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O que é que o João tem?

Bem executado e feito com intenção, um chapéu é um golo bonito que implica imaginação, perícia e atrevimento, características que o treinador Renato Paiva associou a João Félix no instante em que o viu pela primeira vez. “Quando chegou ao Benfica, perguntei-lhe qual era o clube dele, e ele respondeu-me sem hesitar: ‘Sou portista.’ Percebi logo que tinha personalidade. Depois vi certas coisas, pus as mãos na cabeça e pensei: ‘Mas o que é isto?’ Como é que o FC Porto o deixou sair?’” Entre as várias coisas, estava o chapéu

Pedro Candeias

RODRIGO JIMENEZ

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Os brasileiros chamam-lhe lençol ou balão, uma objetificação que está distante da criatividade usada para definir outras habilidades, como lambreta, elástico, caneta e parafuso; no Brasil, também se fala no drible da vaca, imortalizado por Pelé no Mundial de 1970, e no da foca, inventado pelo esquecido Kerlon, que equilibrou uma bola na cabeça enquanto corria durante um jogo.

Para o lençol (ou balão), os argentinos têm palavras diferentes, como vaselina e globo, e os ingleses, que inventaram o jogo, dizem lob ou chip. Para nós, o lençol é um chapéu: consiste em chutar a bola de forma a que esta faça um arco suficientemente alto e largo para passar por cima do guarda-redes antes de entrar na baliza.

Bem executado e feito com intenção, acontece um golo bonito que implica imaginação, perícia e atrevimento, características que o treinador Renato Paiva associou a João Félix no instante em que o viu pela primeira vez. “Quando chegou ao Benfica, perguntei-lhe qual era o clube dele, e ele respondeu-me sem hesitar: ‘Sou portista.’ Percebi logo que tinha personalidade. Depois vi certas coisas, pus as mãos na cabeça e pensei: ‘Mas o que é isto?’ Como é que o FC Porto o deixou sair?’” Entre as várias coisas, estava o chapéu.

O BEIRÃO

João Félix Sequeira, nascido a 10 de novembro de 1999 e filho dos professores Carlos Sequeira e Carla Félix, chegou ao Benfica em 2015 para jogar na equipa de sub-17, cujo treinador era Renato Paiva. Vinha do Padroense, uma equipa satélite para os miúdos do FC Porto que não tinham espaço no clube — a história que se conta é que Félix foi considerado demasiado frágil para o FCP, embora haja outra versão segundo a qual foram feitas algumas exigências que a estrutura portista achou despropositadas.

Por uma razão ou por outra, João Félix apareceu “quebrado” no Benfica. “Parecia um dead-man walking”, “pensava em desistir do futebol”, diz Paiva. “Apesar do talento, tinha perdido a confiança e questionava-se muito.” Valeu-lhe o contexto estável de uma família beirã de classe média que fez os possíveis para o acomodar, sem as pressões e as exigências desnecessárias e desproporcionais que muitas vezes atiram os miúdos para o fundo. “Ao contrário de outros pais, nunca me chatearam ou perguntaram porque é que o filho jogava ou não.”

Na verdade, João Félix jogaria quase sempre, 21 vezes como titular, seis vezes como suplente, e falhou alguns jogos por castigo do treinador, para entender que o futebol não se joga apenas com a bola no pé e que é preciso correr — aprender a defender foi, provavelmente, a única coisa que Paiva lhe ensinou. O resto estava lá tudo, e o treinador nunca respondia diretamente a quem lhe perguntava qual era a posição daquele prodígio. “Dizia-lhes: o lugar do João é no relvado, pode ser à esquerda, à direita, no meio-campo, a segundo avançado ou a avançado centro.” Era indiferente: ele passava, cruzava, assistia e marcava, “criava golos e fazia golos”; não se podia prendê-lo a uma posição, pois isso significava a proverbial morte do artista, todo ele instinto, perceção e antecipação e golo.

