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Jovane Cabral, o homem da estatística perfeita

Foi um clássico amarrado até Jovane Cabral o desamarrar com dois remates e dois golos, o suficiente para levar o Sporting à final da Taça da Liga. O FC Porto até marcou primeiro, mas a estatística cheia de 100% do jovem leonino valeu a reviravolta já nos descontos

Lídia Paralta Gomes

PAULO CUNHA/LUSA

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Os clássicos em Portugal são sempre muito parecidos: tudo muito tático, tudo muito encaixado, fareja-se o erro e talvez aí se arrisque um milímetro que seja, mas sem esticar porque não se pode deixar espaço lá atrás. Nas taças, talvez pelo factor “eliminação” andar a pairar no ar, normalmente as coisas melhoram e os recentes jogos entre os grandes nas sucessivas meias-finais da Taça da Liga até têm sido um bom exemplo, jogos emotivos, com golos tardios.

O Sporting - FC Porto desta terça-feira foi, digamos, uma mistura dos dois, um clássico metido na Bimby onde houve um bocadinho de tudo, do bom e do mau, ou melhor, do mau e do bom, porque durante boa parte do tempo tivemos um clássico de campeonato e só lá mais para o final finalmente apareceu um clássico de taça, com voltas, reviravoltas, desfechos surpreendentes e com um rapaz a entrar para bagunçar tudo. Uma bagunça perfeita, mas já lá vamos.

Antes, portanto, de Jovane Cabral entrar a 15 minutos do fim do jogo e mudar com quatro toques de bola toda a história desta meia-final, o clássico foi um jogo fechado, ainda mais com o FC Porto a entrar com um sistema de três centrais, pouco habitual, mas uma estratégia para fazer face às inúmeras ausências para o jogo. O encaixe era quase total entre os dois sistemas, com o FC Porto ainda assim a responder bem à novidade, com uma entrada de dente arreganhado, bem na pressão, a deixar o Sporting sufocado a cada tentativa de sair para o ataque.

PAULO CUNHA/LUSA

No entanto, criatividade não era coisa que se visse no descolorado relvado do Municipal de Leiria: a 1.ª parte foi essencialmente um jogo de procura da profundidade por parte das duas equipas, com resultados pouco eficazes, ainda que o FC Porto tenha sido mais perigoso, primeiro com uma ameaça de Zaidu aos 16’, seguida de um remate de Corona aos 20’, depois de Marega ganhar um lance numa bola longa a Feddal.

O Sporting ganharia algum ímpeto a partir da meia-hora, com Pedro Gonçalves, o mais hiperativo dos leões na 1.ª parte, a rematar por cima num ataque rápido. Logo depois, Diogo Costa seria decisivo a roubar a bola a Nuno Santos, desmarcado com classe por Tiago Tomás.

Mas a grande oportunidade da 1.ª parte seria mesmo do FC Porto, a aproveitar mais um erro dos centrais do Sporting, uma atrapalhação entre Adán e Coates após um remate de João Mário (o de azul e branco), com Marega a aproveitar para roubar a bola e rematar ao poste. Estávamos a cinco minutos do intervalo e, apesar do ferro ainda zunir, foi compreensivamente a zeros que se foi para o intervalo.

Na volta do correio, o jogo ficou mais desinteressante, faltoso, dado a erros e falhas, ainda assim com o FC Porto com mais iniciativa. O primeiro remate do Sporting na 2.ª parte surgiu apenas aos 68 minutos, por Nuno Santos, que momentos depois quase surpreendia o FC Porto, ao surgir completamente isolado em frente a Diogo Costa, depois de um desencontro dos dragões no ataque. Valeu a correria de Felipe Anderson, tantas vezes criticado pela falta de compromisso, a cortar o lance no momento certo, quando o avançado do Sporting já tinha via aberta para marcar.

PAULO CUNHA/LUSA

Um pico de emoção que contrastava com o que se ia passando em campo, com duas equipas sem soluções ardilosas para desfazer um nulo que ia assentando bem.

Foi talvez por culpa desta dormência que à entrada dos últimos 10 minutos do jogo Marega se viu com permissão para protagonizar um lance caricato, mas que deu golo. O maliano pegou na bola, foi por ali fora com seis jogadores do Sporting a fazer marcação por osmose e quando já estava fraco de pernas acertou na bola com um remate que, de tão imperfeito, se tornou, ele próprio, perfeito. Por entre a confusão de adversários que não quiseram arriscar a falta, a bola partiu sem força ou particular colocação e talvez por isso tenha enganado Adán, pregado ao chão.

Por esta altura, Jovane já andava em campo, mas ainda mal se dava por ele: o seu momento ainda estaria por chegar. Mas ele já lá andava à cata de uma estatística perfeita, magicando na cabeça maneiras de resolver sozinho a meia-final. Aos 86’, na ressaca de um livre, a bola chegou-lhe do lado esquerdo da área, o rapaz nascido em Cabo Verde fez uma super-sónica aritmética e com a força e colocação perfeita rematou rasteiro, ao cantinho da baliza do FC Porto.

Primeiro remate, primeiro golo.

E já bem dentro dos descontos, já fazíamos todos contas a quem iria marcar as grandes penalidades, um contra-ataque rápido viu Coates lançar Pedro Gonçalves e Pedro Gonçalves dar para Jovane, mais uma vez com a frieza e minúcia necessária para rematar fora do alcance de Diogo Costa, que quase nada precisou de fazer durante todo o jogo, até chegar àqueles 10 minutos finais.

Segundo remate, segundo golo.

A estatística de Jovane diz ainda que o avançado lançado do Rúben Amorim fez também um passe completo, dando-lhe assim 100% de eficácia neste quesito. E aposto que aquelas lágrimas do jovem do Sporting no final do jogo tinham a quantidade exata de cloreto de sódio, lisozima e lípidos diluídos na água. Eram lágrimas de alegria, não sei se são mais doces que as outras.