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“Não foi nada de mais”, diz Gonçalo, que chutou a bola para fora por respeito ao jogo e ao adversário. E viu um cartão por isso

Nem pensou: mal ouviu o apito decidiu logo que ia devolver a bola. Gonçalo Teixeira, jogador do Esperança de Lagos, foi o primeiro no futebol sénior em Portugal a receber um cartão branco de um árbitro por um gesto de desportivismo, na quarta-feira, e à Tribuna Expresso resume o que, realmente, não deveria ser nada de mais

Diogo Pombo

CF Esperança de Lagos/Nico Arnoldi

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A bola é passada a Joshua Silva, que a recebe com o pé esquerdo com as redondezas despovoadas e logo gesticula, aponta os braços para a relva e baixa o corpo para a apanhar. Esborracha-a com as mãos e a espremidela denuncia-o: está a queixar-se de que a bola não está inflada o suficiente e atira-a na direção do árbitro, que a ignora.

O dono do apito já apitara, agora corria rumo ao jogador do Olhanense, só parou mesmo à frente do defesa central e as coordenadas do braço que estica para ar confirmam a falta que marcou. Só um guarda-redes, e dentro da área, pode tocar na bola com as mãos, mas Joshua só quis trocar esta bola por outra, mais cheia; há poucas causas mais unânimes num campo de futebol do que esta, mas ele estava a ser castigado por ela.

Gonçalo Teixeira era o adversário e confirma-o: ouviu-o “dizer que a bola estava vazia” e foi dos primeiros jogadores do Esperança de Lagos a chegar ao local do mal-entendido. E pronto, azar o dele e o deles, o jogo nem três minutos tinha e, olha, um livre oferecido pelo sotavento algarvio aos do barlavento, eles que não fossem tão ingénuos.

Mas não, esta frase é matreira e malandra, duas coisas que se costumam chamar a truques cujo traseiro, a fugir, foge por pouco à seringa da falta de fair-play. Só que Gonçalo Teixeira nem pensou numa fuga dessas: o jogador assumiu o livre, bateu a bola para a linha de fundo, bem longe da baliza. Mas o árbitro voltou a apitar, correu novamente e, mais uma vez, só parou à sua frente.

O jogador do Esperança de Lagos ficou “um pouco surpreendido”, estava a ir para a posição mas depois lá se lembrou que “já existia o cartão branco no futebol”, embora ninguém o tivesse visto no futebol sénior em Portugal. Viu-o agora; pelo que se lembra e conta à Tribuna Expresso o árbitro disse-lhe qualquer coisa como “foi por meteres a bola fora” ou “foi pelo teu fair-play”.

Gonçalo é de poucas palavras, tem 21 anos, pode ser da idade ou do feitio ou da timidez, ou também pode ser do que fez, “uma coisa simples, nada de mais”. Por ter sido mundano para ele não significa que seja comum. “Falámos ali entre uns quantos colegas e também já tinha dito aos jogadores do Olhanense que estavam ali ao lado que ia meter a bola fora”, conta, sobre o que ninguém lhe disse para fazer.

CF Esperança de Lagos/Nico Arnoldi

Ele joga o futebol em que já se ouviu pessoas com exposição e impacto nas ações incomparavelmente maiores do que as suas dizerem que o fair-play é uma treta, que esse tipo de gestos ficam para o árbitro decidir e o jogo é para se jogar. Mas Gonçalo Teixeira, por exemplo, não gosta quando, “às vezes, os jogadores não dão a bola para o guarda-redes, para a linha final, e atiram para a linha lateral e depois metem-se ali a fazer pressão”.

É o tipo de coisas que cabem na matreirice ou malandrice, que também costumam entrar no grande guarda-chuva da experiência; quem não o faz é verdinho ou não faz tudo o que for preciso para ganhar, quando o que se passa é talvez precisarem dessas coisas para conseguirem ganhar. “Não é fair-play”, remata Gonçalo, do Esperança de Lagos, depois de não ter rematado à baliza.

O plano

Gonçalo e o árbitro, Paulo Barradas, protagonizaram o exemplo que o Plano Nacional da Ética no Desporto quis destacar quando, em 2015, introduziu o cartão branco para promover valores na prática desportiva. Em junho, a Federação Portuguesa de Futebol anunciou que iria adotar a medida nas suas competições, salvo na Taça de Portugal, onde a exposição seria maior - como na I e II Ligas, provas organizadas pela Liga de Clubes.

Há episódios de desportivismo em todas essas competições, ainda não há por lá o cartão branco que as assinale ainda mais para olhos mais novos as vejam com outro olhar. Gonçalo Teixeira diz que “o fair-play deve acontecer em todos os desportos, porque cria bom ambiente no jogo”, está em Lagos e tem razão. Fica a esperança de que coisas destas aconteçam sempre, seja cedo ou tarde ou nos descontos do jogo, esteja o resultado como estiver. Dar o exemplo não deve ser condicional.