Nessa época fez 10 golos; nos anos seguintes faria 28 golos em 38 jogos (2016-17, nos sub-19 e na equipa B) e 22 golos em 35 jogos (2017-18, nos sub-19 e na equipa B); a seguir, explodiu com 20 golos em 43 jogos (2018-19, na equipa principal), ajudando a transformar um campeonato perdido pelo Benfica num triunfo improvável. Durante este percurso, relembra Renato Paiva, João Félix mostrou que era feito de uma massa diferente. “Saí agora do Benfica [vai treinar o Independiente del Valle, do Equador], mas estive lá 16 anos. E treinei muitos jogadores, mas nenhum como ele, nem o João Cancelo, nem o Renato Sanches, nem o Gonçalo Guedes, o Ferro ou o Rúben Dias.” Nem Bernardo Silva, que “pode ter mais intensidade em algumas ações mas não tem o que o João Félix tem”. Ele diz que, em alguns momentos, é “genialidade”.

O CHAPÉU

As leis da Física determinam a dificuldade do movimento. “Tem tudo a ver com a velocidade que se imprime à bola. Essa velocidade vai estabelecer a posição final da bola, e a velocidade tem duas componentes, vertical e horizontal, e a relação entre estas duas componentes dá o ângulo com que se chuta a bola; portanto, é preciso escolher o ângulo certo.” Pedro Basso Neves, formado em Física pela Universidade de Coimbra, dá-nos uma explicação possível para um bom chapéu ao guarda-redes. “Nesta fórmula, em que só analisamos a velocidade inicial e a aceleração da gravidade, que é uma constante, a massa e o peso da bola não são importantes.” Se quisermos aprofundar o tema, contudo, a massa e o peso entram em equação, tal como a “resistência do ar”. Ou seja, “um remate à baliza, digamos, normal” tem mais hipóteses de correr bem, porque é mais fácil “do que um chapéu ao guarda-redes”, pois vão a jogo muito mais variáveis naquele arco.

“Olha”, naquele lance, “a bola, eh pá, caiu direitinha lá dentro.” Aconteceu contra a equipa de seniores do Fabril, pois Renato Paiva gostava de pôr os miúdos dos sub-17 do Benfica a enfrentar homens feitos, para os desafiar. Nesse jogo, João Félix fez um chapéu “na meia-lua”, apertado por adversários. “O guarda-redes estava pouco adiantado”, ressalva o treinador, a justificar a subtileza do gesto do jogador. “Para fazer aquilo é preciso ter confiança, atrevimento. Só os craques é que o fazem assim, e toda a gente se pôs a perguntar quem era o puto”. Félix voltaria a “fazer aquilo”, desta vez num contexto diferente e em circunstâncias complicadas: a 25 de fevereiro de 2018, os sub-19 do Benfica, então treinados por João Tralhão, jogaram no Olival contra o FC Porto, o antigo clube de João Félix. Nas bancadas, os adeptos e sócios do FCP assobiaram e provocaram o miúdo, que correspondeu com dois golos, o segundo dos quais um chapéu irrepreensível ao guarda-redes Ricardo Silva. O Benfica ganhou por 2-1, e o avançado saiu de campo aos 90+4 minutos, ovacionado pelos portistas. Controlado, quebrou-lhes a resistência com o talento.

Fica a dúvida: será o Atlético de Madrid o clube ideal para um jogador como Félix? “Ele não podia esperar.” Às vezes, não se pode escolher. Vai-se e pronto

João Félix é reservado, pouco expansivo, introvertido, e também é magro e aparentemente frágil, mas isso não se nota em campo. “É um pau de virar tripas, e eu gozava com ele, perguntando-lhe se ele estava de lado ou de frente. Nunca será um líder que manda no balneário — isso é mais para o Rúben Dias —, só que é destemido e confiante e sabe usar o corpo para se proteger”, diz Renato Paiva. Quando subiu definitivamente aos seniores do Benfica, com Bruno Lage [que preferiu não falar com o Expresso], o jovem marcou ao Sporting e ao FC Porto, não cedendo à intimidação de Pepe, e fez um hat-trick ao Eintracht Frankfurt na Liga Europa. Houve um momento nessa época em que os benefícios da fama lhe subiram ligeiramente à cabeça, onde fez nuances no cabelo, e a equipa técnica avisou-o de que se continuasse por aquele caminho iria para o banco de suplentes. Corrigiu a tempo de se tornar o elemento mais decisivo no ataque do Benfica, transportando o errático Seferovic para níveis que o suíço nunca mais repetiu. Depois, saiu da Luz.

