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Há uma regra que proíbe o guarda-redes de ter a bola mais do que seis segundos nas mãos, mas ela é ignorada. Porquê?

A regra está na 12.ª Lei do Jogo: é "uma infração" se um guarda-redes “controlar a bola com a mão/braço durante mais de seis segundos antes de a soltar” e há que assinalar um livre indireto na área. Mas quantas vezes já se viu um árbitro apitar este tipo de falta? Pouquíssimas, ou quase nenhumas. IFAB diz que não lhe compete avaliar a aplicação da regra, que mesmo sendo clara e não prevendo exceções por escrito, "foi implementada mais para servir de dissuasora do que punitiva", diz Duarte Gomes, explicando que "há um grau de tolerância que os árbitros usam porque a punição é mesmo a bomba atómica"

Diogo Pombo

Juan Manuel Serrano Arce/Getty

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Um, dois, três quatro, cinco, seis.

Conta para ele próprio, a meia dúzia de segundos passa-lhe na cabeça e no fim, lá ao longe no campo, quem está de luvas deveria jogar ou já ter jogado a bola que tem nas mãos. Só que demora a chutá-la. Quando esse guarda-redes a volta a segurar, ele retorna à contagem, agora para fora e com voz, por acaso tem o árbitro perto e quer entrar-lhe escuta dentro com o somatório.

Por mais três vezes esse jogador revê o guarda-redes adversário de pé, na sua área, pronto a distribuir a bola, mas a demorar sete, oito, nove e pelo menos dez segundos, ele sempre a verbalizá-los e nada, o apito não soa. O jogo termina e ao passou-bem com que se acerca do árbitro junta um reparo, condena-o por não ter feito cumprir uma das regras do futebol. “No meu relógio não havia esse tempo”, é a resposta que ouve.

O episódio é deste ano e aconteceu no futebol amador, o jogador em questão ficou furibundo por saber que há um tempo limite para o guarda-redes ter a bola nas mãos e é falta quando o supera, proverbial descrição da “infração” se “controlar a bola com a mão/braço durante mais de seis segundos antes de a soltar”. Está escrito nas Leis do Jogo (número 12) para a época 2020/21.

Ler a regra com os óculos da literalidade dá-lhe razão. Identificou-se uma situação inevitável que, a realizar-se sem trela, prejudica um jogo de futebol, portanto delimitou-se o seu tempo de vida possível e previu-se um castigo se sobreviver para lá de seis segundo. E o mesmo tintim por tintim também teria punido os guarda-redes onde há câmaras, visibilidade e televisão.

Considerando o que está preto no branco na Lei n.º 12, houve várias infrações à regra só nos primeiros jogos feitos pelos clubes grandes na Liga NOS, após dobrarem o ano: quatro vezes no Santa Clara-Benfica; duas no FC Porto-Moreirense e oito durante o Sporting-Braga. Marco, o guarda-redes do clube açoriano, chegou a ter a bola nas mãos durante 15 segundos. Adán, em Alvalade, ultrapassou os 10 segundos em mais de um par de ocasiões.

Nunca se ouviu um apito do árbitro a ordenar que se marcasse um livre indireto no sítio onde o guardião estava quando prolongou a vida com a bola nas luvas.

Esses três jogo foram exemplos e não exceções. Nenhum guarda-redes existirá em Portugal, ou no mundo, que nunca tenha feito tal coisa durante mais de seis segundos. Mas serão ínfimos os que possam contar a história daquele jogo, aquela vez em que ouviu um apito e julgou ser por outro coisa qualquer, mas não, era para o castigar - porque a regra, mesmo escrita como está, sem provisões e exceções acauteladas ao lado, "foi implementada mais para servir de dissuasora do que punitiva".

Visionhaus/Getty

Di-lo Duarte Gomes, antigo árbitro que resume à Tribuna Expresso o porquê de um dia se ter acrescentado palavreado às leis para colocar “pressão sobre os guarda-redes no sentido de não fazerem perdas de tempo quando têm a bola controlada e ninguém a pode jogar - quando, no fundo, estão a queimar tempo”.

