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O jogo em Paris, o golo de Wetl e o sprint vigoroso de José Pratas: as histórias e os números dos duelos FC Porto - Benfica na Supertaça

FC Porto e Benfica encontram-se pela 12.ª vez na Supertaça esta quarta-feira, véspera da véspera de Natal, em Coimbra. A Tribuna Expresso foi ao baú de recordações

Lídia Paralta Gomes

SOPA Images/Getty

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O estado da arte

Uma Supertaça em dezembro nem é assim tão incomum - nos primeiros anos da competição era precisamente por esta altura que se jogava - mas já há muito que olhamos para o jogo entre o vencedor do campeonato e da Taça de Portugal da época anterior como uma espécie de première da nova temporada, jogada sob as altas temperaturas dos inícios de agosto.

Não em ano de covid-19, claro.

A pandemia baralhou e voltou a dar um calendário já bem espremidinho para 2020/21 e, por isso, este ano vivemos uma espécie de regresso às origens, com a Supertaça a abrir as portas ao Natal. E em 2020 isso é quase um abrir de portas literal: o jogo realiza-se na véspera da véspera de Natal, em Aveiro.

O FC Porto é o atual campeão nacional e detentor da Taça, ganha na final ao Benfica em agosto, com os encarnados a garantirem assim direito a disputar aquele que continua a ser o primeiro troféu oficial do ano. E nenhuma das equipas se apresentará em Aveiro num estonteante momento de forma. Apesar das boas séries de vitórias no campeonato (três para o Benfica, quatro para o FC Porto), quando olham para cima as duas equipas vêm o Sporting lá no topo e em boa medida as promessas de ambos os treinadores no início da época são, por esta altura, uma miragem.

O Benfica não joga “o triplo” em comparação a anos anteriores e ao FC Porto tem faltado a consistência defensiva que sempre caracterizou as equipas de Sérgio Conceição, que tem visto Marchesín a ir buscar bolas ao fundo das redes da sua baliza com uma frequência incomum. Pelo menos dentro de portas já que na Champions temos tido uma versão concentrada de FC Porto, que na fase de grupos apenas perdeu pontos e sofreu golos com o Manchester City, o que está muito longe de ser um embaraço nacional.

A carta da excelência europeia é algo que, por seu turno, o Benfica não poderá usar, depois de não conseguir ficar em 1.º lugar num grupo de Liga Europa com Rangers, Lech e Standard Liège e de ter sofrido nove golos em seis jogos.

Posto isto, o cliché torna-se difícil de não usar: não há mesmo favorito para o encontro de quarta-feira. E não é pelos melhores motivos.

Na final da Taça, em agosto, o FC Porto bateu o Benfica por 2-1

Na final da Taça, em agosto, o FC Porto bateu o Benfica por 2-1

JOSE COELHO/EPA

Os números

O mapa geopolítico da Supertaça tem sido absolutamente dominado pelo FC Porto desde as primeiras representações cartográficas oficiais da competição, no início da década de 80. O FC Porto tem um total de 21 títulos na prova, bem mais que o dobro do Benfica, que tem oito Supertaças no palmarés, a última das quais na última temporada.

É por isso, sem surpresa, que os jogadores com mais partidas (João Pinto, com 25) e com mais golos na competição (Domingos, com 6) sejam antigas glórias dos dragões. João Pinto é também o jogador com mais títulos na prova, oito.

O duelo entre FC Porto e Benfica é também o mais comum na Supertaça e mais uma vez os números pendem de forma esmagadora para os dragões: em 11 confrontos, o FC Porto só não ganhou um, em 1985.

Entre os treinadores, Jorge Jesus leva vantagem: chegou a três Supertaças e ganhou duas. Em 2010 perdeu precisamente para o FC Porto, então de André Villas-Boas, e em 2014 e 2015 venceu curiosamente por clubes diferentes, Benfica e Sporting, respetivamente. Sérgio Conceição vai para a segunda Supertaça, ambas com o FC Porto - em 2018 venceu o Desp. Aves.

FC Porto festeja a Supertaça conquistada em Aveiro há dois anos, frente ao Desp. Aves

FC Porto festeja a Supertaça conquistada em Aveiro há dois anos, frente ao Desp. Aves

Gualter Fatia

As finalíssimas

O formato da Supertaça não foi sempre o mesmo: até 2000 jogava-se a duas mãos e em caso de empate havia lugar a uma finalíssima que chegou a ser, ela própria, a duas mãos. E equilibrados como sempre foram, os duelos entre FC Porto e Benfica na Supertaça caíram muitas vezes para os jogos suplementares.

