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A noite da expiação de Jorge Nuno Pinheiro de Jesus

O Benfica empatou com o FC Porto (1-1) no Dragão, num jogo em que uma invenção de Jesus resultou num bonito golo, quando Nuno Tavares cruzou para Seferovic que assistiu Grimaldo. Não havendo más noites para uma redenção, uma noite de clássico na casa do maior rival, num contexto de contestação e de descrença absoluta – e com um twist estratégico idealizado por alguém que já tropeçou nas suas próprias ideias em encontros anteriores – dificilmente poderia ser mais apropriada

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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Não há noites más para uma redenção, mas uma noite de clássico na casa do maior rival, num contexto de contestação e de descrença absoluta – e com um twist estratégico idealizado por alguém que já tropeçou nas suas próprias ideias em encontros anteriores – dificilmente poderia ser mais apropriada para a expiação de Jorge Fernando Pinheiro de Jesus.

Não foi total, mas quase.

Confessemos: quando a ficha de jogo mostrou Nuno Tavares e Grimaldo no mesmo onze, a reação imediata dos críticos de sofá e de bancada, nos quais me revejo, terá sido “lá está este a inventar outra vez”, como daquela vez em que David Luiz jogou à esquerda também contra o FC Porto. Como dessa vez correu francamente mal, a partir daí qualquer mudança tática ou de sistema que J.J. viesse – e veio – a operar no futuro seria – e foi – encarada com uma desconfiança implacável.

Mais uma vez, não seria diferente.

Assim, com Tavares e Grimaldo, ou seja, com dois defesas-esquerdos em simultâneo, Jorge Jesus estava a mostrar medo perante um adversário de “qualidade indiscutível” – a newsletter oficial dos encarnados assim se dirigiu ao portistas – que ainda por cima derrotara os encarnados nos últimos quatro encontros. Para o campeonato, para a Taça e para a Supertaça, em casa, fora de casa, em terreno neutro, com e sem público, com e sem testes positivos à covid-19.

Só que não.

O Benfica acabou por ir ao Dragão para jogar o seu melhor jogo de 2020-21, uma análise que, obviamente, leva em conta o valor do adversário. Com Nuno Tavares e com Grimaldo, Jesus quis estancar Nanu, Corona e, acima de todos, Marega, cuja tendência natural é descair para a direita.

Perante dois defesas-esquerdos que, a espaços, transformaram a defesa a quatro do Benfica numa defesa a cinco, o FC Porto encontrou menos espaços para buscar a profundidade; no plano inverso, a equipa de Jesus equilibrou a luta a meio-campo, com Grimaldo a juntar-se amiúde a Pizzi e a Weigl e assim tapar Sérgio Oliveira, e Darwin a procurar a linha e cruzar para Seferovic.

Estes movimentos terão surpreendido Conceição, que esperava o que se espera normalmente deste Benfica: extremos no meio e o lateral espanhol lançado ao ataque para assistir alguém para o toque final, abrindo-se espaços nas suas costas para, claro, outro alguém aproveitar.

Não foi assim, foi o contrário: cruzamento de Nuno Tavares cruzou para Seferovic que assistiu o ‘médio-ofensivo’ Grimaldo para um bonito golo. Aos 17’, o Benfica chegou-se à frente, depois de ter arrancado cautelosamente perante um FC Porto que vinha naturalmente cheio de vontade de impôr a sua teórica superioridade competitiva e física. O segundo fator duraria, pelo menos, até ao cansaço acumulado pela viagem e pelo prolongamento na Madeira, para a Taça de Portugal fazer a indesejada aparição.

Mas, até lá, ainda muita coisa se iria passar, a começar pelo golo de Taremi, nascido de uma associação com Corona – o iraniano chutou rasteiro e cruzado, e veio o empate. Que poderia espetivar o FC Porto para novas opções, mas na verdade foi o Benfica a continuar por cima do clássico: Darwin chutou ao poste (29’) e a seguir falhou um toque perigoso; mais tarde, o uruguaio rematou (43’) quando o mais avisado seria assistir Seferovic. O Benfica estava mais solto e seguro – e perigoso.

Veio o intervalo e vieram as dúvidas: o que poderia Conceição fazer para alterar o rumo das coisas e até quando resistiria Jesus a desmanchar a estratégia.

Resposta: confusão.

Clássico que é clássico tem sempre aqueles momentinhos carregados a testosterona em que normalmente intervêm Pepe e outro futebolista qualquer. Calhou ser Pizzi, que empurrou o central portista, fazendo-o estatelar-se de costas, mas o jogo prosseguiu, com um amarelo para cada lado, decisão salomónica bem recebida por uns e mal-agradecida por outros.

A partir daí, porém, o FC Porto – Benfica entrou numa sequência de empurrões, discussões e faltas, uma fase que durou até à expulsão de Taremi (73'), por entrada a Otamendi; pelo meio, um lance em que o irrequieto Rafa, que mexeu aqui e ali no clássico com as suas arrancadas, não fez o 1-2 porque Marchesín executou uma mancha impecável.

Então, e retomando, após o cartão vermelho a Taremi, o FC Porto até reagiu, com espírito e com Marega, mas o avanço do tempo viria a oxidar os músculos dos seus jogadores: com menos um futebolista e visivelmente desgastada, a equipa de Conceição enveredou pelo caminho da sobrevivência, cerrando o punho, agarrando-se ao ponto e espreitando qualquer nesga.

Felizmente para os portistas, Jorge Jesus não foi especialmente corajoso perante um cenário que parecia favorável; pelo contrário, só já perto do fim – antes dos 90’ e depois nos descontos – lançou Everton e Waldschmidt, futebolistas com talento e golo. Não foi suficiente e o jogo ficou 1-1. Empataram eles, não perdeu o Sporting.