corte, estava só preocupado com isso”, disse Mikel Arteta, o treinador, no final. O problema era a ferida aberta.

Em Inglaterra, contudo, desde agosto de 2019 que se sabe o que há a fazer quando existe um choque ou uma pancada na cabeça durante um jogo, porque a Football Association (FA) divulgou um protocolo a seguir no que toca ao risco de concussão cerebral - que, no documento, é descrita como “uma lesão [temporária] no cérebro” causada “por um golpe direto na cabeça ou noutras partes do corpo que provoquem o rápido movimento da cabeça”.

Os sintomas “mais comuns” são “dores de cabeça, tonturas, perturbações de memória e problemas de equilíbrio”. As diretrizes da FA são encabeçadas pelo lema "If in doubt, sit them out", algo como: "Em caso de dúvida, sentem os jogadores de fora". Nos seus meandros, explicam que a perda de consciência acontece em menos de 10% das concussões e, caso de qualquer suspeita, as recomendações são que nem algodão à procura de pó: "Se um jogador é suspeito de ter uma concussão, deve ser imediatamente removido do campo, quer seja em treino ou em jogo".

No site da Liga Portuguesa de Futebol Profissional nada consta sobre concussão cerebral ou um eventual protocolo a seguir por parte dos clubes que participam nas três competições (I e II Ligas, mais a Taça da Liga) organizadas pela entidade. Questionada pela Tribuna Expresso, a Liga não deu qualquer informação sobre o tema até à publicação deste artigo.

Fora informação sobre debates e ações de formação sobre, ou que envolvam o tema, a Federação Portuguesa de Futebol pouco tem disponível no seu site acerca dos riscos concussão cerebral.

Em nota informativa divulgada em janeiro, a entidade citou uma orientação da UEFA para explicar que, havendo suspeitas de concussão, "em princípio tal não deve demorar mais de três minutos, a menos que o incidente, pela sua gravidade, exija que o jogador seja assistido no campo ou imobilizado no campo para transporte imediato para o hospital (por exemplo, lesão na coluna vertebral". É explicado, também, que a federação e os clubes deveriam organizar reuniões para "as equipas médicas" informarem jogadores, treinadores e todos os envolvidos sobre o assunto.

E que a UEFA "desenvolveu um cartaz" para ser pendurado "em todos os balneários" sobre os procedimentos a adotar.

Em 2014, na final do Mundial, Christoph Kramer sofreu uma concussão na primeira parte e continuaria a jogar durante 14 minutos. Diria depois que pouco se lembra da final

Em 2014, na final do Mundial, Christoph Kramer sofreu uma concussão na primeira parte e continuaria a jogar durante 14 minutos. Diria depois que pouco se lembra da final

Nick Potts - EMPICS

O que falta para o futebol mudar?

O tal cartaz mandado imprimir e colado em todo o lado veio no seguimento da campanha adotada pela mesma UEFA, em outubro de 2019, com o lema "Reconhecer, Reportar e Remover", que até teve um vídeo animado para explicar os procedimentos a adotar quando houvesse suspeitas de concussão durante um jogo. "A saúde dos jogadores é de extrema importância e acredito fortemente que as regras atuais precisam de ser atualizadas", defendeu o presidente, Aleksander Čeferin.

Em maio desse ano, a UEFA revelou ter pedido ao IFAB (International Football Association Board) - a entidade responsável por estudar e decidir alterações nas regras do futebol - que revisse as leis do jogo para incluir a hipótese de as equipas recorrerem a uma substituição temporária para examinar um jogador, ou até que pudessem dispor de uma substituição permanente a mais, se um futebolista sofresse uma concussão e tivesse de ser retirado da partida.

Mas, para esta época, folheámos o manual das Leis do Jogo e a única alteração foi, no fundo, apenas uma ressalva: "O IFAB continuará a experimentar mudanças significativas na Lei e, no próximo ano, haverá testes de procedimentos especiais de substituição para um jogador que sofreu um ferimento na cabeça e pode ter, ou desenvolver, uma concussão". E o futebol continua sentado, à espera, enquanto vão aparecendo choques de cabeça ou pancadas com maior ou menos frequência.

No râguebi há placagens, colisões constantes de corpos musculados e existe (desde 2015) um protocolo de concussão que obriga qualquer jogador a permanecer 10 minutos fora de campo para ser avaliado por uma equipa médica caso sofra uma pancada na cabeça e haja suspeita/sintomas de concussão. Durante esse tempo, é feita uma substituição temporária e entra outro jogador para o seu lugar. O críquete e a o futebol americano (NFL) têm regras semelhantes.

Entre sugestões, reuniões e painéis de discussões, devagar devagarinho o futebol parece ir na mesma direção. Para 16 de dezembro está agendada uma reunião do IFAB para, em princípio, aprovar a introdução de substituições temporárias ou permanentes nas regras, que possam ser aplicadas quando se existam suspeitas de concussão. Diz a entidade que a ideia é começar a testar essas alterações "o mais cedo possível".

Uma medida que já virá tarde, por mais comum que seja dizer-se que mais vale tarde do que nunca, porque no Mundial de 2014 as luzes apagaram-se, por um momento, para Álvaro Pereira, do Uruguai, que foi examinado durante dois minutos para voltar ao jogo, e para Christoph Kramer, o alemão que não se lembra de quase nada da final que ganhou com a Alemanha por ter levado uma pancada na cabeça a meio da primeira parte - e ainda jogaria durante mais 14 minutos.

O desamparo, a perda de consciência e a fratura sofridas por Raúl Jiménez foram o exemplo mais drástico e recente e, no caso do mexicano, nem humanamente possível era que permanecesse em campo. Mas, se já fosse possível fazer uma substituição temporária ou permanente, teriam David Luiz, Nicolás Otamendi ou Rodrigo Pinho regressado ao jogo?