Em 1984, por exemplo, foram precisos quatro jogos e um número interminável de meses para se encontrar o vencedor da prova, que só seria coroado, já em maio de 1985, quando o FC Porto venceu os dois jogos (3-0 nas Antas e 1-0 na Luz).

Em 1991, 1993 e 1994 foi de novo preciso recorrer à finalíssima para se encontrar um vencedor, desta vez já em jogo único, em terreno neutro (às vezes até longe do país, mas já lá vamos) e com uma tendência: vitória para o FC Porto.

O sprint de José Pratas

É um dos momentos que fica na história iconografia da Supertaça: o registo fotográfico do momento em que José Pratas, árbitro de Évora, de apito na mão direita e negro imaculado, foge de um magote de jogadores do FC Porto.

Aconteceu na finalíssima da Supertaça de 1991, que na verdade já se disputou em setembro de 1992, no antigo Municipal de Coimbra. Isaías fez o primeiro golo do jogo para o Benfica aos 72’ e José Pratas validou o lance, decisão não necessariamente levada a bem pelos jogadores do FC Porto, que foram em cavalgada desenfreada pedir explicações ao juiz, que não foi de modas e correu também o que pôde.

As desconcertantes imagens desse sprint marcariam para sempre a carreira de José Pratas, falecido em 2017. Quanto ao jogo, até acabaria com a vitória do FC Porto, que empatou já dentro dos últimos 10 minutos por João Pinto, de penálti, e se superiorizou no desempate através de pontapés da marca de grande penalidade, naquela que seria a 6.ª Supertaça para os dragões.

O jogo em Paris

Nos anos 90 passou a ser tão complicado resolver as Supertaças nas duas mãos regulamentares que, às tantas, a Federação Portuguesa de Futebol foi obrigada a ser criativa. Vai daí, na edição de 1994, e com a necessidade de encontrar novo estádio neutro para a finalíssima, a escolha acabou por recair no Parque dos Príncipes, de Paris, em jeito de homenagem às centenas de milhares de emigrantes portugueses em França.

Depois de duas mãos disputadas em agosto e setembro de 1994, em que tudo terminou empatado, o jogo decisivo aconteceu apenas a 20 de junho de 1995, ou seja, nove meses depois. É, ainda hoje, o único clássico entre FC Porto e Benfica a disputar-se fora das fronteiras nacionais. Um golo de Domingos, aos 51 minutos, reservou mais uma Supertaça para o FC Porto, num jogo que ficou também marcado pelo adeus de António Veloso, o capitão do Benfica que terminou a carreira precisamente nesse jogo na capital francesa.

Na edição seguinte voltou a haver finalíssima e a finalíssima voltou a viajar para o estádio do Paris Saint-Germain. O FC Porto repetiu a presença em Paris, desta vez frente ao Sporting e a vitória foi para os leões, 3-0, com dois golos de Sá Pinto e outro de Carlos Xavier.

Os cinco golos do FC Porto na Luz

É a mais expressiva das vitórias do FC Porto em jogos contra o Benfica na Supertaça. Em setembro de 1996, e já depois de ter batido o rival nas Antas por 1-0, o FC Porto foi à Luz vencer por 5-0, num jogo em que, curiosamente, Sérgio Conceição foi titular.

O FC Porto entrou logo a ganhar, com um golo de Artur, aos 3’. Marcaram também Edmilson (43’), Jorge Costa (46’), Arnold Wetl (57’) e Drulovic (85’). O austríaco Wetl era então um dos reforços da equipa de António Oliveira e no final da época deixaria as Antes sem impressionar, mas o golo que marcou naquele dia 18 de setembro de 1996 na Luz ainda é recordado como um dos mais espectaculares em finais da Supertaça.

O jogo marcou também a apresentação de Mário Jardel aos clássicos: o brasileiro entrou na 2.ª parte, para o lugar de Edmilson.

2010: o primeiro de quatro títulos para o FC Porto

André Villas-Boas chegava ao Dragão depois de impressionar na Académica e logo no primeiro jogo oficial disse ao que vinha: vitória por 2-0 na Supertaça frente ao campeão Benfica, com golos de Rolando e Radamel Falcao e o primeiro sinal daquele que seria um ano quase perfeito do FC Porto.

À Supertaça, seguiram-se mais três títulos: campeonato, confirmado com uma vitória no Estádio da Luz, Taça de Portugal e Liga Europa, numa final 100% portuguesa frente ao Sp. Braga, em Dublin. Nessa temporada 2010/11, o FC Porto só falharia mesmo a Taça da Liga, ganha pelo Benfica.

Seria a primeira presença na Supertaça para Jorge Jesus: 10 anos depois, há novo FC Porto - Benfica na competição.