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Futebol nacional

Sem milhões, cem milhões, o triplo de três é nove e isso é arrasador

Os vários trocadilhos servem para contextualizar este dérbi entretido, mas mal jogado, e marcado pelo golo de Matheus Nunes que alterou a forma como toda a gente vai passar a olhar retrospetivamente para este Sporting - Benfica. Este pode ter sido o tipping point do campeonato

Pedro Candeias

Gualter Fatia

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Um dos filmes da história do cinema com os planos mais curtos é o popular Rocky IV. Sabem qual é, aquele simulacro de Guerra Fria em que o Rocky Balboa vai à Rússia enfrentar o Ivan Drago: o homem comum americano, que treina na neve e num estábulo sob o olhar da KGB, contra um pálido gigante adequadamente treinado por maquinaria sofisticada e doping de última geração sob o olhar aprovador da Ludmilla Vobet.

Houve alguém a fazer cálculos e concluiu que, em média, as shots do Rocky IV duram 2,2 segundos, o tempo de um suspiro, ou seja, tudo acontece muito depressa. A ideia não é pensar muito sobre o que se está a passar, na realidade, e o filme cumpre o seu propósito: entretém.

Se isto é boa ou má arte, não interessa para aqui. No Sporting - Benfica também não.

Como num filme de ação tipo Rocky, o dérbi de Lisboa foi na generalidade muito entretido, mexido, desenfreado, partido, coisas assim, e duvido que alguma das equipas tenha segurado a bola mais do que os tais 2,2 segundos. Não foi certamente bem jogado e pouco se refletiu sobre o que se devia ou não fazer, a não ser tentar desferir golpes, travar golpes e devolver mais golpes, em tentativas frustradas de transição.

Aliás, tenho praticamente a certeza de que os únicos momentos de pausa para pensar neste jogo aconteceram quando Artur Soares Dias usou a pedagogia para acalmar os nervos de futebolistas como Rafa, Neto, Cervi, Tiago Tomás, Gilberto, Otamendi, Pizzi; a ordem é aleatória; os nomes não são, e estes futebolistas foram aquecendo o dérbi com bocas, empurrões, encostos de cabeça que felizmente não passaram disso.

O dérbi terminou então sem expulsões, apesar das muitas faltas de parte a parte, mas o dérbi terminou sobretudo com um golo, apesar das poucas oportunidades criadas de parte a parte. Na hora do gongo, o Sporting de Rúben Amorim voltou a marcar um golo que é a marca de água desta equipa: concentração, organização, competitividade, segurança emocional e, óbvio, a estrelinha, desta vez, na cabeça de Matheus Nunes.

O SCP - que sofre poucos golos, raramente se descose ou se aflige com ansiedades - parece ter sempre claro dentro da cabeça que uma chance irá aparecer, restando-lhe esperar o momento para projetar o soco definitivo. Parafraseando Cohen, “there’s a crack in everything, that’s how the light get’s in”.

O jogo

O Benfica voltou a apresentar uma nuance estratégica para enfrentar um rival: três centrais, dois laterais subidos, dois médios, um extremo à esquerda, outro à direita, e um único ponta de lança. O Sporting foi o do costume, embora sem Palhinha, cuja penalização foi suspensa à tarde mas Rúben Amorim não quis contradizer-se e deixou-o no banco de suplentes. Em teoria, os dois modelos encaixar-se-iam, embora quem se adapta parta normalmente mais frágil para o jogo, simplesmente por uma questão de habituação a um novo modelo.

Ainda assim, o Benfica aguentou-se nos primeiros 45 minutos - na verdade, aguentar-se-ia também nos segundos 45’ -, ainda que tenha efetuado um único remate à baliza de Adan. O Sporting não fez muitos mais - foram três -, podendo afirmar-se sem contestação que o dérbi estava futebolisticamente indigente, com perdas de bola na sequência de faltas, erros de perceção, más escolhas e foras-de-jogo (vide, Darwin, o rei involuntário neste particular). Ao intervalo, os números diziam, basicamente, 50-50, e Rocky e Drago foram para descanso a pensar na vida.

Os primeiros cinco minutos da segunda-parte deram que pensar, porque se proporcionaram coisas vistosas, como o remate na passada de Darwin para a defesa de Adán, o tiro de Grimaldo contra Neto, o bloqueio de Weigl a Pote, e um ensaio de Cervi. Talvez o nível de jogo subisse uns valores… só que não.

O que sucedeu de diferente foi a atuação das leis da natureza, com os corpos a darem um bocadinho de si, a intensidade a baixar, abrindo algumas brechas no meio-campo que as defesas - nomeadamente, o brilhante Coates - foram tapando.

Rapidamente, o dérbi reentrou no corpo-a-corpo no centro do ringue, sem que nenhum dos oponentes fosse encostado às cordas ou fizesse prevalecer o seu domínio; bola cá, bola lá, bola nossa, bola deles, bola para aqui e para acolá, sem o proverbial fio de jogo imaginário que os guiasse para fora de um labirinto por eles criado. Por outro lado, as substituições também se revelariam pouco eficazes, com a ressalva devida para a participação de Jovane o golo de Matheus Nunes que alterou a forma como toda a gente vai passar a olhar retrospectivamente para este Sporting - Benfica.

Foram 2,2 segundos, por aí, e este poderá ser um tipping point.

Porque os de Alvalade voltaram a ganhar em casa ao Benfica para a Liga. Porque os de Alvalade deixaram o Benfica a nove pontos com um golo marcado aos 90+2’, recuperando uma maldição antiga de Jorge Jesus. E porque os da Luz ficam absurdamente atrasados da liderança da Liga, na época em que já falharam o acesso à Champions, perderam a Supertaça para o FC Porto e a meia-final da Taça da Liga para o Braga.

Sim, obviamente que os 100 milhões de euros investidos irão ser atirados à cara de Jorge Jesus, mas não será ele o derrotado único se o exuberante projeto e se as promessas de jogar o triplo falharem estrondosamente, como tudo indicia que venha a acontecer. A não ser que se encontre uma narrativa conveniente para salvar a pele. Não seria a primeira vez.