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Isto entretanto mete-se o Natal

O FC Porto venceu pela 22.ª vez a Supertaça, ao bater o Benfica por 2-0, num jogo equilibrado mas pouco competitivo, numa noite de espectáculo nulo e futebol sorumbático, um pouco como todos ficamos por esta altura antes das festividades, em que o mundo parece apenas rodar por puro hábito. No final ganhou a equipa que foi, simplesmente, mais adulta

Lídia Paralta Gomes

Octavio Passos/Getty

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Sabem como é, por esta altura já é muito difícil, agora mete-se o Natal, se calhar só lá para janeiro, está pouca gente, não se consegue adiantar nada.

De todas as dinâmicas comportamentais do povo que habita este ponto ocidental do velho continente, esta espécie de niilismo pairante que se nos acomete algures a partir da segunda semana de dezembro tem de ser das minhas preferidas.

Imagino que não seja um exclusivo nosso, que por esse mundo existam mais manifestações de sorumbatismo de final de ano, uma espécie de reação isquémica porque o ano está a acabar e uma pessoa já não tem paciência. Deve haver estudos sobre o fenómeno, de universidades com nomes que não conseguimos pronunciar mas que temos como sérias e se não houver também é fácil, basta passar por três ou quatro locais de trabalho a uma semana das festividades. Ou então dar um olho a esta Supertaça, que por motivos de pandemia acabou empurrada para a véspera da véspera de Natal, literalmente o dia em que os sintomas explodem.

Foi portanto absolutamente mergulhados nesta onda de isto agora mete-se o Natal, em que o planeta parece continuar a rodar mas apenas por puro hábito, por inércia, que FC Porto e Benfica entraram em campo para na 1.ª parte nos oferecerem 45 minutos de qualquer coisa que dificilmente se pode chamar de futebol, provando que as equipas, na verdade, são gente como nós, atreitas a estes esoterismos para os quais procuramos ainda explicação.

Os primeiros minutos, em particular, trouxeram-nos momentos de sururu, picardias, faltas, quezílias, enfim, baderna, personificados na perfeição num encontro mais quente ali pelos 15 minutos, com as testas de Marega e Otamendi a não cumprirem as regras mais básicas do distanciamento social.

Octavio Passos/Getty

Nos intervalos dos apitos de Hugo Miguel, o que é que desde logo se concluiu? Nada muito diferente daquilo que as duas equipas têm mostrado nesta nova temporada: um Benfica desequilibrado, alavancado para o ataque mas sem ligação entre os sectores e com uma transição defensiva cheia de buracos e um FC Porto pouco brilhante mas sólido, pragmático, um niquinho mais agressivo, à caça de aproveitar as fragilidades do adversário, pouco preocupado com a nota artística. E foi assim que apareceu o primeiro golo do jogo, aos 25’: Corona aproveitou a clareira no meio campo defensivo do Benfica e rasgou as linhas para Taremi, que acabou carregado na área por Vlachodimos.

E depois uma tríade que não tem falhado: grande penalidade, Sérgio Oliveira, golo.

O jogo, com pequenas variações aqui e ali, seria isso mesmo: 90 minutos penosos de futebol em que a vantagem acabou por pender para o conjunto de jogadores que, por esta altura, é mais equipa. O FC Porto chegou a Aveiro para ganhar, não para fazer arte contemporânea, a tal que Sérgio Conceição falou na antevisão ao encontro. E um Benfica que por ora é apenas um grupo de futebolistas de onde por vezes saem uns fogachos individuais, uma coisa meia indistinta e incipiente, dificilmente ganharia a uma equipa pragmática, que nos jogos decisivos têm mostrado uma solidez defensiva invejável. O Benfica teve três momentos de perigo durante todo o jogo e os três foram protagonizados pelo seu defesa esquerdo. Dois dos quais foram livres diretos. Mesmo perante Pepe e Mbemba, é poucochinho.

E, por isso, a vitória do FC Porto, mais ou menos bonita, não tem discussão e o golo de Luis Diaz aos 90’ só veio avolumar um resultado que merecia ser de 1-0 porque o que tivemos em Aveiro não foi jogo para mais que isso, que as nossas cabeças já estão nos concertos do André Rieu, na 2376.ª visualização do “Música no Coração” e na viragem para 2021, que 2020 deixa muito cansaço e poucas saudades.

A avaliar por este jogo, também deixa pouco futebol. Bom Natal a todos.