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Futebol nacional

Benfica: haverá tempo para treinar o critério, a decisão e o golo?

A primeira vez que o Farense não sofreu golos num jogo do campeonato (0-0) foi contra este Benfica, que muito encostou o adversário à área, mas pouco prático e criterioso foi para criar e finalizar oportunidades de golo. O nulo deixa a equipa que Jorge Jesus lamentou não ter treinado durante os últimos dois meses a 15 pontos do Sporting

Diogo Pombo

LUIS FORRA/LUSA

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Cada vez mais de momentos é feito a absorção de futebol por quem não anda nele, a internet abateu sobre a bola o facilitismo dos resumos resumidos, dos highlights, dos compêndios só com oportunidades de golo e cá vamos andando, de fragmento em fragmento, o último bombardeado redes fora com o Benfica ao barulho teve a ver com Jorge Jesus.

Nem do jogo propriamente dito se tratou, porque ele, encasacado e de cara séria, estava no Olímpico de Roma, prestes a falar na flash-interview depois de lá se ter jogado. Para alguém fora do plano televisivo rebuscou um “take it easy” com sotaque muito seu, um inglês jesulado para mais um pedaço de viralidade desviar as atenções do essencial: o que joga o Benfica a cada três dias.

O destino seguinte na periodicidade que anda a mastigar a equipa - como qualquer outra com vida doméstica e europeia - era Faro, casa do Farense em renovação por Jorge Costa que escolheu compactar a equipa, juntar as linhas e manter a última a defender longe da sua área, tentando levar a partida para os duelos com muita pressão colocada em cada ação dos jogadores adversário.

Para o contornar, o Benfica puxou Gabriel para as redondezas dos centrais (os dois, não os três de quinta-feira porque Lucas Veríssimo ficou no banco de suplentes). O brasileiro, ora em saídas 2+1 ou alinhando-se à esquerda de Vertonghen, tentou ser rápido a distribuir passes tensos para receções de Taarabt ou Rafa pelo centro do campo, para variar a opção de fazer correr Nuno Tavares em que o central belga tanto insistia.

E o Benfica, ao qual o tempo desde Roma deixou apenas viajar, recuperar e analisar este Farense que só tinha quatro jogos para analisar o Farense com este treinador, durante 20 minutos só descobriu espaços até à entrada da área, onde Darwin (8’) e Everton (19’). Faltava critério e boas decisões nos últimos 30 metros para a equipa entrar no retângulo da baliza algarvia.

Durante esse tempo, a melhor oportunidade esteve no pé esquerdo de Pedro Henrique, cujo remate (14’) parou na palma da mão de Helton Leite, junto à relva, após o Farense transitar rápido a partir de um passe intercetado a meio-campo. O escocês Ryan Gauld, com canhota-esponja mais apta para jogos de posse, remataria duas vezes (19’ e 47’) aproveitando sobras dos ataques verticais que a equipa acionava com cada bola recuperada.

Mas, no último quarto de hora, o Benfica intensificou a forma como reagia a essas perdas e melhorou na contra-pressão para provocar vários erros nos jogadores do Farense. E melhorou, sobretudo, na eficácia dos toques de Everton e Rafa para criarem associações de passe na frente. Darwin já finalizaria dentro da área um par delas (25’ e 27’), sem acertar na baliza.

Na do outro lado, o VAR anulou por fora-de-jogo uma bola chegou a entrar, batida por Licá, após um passe nas costas de um Nuno Tavares a exemplificar (apoios e postura virados para a frente quando tem ao lado um adversário a atacar-lhes a costas) a passividade do Benfica em tirar o à-vontade que Jonathan Lucca teve, à entrada do meio-campo, para olhar e pensar onde ia colocar o passe longo.

LUIS FORRA/LUSA

A segunda parte acentuaria a catadupa de bolas perdidas e erros individuais do Farense na sua metade do campo, os seus jogadores apertados pela pressão e pelo ritmo que o Benfica impunha, em crescendo. Cada posse da equipa de Jorge Jesus chegava à área.

Gabriel sempre conseguia receber, rodar e, não as cortando, pelo menos olhar sempre para a esquerda, à procura de corridas de Nuno Tavares em ataque às costas do lateral adversário; Rafa ultrapassava as primeiras tentativas de lhe bloquear caminho e provocava ajustes constantes na última linha do Farense; quando substituiu o complicativo Gilberto, em Diogo Gonçalves o Benfica ganhou alguém prático a dar largura à direita.

Houve tiques, por momentos, mas não chegou a ser o massacre. Porque toques e receções e trocas de passes o Benfica teve a rondar a área, a espremer o Farense encafuado a defender a sua baliza. Só que, de flagrante, só Rafa a tentar picar a bola sobre o corpo de Defendi (61’) e Pizzi, no resvés da área, a rematar contra o poste (70’). Faltou definição e um pouco de sorte: a primeira na finalização e a segunda em tudo, porque nenhuma equipa, em lado algum, ganha sem ela.

Em quase uma dezena de outras jogadas faltou, em todas, critério, que mais não é do que escolher a ação mais simples a tomar para resolver o problema e executá-la da forma mais prática. O Benfica acercou-se da área, uma e outra vez faltou mais critério para que a melhor decisão fosse tomada e alguém conseguisse finalizar a jogada. A equipa não sabia onde ir buscar golos.

E o Benfica forçou, foi forçando e mais força fez, muito tempo esteve com ambos os laterais projetados com trela solta e a equipa a sustentar-se em Otamendi e Vertonghen quando os médios já eram Pizzi e Taarabt, os menos portageiros que poderia haver na transição defensiva. Das poucas vezes que acertou no primeiro passe, o Farense teve faixas livres para avançar e Ryan Gauld, outra vez, ameaçou por duas vezes.

No final, lá estava o escocês no seu português imaculado, a congratular o Farense por “não sofrer golos pela primeira vez” esta época. Segundos antes, o barbudo Rafa lá estivera a dizer o que pôde e o que lhe saiu foi que o Benfica tem de “caprichar mais nessa parte”. A de marcar golos.

No final, lá estava o escocês no seu português imaculado, a congratular o Farense por “não sofrer golos pela primeira vez” esta época. Segundos antes, o barbudo Rafa lá estivera a dizer o que pôde e o que lhe saiu foi que o Benfica tem de “caprichar mais nessa parte”. A de criar oportunidades de caras para marcar golos, e marcá-los.

Este 0-0 alarga para 15 os pontos com que o Benfica fica a menos do que o Sporting, ao fim de dois meses de sobrevivência a casos de covid, aos confinamentos e às lesões em que Jorge Jesus imputou a impossibilidade de treinar a equipa como deve ser. Para, talvez, trabalhar coisas como o critério e a definição que não se treinam com varinha mágica, mas com tempo. O que o Benfica pouco tem.