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Um Clássico aos gritos

Numa semana em que muito se discutiu gritos e faltas e a pouca intensidade do futebol português, o FC Porto - Sporting foi um Clássico à imagem dos jogos grandes em Portugal nos últimos anos: nervoso, com duas equipas mais preocupadas a anular-se do que a arriscar. Houve um pouco mais de FC Porto na contabilidade das oportunidades, mas o jogo sempre teve cara de 0-0 e 0-0 ficou. Quem sai a sorrir? O Sporting, que mantém os 10 pontos de vantagem para os dragões

Lídia Paralta Gomes

Quality Sport Images/Getty

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Vi muito boa gente a bater com o punho no peito com as palavras de André Horta no final do jogo do Sp. Braga em Roma. Que o nosso futebol é feito de gritos e paragens e gente que não quer jogar e depois as equipas grandes vão lá fora e não aguentam um jogo em que o apito não está sempre na boca do árbitro, em que as equipas correm muito e querem ganhar.

Se calhar André Horta tem razão, mas vale a pena dizer isto lá fora, um bocadinho naquela onda do emigrante que chega cá e diz que na França é que é tudo bom, quando cá dentro temos jogos entre grandes em que ninguém parece querer verdadeiramente ganhar? Quando um Paços de Ferreira ou até um Santa Clara encaram Sporting, FC Porto, Benfica e Sp. Braga com mais vontade de marcar do que quando estes quatro jogam entre si? E os outros? Os outros fazem como podem, com orçamentos residuais neste futebol onde só daqui a quase 10 anos vamos ter direitos centralizados.

Pela 1.ª parte do FC Porto - Sporting, diria que quem tem telhados de vidro talvez deva não atirar grande pedras. Os jogos grandes em Portugal há muito que não servem para jogar, mais sim para evitar que o adversário jogue, com honrosas exceções nos jogos de taça, porque são a eliminar e arrisca-se sempre um bocadinho mais. Mas de resto o que se viu nos primeiros 45 minutos do jogo foram duas equipas mais preocupadas em não errar, a tentar cheirar o erro do adversário. A saltar do banco a qualquer falta, a reclamar. E pelo meio com o FC Porto bem a evitar as saídas rápidas na profundidade do Sporting e o Sporting, quando viu que não iria ganhar bolas longas, a focar-se em equilibrar-se na defesa e no meio-campo, sacrificando a fantasia de Pedro Gonçalves, com muito pouca bola ao logo do jogo.

O Sporting, diga-se, podia jogar na estratégia, porque tinha 10 pontos de vantagem na tabela e não perder seria desde logo um bom resultado. Cabia ao FC Porto arriscar mais, mas só na 2.ª parte, quando o jogo ficou mais partido, houve alguns lances de perigo na baliza de Adán, com Taremi a escolher um mau timing para ter um dia mau.

MIGUEL RIOPA/Getty

Foram do iraniano as duas grandes oportunidades do FC Porto, a primeira aos 57’, a falhar completamente o remate no coração da área, depois de um cruzamento de Corona. E depois aos 76’, agora a rematar por cima após uma grande jogada de Manafá, a tirar o seu marcador direto do caminho antes de cruzar.

Pelo meio, o Sporting, e como tem sido habitual nos jogos com os grandes, beneficiou muito da entrada de Matheus Nunes, bem na hora de segurar a bola num jogo em que o leões tiveram muitas dificuldades em encadear passes seguidos e raramente conseguiram sair da pressão do FC Porto, provando um pouco do seu próprio veneno. Foi alias de Matheus a única grande chance do Sporting, ao 73’, uma cavalgada desvairada pelo lado direito do ataque, lançado por Adán. Zaidu e Otávio não conseguiram acompanhar o ritmo do jovem brasileiro, muito mais fresco que eles, só que o 8 do Sporting em frente a Marchesín rematou por cima.

As substituições, não só a entrada de Matheus como de Tabata e mais um jogo seguro de Palhinha e de quase toda a defesa, permitiram ao Sporting ter ligeiramente mais bola nesta fase, não dando azo a situações de grande perigo ao FC Porto nos últimos 15 minutos, ainda que o jogo continuasse, à semelhança de toda a 1.ª parte, faltoso e nervosinho.

Posto isto: o Sporting usou as armas que tem para sair do Dragão com um bom resultado e o FC Porto, nas poucas vezes em que conseguiu definir na área e ludibriar a defesa dos leões, não foi eficaz. É um daqueles jogos que teve logo cara de 0-0 e 0-0 ficou. Com isto o Sporting tem passadeira verde até ao título. E o FC Porto terá de esperar por erros de uma equipa que, se há coisa que pouco tem feito este ano, é errar.