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A Filomena não ama o Nacional-Sporting

O vento e a chuva fortes da depressão atmosférica Filomena causaram, esta quinta-feira, o adiamento de um jogo que estava na cara ser injogável ainda antes de os jogadores do Nacional e do Sporting pisarem o relvado do Estádio da Choupana, no Funchal, para o aquecimento. A Liga de Clubes confirmou que a partida será jogada às 18h de sexta-feira

Diogo Pombo

HOMEM GOUVEIA/LUSA

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Dito é só um nome, Filomena, mas os nomes têm uma origem e o de Filomena está na Grécia Antiga, o seu rasto mitológico é o da filha de um rei de Atenas, violada pelo marido da irmã que lhe mutilou a língua para segregar o ato que ela conseguiria contar à irmã, ela era Filomela e pulemos para o fim da história e as repercussões do mito: os deuses transformaram Filomela em rouxinol.

O nome não perdurou imutável porque Filomela originou Filomena, das várias interpretações do mito e seus significados ficou que o étimo de Filomena vem de alguém amante de música. Mesmo que a fêmea de um rouxinol não cante (e há versões do mito que têm a andorinha como espécie de pássaro escolhida), pronto, Filomena é nome de amante de algo mesmo que não de melodias e este nome não precisava de mais rocambolismo para ainda o usarem como batismo da depressão atmosférica que invadiu a Madeira, sem um nico de amabilidade que seja.

De amável há muito pouco nas derrocadas, nos cursos de águas a transbordarem, nos carros destruídos e nas escolas a encerrarem na ilha, esta quinta-feira, menos ainda no vento a roçar os 100 quilómetros de hora registados nas terras altas, onde os 632 metros do Estádio da Choupana se incluem e os jogadores do Nacional e do Sporting.

(o vídeo é do Diário de Notícias da Madeira.)

Entram em campo para aquecerem os músculos dos seus corpos encolhidos, quase caquéticos na forma; há mãos a serem filmadas a proteger os ouvidos do frio e cachecóis a taparem a cara; os cabelos, os calções e as camisolas dos jogadores a serpentearem freneticamente pelos sopros do vento, que rolam incómodo na cara de toda a gente que tem de estar ali no aquecimento que não terá crentes de vir a servir para alguma coisa.

Porque o vendaval também sopra a bola na relva de toda a vez que Manuel Mota, o árbitro, a deixa cair e a isenta de pontapés. Também lhe abranda o voo quando pede a Adán, guarda-redes do Sporting, que a teste com um chuto da baliza para o meio-campo. O vento embala-a com o cortinado de chuva que apaga as linhas do relvado e às 18h30, quando era para haver jogo a começar, há jogadores, treinadores, delegados e árbitros a fugiram túnel dentro e a refugiarem-se no balneário por culpa da Filomena.

Não eram necessários os 30 minutos regulamentares (artigo 46.º) de espera para se concluir que o jogo seria injogável. Manuel Mota ainda regressou ao campo para novos testes e repetidas conclusões. Os presidentes Rui Alves e Frederico Varandas foram filmados a discutirem, muito gesticulando. No dia anterior, o avião que descolou de Lisboa com o Sporting dentro só aterrou no Funchal cinco horas depois, e depois de ter de se desviar para o Porto Santo.

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A Filomena é uma depressão de nome amável que não ama as habitações, as estradas, os muros e as barreiras de cursos de água na Madeira, muito menos amaria na ilha qualquer tentativa de futebol, que também não será muito amado por quem insistiu em tentar ver se daria para jogar na Choupana. Para criar talento no meio deste temporal.

Passou a meia hora e quem restava foi embora, foram-se os apanha-bolas e os tratadores que acudiam ao campo. Nas colunas do estádio anunciou-se o adiamento do jogo, para quando era o que se estaria a negociar algures entre Nacional, Sporting e a Liga de Clubes, responsável pelo anúncio que seria feito: a partida jogar-se-á esta sexta-feira, às 18h. O que evitou uma tempestade de outras complicações.

O Sporting está de calendário cheio até 14 de fevereiro (jogos a cada quatro dias entre campeonato, Taça de Portugal e final-four da Taça da Liga) e encaixar o jogo algures durante as próximas seis semanas, que não no dia seguinte, seria difícil. Mas a depressão que é a Filomena complicou a vida ao Nacional, que pela segunda vez seguida tem um encontro do campeonato remendado para outra data - no domingo, 3 de janeiro, um surto de covid adiou o jogo com o Vitória, em Guimarães.

Ou se afasta da Madeira entretanto, ou a Filomena terá de amar um pouco mais o Nacional-Sporting na sexta-feira.

  • Sporar no meio do temporal
    Sporting

    O avançado esloveno é a novidade na equipa do Sporting para defrontar o Nacional da Madeira no Estádio da Choupana, no Funchal, onde as condições climatéricas registadas causadas pela tempestade Filomena nos últimos dias têm levantado dúvidas sobre se haverá condições, ou não, para a realização do jogo, agendado para as 18h30