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Futebol nacional

Falemos do Clássico: enquanto a bola gerar desconforto, o FC Porto continuará favorito

Aqui se lança o FC Porto - Benfica, num plano coletivo, individual, tático e estratégico. Quem parte à frente? A equipa de Sérgio Conceição - e há um contexto que o explica: os dragões ganharam os últimos quatro embates com as águias, o último dos quais no final de 2020, sobretudo porque Conceição tem a arte de levar os jogos para onde quer: onde controlar os espaços é mais importante do que controlar a bola e a intensidade se sobrepõe à criatividade. E, para já, nada indica que hoje será diferente

João Almeida Rosa

SOPA Images/Getty

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Ao olhar para a tabela classificativa, o equilíbrio entre FC Porto e SL Benfica é claro. O mesmo número de pontos, vitórias, derrotas e empates nestas 13 jornadas sublinham um percurso semelhante. Contudo, como disse Sérgio Conceição na conferência de imprensa, “as estatísticas contam zero” ou perto porque a larga maioria dessas 13 partidas foram jogos de perfis bem distintos daquele que se jogará hoje no Estádio do Dragão.

Para tentar perspetivar o que se vai passar hoje na casa do FC Porto há que perceber bem que jogo teremos – porque, sim, num jogo de futebol pode haver muitos “jogos” diferentes. Uns com mais espaço, outros com menos; uns com uma equipa com claramente mais iniciativa, posse de bola e argumentos técnicos, outros em que as equipas se equivalem; uns em que os treinadores priorizam as suas organizações ofensivas e preparam as equipas para desmontar as estruturas do adversário e outros em que, pelo contrário, o momento sem bola é aquele que merece mais atenção e que é visto como a chave para chegar à vitória. É neste último registo que os clássicos em Portugal se têm disputado e é também por isso que os comandados por Sérgio Conceição têm levado vantagem – ali, eles são superiores.

São superiores no momento sem bola, a condicionar a construção adversária, levando-a para as suas zonas de pressão, recuperando a posse e contra-atacando rapidamente; são superiores em jogos de espaços curtos, onde os duelos se multiplicam e a capacidade física da sua equipa prevalece e costumam também ser superiores do ponto de vista estratégico, onde Conceição tem mostrado capacidade para impor o ‘seu jogo’ em detrimento de outros jogos.

Grimaldo, após a derrota na Supertaça, falou disso mesmo: “Tentámos ser agressivos, lutar com eles. (…) Temos de ter mais personalidade, tentar jogar o nosso jogo”.

Assim, os encarnados têm dois caminhos distintos a percorrer para alcançar um triunfo no Estádio do Dragão: o primeiro, em que são uma equipa mais eficaz do que foram na Supertaça, aproveitam as poucas oportunidades de golo que terão e, conseguida a vantagem, viram o feitiço contra o feiticeiro e elevam a sua organização defensiva para um nível mais alto, não permitindo ao FC Porto espaços; o segundo, em que conseguem impor o tal jogo de que Grimaldo falava, apostando numa circulação mais rápida que subtraia duelos à partida e coloque Waldschmidt, Pizzi, Rafa e Everton no epicentro das decisões. Este último pode parecer o melhor, mas é o mais difícil porque o Benfica ainda não parece preparado para o alcançar.

As figuras

Embora se imagine um jogo em que os coletivos sejam mais importantes do que as individualidades, num plano individual há vários jogadores com potencial para determinar diferenças. Ora pela capacidade de criar algo diferente, e aí há Corona ou Diaz de um lado e Everton ou Rafa do outro, ora pela interpretação daquilo que serão as estratégias dos respetivos treinadores.

Na Supertaça, Conceição apostou em ganhar vantagem no corredor central, estimulando os seus extremos a adotar comportamentos diferentes: Otávio baixava com mais regularidade, aproximando-se de Sérgio Oliveira e Uribe e assumindo preponderância na construção, à medida que Corona procurou sempre as costas dos dois médios do SL Benfica, Weigl e Taarabt.

Contudo, sem Otávio, não parece haver outro jogador capaz de recriar a mesma dinâmica. Baró poderia ser esse o escolhido, mas está longe de mostrar o rendimento do brasileiro. Luís Diaz, o mais provável substituto, é um jogador que sai mais beneficiado por jogar aberto, junto do corredor, de forma a receber e forçar 1x1. Contra Gilberto, que mostra algumas debilidades defensivas, pode fazer diferenças.

Do outro lado, no Benfica, se há jogador simultaneamente capaz de definir bem os lances dos encarnados, seja pela finalização ou pelo último passe, e de criar dúvidas na estrutura dos azuis e brancos, esse jogador é o alemão Waldschmidt. Pode aproveitar as costas dos médios, como Corona fez na Supertaça, ou cair mais nos corredores, particularmente o esquerdo, combinando com Grimaldo e aproveitando a provável titularidade de Nanu.