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Benfica: onze pontos para não acreditar em tudo o que lhe dizem

A crise do Benfica prossegue de ponto perdido em ponto perdido, com soluções previsíveis para os problemas de sempre. Apesar dos 22 remates, dos nove cantos a favor e da superioridade incontestável, os encarnados empataram a zero com o Vitória de Guimarães e ficaram a 11 pontos do líder Sporting. Se lhe dissessem que esta era uma equipa treinada por Jorge Jesus e com um investimento de 100 milhões de euros...

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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E de repente o Benfica começou por jogar à bola como há muito não se via, provavelmente desde aquele início de época prometedor que se seguiu à desastrosa viagem à Grécia. Se bem se lembram - e ainda que isto pareça que foi há uma eternidade, foi apenas há meses -, depois de perder com o PAOK na pré-eliminatória da Champions o Benfica somou sete vitórias consecutivas. Com cinco jogos para a Liga e dois para a Liga Europa triunfais, os encarnados concretizavam na prática o que se dizia então em teoria: com aquele investimento e com o regresso de Jesus, o Benfica era o favorito.

Só que depois veio o Boavista, o SLB perdeu por 3-0 e raramente se reencontrou com a sua melhor versão. Foi ganhando, OK, mas com exibições sofríveis, fiando-se exclusivamente na qualidade individual dos seus futebolistas o que, como se sabe, é meio caminho andado para lado nenhum. E por isso não tardou que o Benfica entrasse num beco técnico, tático e emocional com consequências drásticas no número de pontos perdidos: na noite em que se despedia da primeira volta da Liga, a equipa da Luz entrava a nove do inesperado líder Sporting.

Mas tudo isso podia estar a mudar contra o Vitória de Guimarães, um adversário moralizado por três vitórias seguidas, com um treinador que no ano passado, ao serviço do Santa Clara, provocara a crise encarnada e com dois atletas incomuns: Estupiñán e, acima deste, o némesis Ricardo Quaresma.

Não era fácil, mas em muitos momentos pelo menos assim pareceu.

Na primeira-parte, o Benfica repetiu continuadamente o seu modus operandi – Weigl a descer para central, laterais subidos como extremos, extremos metidos no meio como médios– obtendo resultados diferentes na chegada à baliza. Por vezes, Gilberto ou Grimaldo iam à linha e cruzavam, outras Everton inventava um lance com os seus dribles; e quando isto não funcionava, havia sempre uma ou outra bola parada a causar perigo real, sobretudo pelo belga Verthongen.

E não fosse a estranhíssima e incurável urticária de Seferovic na relação com o golo (sairia de campo com seis remates e nenhum golo) e o Benfica até teria ido para intervalo a ganhar, destacando-se a exibição bastante competente de Adel Taarabt – é provável que o facto de ter alinhado ao lado de Weigl e de Pizzi tenha contribuído para potenciar o talento inegável do marroquino a quem amiúde o botão da simplificação de processos emperra.

E se acham que isto é só conversa, aqui estão os números: posse de bola (64% contra 36%), remates (15 contra 1), cantos (5 contra zero).

Não havia espetacularidade nem nota artística e a estratégia podia ser previsível, mas a superioridade encarnada era incontestada - e há algum tempo que não se podia afirmar isto sem reservas.

Depois, na segunda-parte, podia acontecer uma de duas coisas: o Benfica marcava cedo e arrancava para uma exibição confortável, disfarçando dessa forma o cansaço da acumulação de minutos jogados; o Benfica não marcava e o Vitória de Guimarães aproveitava o espaço criado pelo mesmo cansaço alheio para ensaiar contra-ataques atrevidos.

Obviamente, aconteceu uma terceira coisa.

O tom do encontro não mudou substancialmente a seguir ao descanso, é verdade, mas o vermelho garrido foi empalidecendo com o passar dos minutos e também com as substituições efetuadas por Jorge Jesus em remoto.

Aos poucos, entraram Darwin, Gonçalo Ramos, Pedrinho, Chiquinho e Gabriel para os lugares Everton, Seferovic, Pizzi, Cervi e Weigl, o Benfica continuou a dominar as operações, mas com maior permissividade na reação à perda, abrindo uma outra nesga por onde o adversário tentou escapar sem muito sucesso – Odysseas acabaria o encontro com apenas uma defesa efectuada.

As chances, digamos, mais verosímeis saíram de Verthongen, Seferovic (mal, claro), um cabeceamento ao lado de Gonçalo Ramos, um remate de Adel defendido com dificuldade por Trmal, um disparo inútil de Darwin. E, acima de todas as outras, já para lá do minuto 90, um falhanço trágico para Pedrinho que levou a bola bem por cima da baliza vimaranense, quando os cruzamentos já eram escolha única no cardápio de opções estratégica para chegar ao golo.

Contabilizando, o Benfica rematou 22 vezes, cinco delas à baliza, criou quatro oportunidades e, sobretudo, não fez um golo de bola parada em nove cantos conquistados, sendo que os tais ‘esquemas táticos’ eram um dos momentos de glória deste staff.

Se me dissessem que esta era uma equipa treinada por Jorge Jesus, não acreditaria. Só que é. E está a onze pontos do Sporting e em quarto lugar. Não acredite em tudo o que lhe dizem.