“Quando eu percebi que aquilo poderia acontecer, enviei-lhe uma mensagem a avisá-lo de que o Atlético de Madrid não era a equipa ideal para ele, porque tem uma matriz defensiva.” Renato Paiva, que tem uma coleção de vídeos de Félix guardados num cantinho da sua vida, preferia vê-lo no Manchester City ou no Barcelona, sobretudo neste, e há uma razão pessoal para isso. “O Jorge Jesus comparou-o ao Kaká, mas eu olho para ele e vejo semelhanças com o Johan Cruijff, o meu ídolo, porque é criativo e tem golo. E vai ganhar uma Bola de Ouro, tenho a certeza, apesar de ter ido para o Atlético.” E dá o exemplo de Futre, que poderia ter ganho uma Bola de Ouro se tivesse ido para outro clube, “daqueles onde se ganham mais títulos”. Mas, algumas vezes, não dá para escolher. Vai-se e pronto.

FURIOSAMENTE DEFENSIVOS

Paulo Futre chegou ao Atlético de Madrid em 1987, com 21 anos, a mesma idade que agora João Félix tem. Jogou lá em fases diferentes da sua vida (1987-1993; 1997-1998), ganhou apenas duas Copas do Rei e ficou em segundo lugar na eleição da Bola de Ouro de 1987, vencida por Ruud Gullit — queixou-se então que um voto de um jornalista português no holandês lhe tinha roubado o troféu, mas na realidade a diferença (106-91) era suficientemente grande para garantir o triunfo do então futebolista do AC Milan.

Então, teria sido diferente se... “se tivesse ido para um Real Madrid ou para um Barcelona? Eh pá, se calhar tinha sido apenas mais um, e agora, em Madrid, ainda sou uma lenda. Tenho 54 anos e não posso ir à rua”, diz Paulo Futre, que acrescenta: “O João Félix não podia esperar, imagina que tinha uma lesão num joelho… acabava-se tudo. E este Atlético de Madrid não é o Atlético de Madrid do meu tempo, ganha títulos e tem muito mais dinheiro.”

A 8 de julho de 2019, Futre apresentou João Félix no Atlético de Madrid e ao Atlético de Madrid, e depois à vida em Madrid, e avisou-o para a imprensa madridista. “Lá não é como cá. Lá, os jornalistas vestem a camisola, e o Real Madrid tem os grandes jornais do lado dele.” Ao mínimo deslize, as notícias são implacáveis, e por isso Paulo Futre deixou de falar, por decreto, com a comunicação espanhola. “A pressão sobre o João é brutal, brutal, não tens ideia.” O preço, obviamente, não ajudou: Félix foi contratado por 126 milhões de euros e ninguém da afición o conhecia; aqueles “cinco, seis meses no Benfica” são completamente irrelevantes para o adepto espanhol, particularmente para o colchonero, porque Espanha é Espanha e Portugal é pequenino. Estava plantada a dúvida da semente que germinou numa primeira época complicada: Félix começou razoavelmente bem, mas acabaria substituído em 21 jogos, nove deles antes do minuto 70; marcou nove golos, raramente foi unânime, e os milhões eram-lhe despejados em cima.

A crítica questionou-se, então, se o português seria um barrete ou se era apenas o estilo furiosamente defensivo do Atlético de Diego Simeone a dissecar outro jogador talentoso. Em sua defesa, Simeone chegou a afirmar que teria de encontrar uma solução para não obrigar o português a correr para trás; na prática, o argentino pouco mudou o seu Atlético. Não precisava de o fazer: os maiores títulos e os melhores resultados da história do clube foram alcançados com ele, e o presidente Enrique Cerezo renovara-lhe o contrato até 2022. [À hora em que escrevo, o Atlético lidera a liga espanhola, com os mesmos pontos do Real Madrid e menos dois jogos disputados.] A história estava do lado de Simeone, cujo mantra é terrivelmente simples: “O esforço é inegociável.” Por outras palavras: o talento é secundário. Necessariamente, era João Félix quem teria de se adaptar ao Atlético de Madrid e não o contrário. Aos poucos, parece estar a fazê-lo.

