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Ouvir o que dizem o árbitro e o videoárbitro um ao outro e em tempo real? Talvez no futuro, diz o Conselho de Arbitragem

Durante a conferência “VAR Future Challenges” (Futuros Desafios do VAR), organizada pelo Sporting, José Fontelas Gomes frisou que “neste momento é muito difícil colocar em prática as comunicações em tempo real”, apesar de assumir que “no futuro, esta é a forma de dar maior transparência e credibilidade ao VAR”

Lusa

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O presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) admitiu hoje abrir as comunicações entre árbitro e videoárbitro (VAR) em tempo real, mas sublinhou que é preciso “tempo, treino e aprendizagem” para dar esse passo.

Durante a conferência “VAR Future Challenges” (Futuros Desafios do VAR), organizada pelo Sporting, José Fontelas Gomes frisou que “neste momento é muito difícil colocar em prática as comunicações em tempo real”, apesar de assumir que “no futuro, esta é a forma de dar maior transparência e credibilidade ao VAR”.

“Precisamos de tempo, treino e aprendizagem. [Talvez] se no início colocarmos uns ‘clips’ nos média, só para os adeptos perceberem que não há ali quaisquer segredos, para as pessoas perceberem como trabalhamos com o VAR. Temos muito trabalho para fazer nesta área”, admitiu Fontelas Gomes.

O presidente do CA considerou ainda que a divulgação das comunicações em tempo real levaria as pessoas a criticar “a forma como o árbitro e o VAR falaram e não a decisão” em si e assumiu que “no futuro podemos fazer mais do que agora”.

“A nossa opinião, neste momento, é que precisamos de muitas horas de treino antes de podermos dar este passo”, sublinhou.

A divulgação das comunicações entre árbitro e VAR foi o foco da discussão na conferência, depois de o antigo árbitro internacional de râguebi, Nigel Owens, referir que o que lhe causa maior transtorno ao assistir a um jogo de futebol é não perceber os motivos das decisões tomadas pelo VAR.

“Os treinadores, os jogadores e os espetadores não entendem o porquê da decisão. No râguebi o árbitro explica, as pessoas veem no ecrã e percebem, mas no futebol é difícil porque o árbitro não explica. O que têm de fazer é que os árbitros possam explicar porque tomam ou mudam uma decisão. Isso vai fazer as pessoas perceberem e retira muita pressão”, aconselhou o árbitro galês.

O juiz, que se retirou este mês da arbitragem internacional após dirigir o seu centésimo jogo entre seleções, frisou que se o árbitro tiver a oportunidade de explicar a sua decisão as pessoas “podem não concordar, mas percebem” os motivos e aconselhou a utilização do VAR apenas em situações claras e óbvias.

“Se existe a mínima dúvida, a decisão do árbitro deve prevalecer”, afirmou Owens, que defendeu também que a pressão das decisões deve ser colocada sobre o árbitro de campo que, desta forma, toma melhores decisões, enquanto tende a ser “preguiçoso” quando tem o apoio da tecnologia.

Imediatamente a seguir a Owens, o antigo árbitro internacional inglês de futebol Keith Hackett apoiou as palavras do seu congénere do râguebi e sublinhou que passar um slide nos ecrãs gigantes a dizer que o VAR está a analisar uma possível grande penalidade ou fora de jogo “não é suficiente”.

“Toda a gente deve poder ver e ouvir a decisão nos ecrãs gigantes. Eu quero ver as imagens que o VAR está a ver, quero ouvir o que o árbitro e o VAR estão a discutir. Funciona no râguebi”, exigiu o antigo diretor-geral do quadro de árbitros profissionais da Premier League.

Hackett defendeu também que o árbitro de campo “toma melhores decisões quando a pressão está sobre os seus ombros” e socorreu-se de uma afirmação recente de David Ellearay, diretor técnico do IFAB, o organismo que analisa e implementa as regras do futebol, para defender uma menor intervenção do VAR.

“A questão que o VAR e o árbitro devem colocar-se não é se a decisão foi correta, é se foi claramente incorreta”, citou.

O ‘contraditório’ foi lançado por Greg Barkey, árbitro da Liga norte-americana de futebol, que explicou que à imagem de todos os desportos nos Estados Unidos o futebol tem a preocupação de colocar os interesses dos adeptos no topo das prioridades, mas admitiu que ainda é cedo para “abrir o microfone”.

“Neste momento, os árbitros não estão habituados a falar nem com a comunicação social [sobre as suas decisões]. Pedir-lhes que abram o microfone num momento de stress e pressão máxima de tomada de decisão pode ser perigoso e é injusto colocá-los nessa situação. Antes de acontecer, têm de ser treinados sobre como conduzir essa conversação, para assegurar que é clara”, sustentou Barkey.

A conferência “VAR Future Challenges”, organizada pelo Sporting, decorreu hoje numa plataforma digital e contou também com as intervenções de Helena Pires, diretora executiva da Liga Portugal, Paddy O’Brien, antigo presidente do quadro internacional de árbitros de râguebi, Gigs de Jong, diretor do Euro 2020, e Alexander Ernst, da federação alemã.