Se é uma regra, então é cumprir sempre?

Por escrito, sim, em abstrato, não. Duarte Gomes é a voz da interpretação que se exige presente em cada homem ou mulher do apito e explica que a regra se fez “para ser muito mais preventiva do que punitiva”. Daí lhe atribuir o “grau de tolerância” a pairar no ar em cada jogo, porque “a punição é mesmo a bomba atómica” a ser usada apenas “se for manifestamente ultrapassado o tempo”.

Cabe a cada árbitro considerar não o que vai além do limite da regra, mas o que a supera em demasia, cruzar essa fronteira é um problema dependente do quanto um guarda-redes se afastar do marco temporal definido. Só que interpretar é um parente afastado de subjetivar: ir ostensivamente para lá dos seis segundos será chegar aos 10, tocar nos 15 ou alcançar os 20? Ou será uma questão de mostrar que a perda de tempo é propositada?

Para Simon Mignolet o limiar esteve nos 21 segundos, quando o belga, então no Liverpool, agarrou a bola, ameaçou três vezes que ia passar, fê-la ressaltar na relva e o ouviu-se um apito. Isto em 2015. Três anos antes, nas meias-finais do torneio feminino dos Jogos Olímpicos, a guarda-redes Erin McLeod, do Canadá, ficou com a bola durante uns 11, 12 segundos e a árbitra assinalou uma falta.

Um, dois, três quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.

A estratégia de contar o tempo vocalmente resultou para Amy Wambach, uma das capitãs americanas da altura e eleita melhor jogador do mundo em 2012, que se acercou da árbitra cada vez que a guardiã canadiana agarrava uma bola. Forçar o seu segundómetro audível resultou. “Quando passei os 10 segundos contados a voz alta, ela apitou. Algumas pessoas chamaram-me picuinhas, outras acharam brilhante”, diria, após o jogo. Tanto neste como no do Liverpool, as faltas dariam em golo.

AFP

Nestes casos, a tolerância dos árbitros em questão durou mais do que cinco segundos e deixou os guarda-redes disporem da bola o dobro do tempo permitido, não mais do que isso. “As recomendações que têm”, explica hoje Duarte Gomes, “são no sentido de aplicar a letra da lei com bom senso”, nunca criticando-os, mas contextualizando: “Se houve um [árbitro] mais exigente e literal, estará sempre a cumprir, mas terá que o fazer várias vezes por jogo”.

Seja mental, de pulso ou vocal, o antigo árbitro explica também que a cronometragem “só deve começar quando o guarda-redes está com a bola controlada e em condições de a repor em jogo”. Se parar um remate, estiver na relva e ainda a erguer-se, esses segundos não contam. “Às vezes, isso leva a que passem uns 12 segundos e as pessoas não tenham noção de que, se calhar, os seis segundos não foram ultrapassados”, delineia.

Sobre indicações dadas aos árbitros e à respetiva tolerância que evidenciam, mais o garantir que são cumpridos estes e outros conformes (escritos ou não escritos) das regras, a Tribuna Expresso questionou a Federação Portuguesa de Futebol, que até ao momento não enviou qualquer resposta.

Porque, antes, a entidade responsável por introduzir ou mudar as regras do futebol - o IFAB, sigla inglesa para Internacional Football Association Board - respondeu que “a implementação das Leis do Jogo não é da [sua] responsabilidade” e sugeriu que as perguntas fossem colocadas “ao organizador responsável pela competição”. É o Conselho de Arbitragem da FPF, ao qual compete “coordenar e administrar a área” nas provas profissionais e amadoras, lê-se nos estatutos da entidade.

Não todas, mas muitas regras nas Leis do Jogo existem como oposição à perda de tempo, para serem anti o antijogo. A 31 de outubro de 1997, a FIFA publicou um texto a enquadrar a introdução do limite dos seis segundos. A última frase tem o "desejo contínuo de manter o futebol tão fluído, tecnicista e portanto atrativo quanto possível", a primeira lembrava que "o guarda-redes tem um raro privilégio no futebol" do qual não devia abusar.

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