Nesta época, o internacional português já soma oito golos (cinco no campeonato, três na Liga dos Campeões) e, ainda que não complete os 90 minutos em muitos jogos, Paulo Futre acredita que “as coisas estão a cair um bocadinho para o lado dele”. Mesmo que não pareça.

Na derrota com o Real Madrid, Félix saiu aos 60 minutos, pontapeou uma cadeira e levou as mãos à cara; Vicente del Bosque, antigo treinador do Real Madrid e selecionador de Espanha, descreveu a cena e apontou o dedo ao português, acusando-o de irresponsabilidade. “Ele chutou uma garrafa, não pôs a máscara, não apertou a mão do treinador. Os jogadores não percebem que não estão a faltar o respeito ao treinador, mas sim aos companheiros.” Para Futre, isto faz parte do futebol e, ao reagir assim, talvez Félix esteja estranhamente a forjar “o seu estatuto”, que não deve ser “confundido com moral”; ao contrário deste conceito, que é subjetivo, o estatuto pode ser traduzido por respeito e é mensurável. “Naquela posição do terreno, oito em cada dez passes dos teus companheiros têm de ser para ti, e a seguir tens de ser decisivo, num passe para golo ou num golo. Tens de te manifestar, e assim passam a respeitar-te e a dar-te a bola.” É chegado o tempo de fazer comparações.

A INEVITABILIDADE

Cristiano Ronaldo tem 35 anos e há uma vida que caça estatutos por onde passa. Faz parte dele, e “nisso é muito diferente do João”, diz Paulo Futre, que os conhece a ambos. O madeirense exigia a Edwin van der Sar que ficasse na baliza após os treinos no Manchester United para treinar os seus tomahawks e o holandês acabava por dizer que sim ao miúdo insolente. Inicialmente, Félix baixava a cabeça no Atlético, embora a tenha encostado à de Messi, em janeiro de 2020, num inédito momento em que o argentino quis marcar território; o português aguentou-se, tal como se aguentara com Pepe no clássico com o FC Porto. Dava a sensação de que só reagia no limite, quando “picado pela malta”, diz Futre.

Agora é ele quem provoca reações, pedindo a bola e esbracejando com os colegas, porque está na altura de se chegar à frente. Tem 21 anos, aos 22, 23, o “físico vai estabilizar, ele vai encorpar”, e esse é o ponto certo para assumir responsabilidades. A Futre sucedeu-lhe o mesmo: “O Octávio mandava vir comigo no FC Porto, porque eu baixava dois quilinhos, ou era das torradas que comia ao jantar ou porque falhava o pequeno-almoço. Depois disso, já ganhava peso. A balança é um pesadelo para os jogadores.” Resumindo: Félix ainda está a crescer e temos de lhe dar tempo para que todo o “potencial se concretize” nesta nova década. “Mas não esperem outro Cristiano Ronaldo.”

Futre tem “a certeza absoluta” de que João Félix vai ganhar uma Bola de Ouro se continuar a evoluir assim. Num plano afastado, diz o mesmo de Trincão (Barcelona) e de Bernardo Silva (Manchester City), mas para isso suceder é preciso que “os dois extraterrestres” saiam do caminho. Ninguém sabe quando isso acontecerá, projetam-se apenas cenários com base na idade, lesões e motivações, fatores que Ronaldo manipula como ninguém. “Eu acho que ele vai jogar até aos 40. Vai deixar de ir à linha e ficará paradinho, ‘à mama’, como dizíamos no recreio da escola.” Sempre seco, cuidado, a enganar o tempo e a genética, a evitar noitadas e a restringir o número de festas ao máximo. “Se ele alguma vez teve uma ressaca, no dia seguinte foi para aquela máquina que ele tem para limpar o organismo ou fazer duas horas de abdominais. É um monstro.” Enquanto houver recordes para bater, Ronaldo prevalecerá — e o do iraniano Ali Daei, melhor marcador por seleções, está a sete golos de distância (109-102). Podia estar a seis, se Nani não tivesse metido o pé à bola naquele jogo contra Espanha, em que Ronaldo quebrou os rins a Busquets e chutou para a baliza de Casillas. O golo foi anulado por fora de jogo. Era um chapéu ao guarda-redes.