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Se temos os melhores jogadores e treinadores, porque não os melhores cientistas? Este é o novo observatório que quer estudar o futebol

No Dia Internacional da Mulher, um estudo aprofundado sobre a evolução do futebol feminino em Portugal é o primeiro tema analisado pelo novo Portugal Football Observatory, iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol que pretende produzir regularmente conhecimento científico sobre futebol

Mariana Cabral

Jose Carlos Carvalho

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"Somos um país pequeno, há poucos atletas federados, a prática de desporto em Portugal é baixa, comparada com a maior parte dos países europeus, e mesmo assim temos um futebol incrível, com jogadores e jogadoras, treinadores e treinadoras, excelentes."

E, agora, vamos ter cientistas?

Mafalda Urbano ri-se. "É uma aproximação da ciência ao futebol, mas não sei se somos os melhores cientistas, não usaria essa expressão. Queremos é trazer conhecimento para cima da mesa. Se calhar não há muitas federações a trabalhar nesta área e achámos que, tendo em conta o nosso histórico, havia esta oportunidade", conta à Tribuna Expresso.

A diretora geral adjunta da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) lidera o novíssimo Portugal Football Observatory, lançado esta segunda-feira, Dia Internacional da Mulher, precisamente com um estudo aprofundado sobre a evolução do futebol feminino em Portugal. E a utilidade de um observatório nota-se, a páginas tantas das 23 folhas interativas do primeiro projeto, intitulado "como angariar e reter mais no futebol feminino?", com dois dados concretos, que só são verdadeiramente compreendidos em conjunto.

Mafalda Urbano é diretora geral adjunta da Federação Portuguesa de Futebol

Mafalda Urbano é diretora geral adjunta da Federação Portuguesa de Futebol

Primeiro, ficamos a saber que 54% dos pais/mães motivam as suas filhas a jogar futebol. O número, em teoria, parece positivo, até pelo preconceito social que sabemos que perpetua a ideia desta ser uma modalidade exclusivamente masculina, mas ganha novos contornos quando olhamos para o dado imediatamente seguinte. É que 92% dos pais/mães inquiridos admitem motivar os seus filhos para jogar futebol, um número que contrasta claramente com o anterior e coloca-o então em perspetiva, contextualizando-o.

É esse, afinal, o objetivo do novo observatório da FPF: mais do que debitar dados ou números, procurar entendê-los. "Acreditamos que trazer mais conhecimento para o futebol pode melhorar o desporto. Podemos ser influenciadores da discussão, não de uma forma dogmática, mas trazer temas trabalhados de uma maneira mais profunda e com base em dados, que podem ser discutidos de uma maneira diferente", explica Mafalda Urbano, que está há três anos na FPF.

O estudo comprova claramente o potencial de crescimento do futebol feminino em Portugal - o número de praticantes mais do que duplicou na última década e o escalão sub-15 até regista uma impressionante taxa de crescimento de 334% - mas também clarifica o longo caminho que há a percorrer em termos de igualdade de género na oferta desportiva - apenas 16% dos clubes com futebol em Portugal têm atletas femininas.

"O feminino é uma área em que a Federação tem investido muito, é um projeto em que acreditamos muito, e este estudo claramente tem uma mensagem final para os clubes", aponta a diretora geral adjunta da FPF, acrescentando que o grupo de trabalho do observatório - que mescla a Portugal Football School (a "escola" da FPF), a Unidade de Saúde e Performance e a Direção de Inteligência e Serviço ao Adepto; assim como a recente adição de alunos de mestrado ou doutoramento - entrevistou mais de 1500 pessoas, num estudo que demorou três meses a compor.

"Esta densidade é a que acreditamos que é a necessária para trabalhar um tema a fundo. Mas, por ser dirigido a um público muito heterogéneo, vamos sempre acompanhar o estudo com um pequeno resumo em vídeo com as principais conclusões e teremos também podcasts com entrevistas, um webinar e uma newsletter", afirma, adiantando também que todos os meses haverá um novo estudo a ser publicado: o próximo será sobre futsal e já está também a ser preparado outro sobre a Liga Revelação.

"Escolhemos cinco temas grandes que serviram de chapéus para os vários projetos que o observatório vai desenvolver: jogadores e treinadores, arbitragem, saúde e performance, futebol de formação e competições. Há outro estudo que vamos apresentar daqui uns meses, relacionado com a idade relativa. O que o nosso estudo pergunta é: será que essa forma de fazer os escalões, de janeiro a dezembro, é a melhor maneira de organizar os atletas para garantir que todos têm oportunidades? Será que andamos a perder estrelas nascidas em setembro ou novembro? Acreditamos que isso pode criar uma discussão, não só aqui em Portugal, podemos ir à UEFA mostrar o estudo", adianta, e é também por isso que as análises do observatório também estarão disponíveis em inglês.

"O mais importante é isto ser relevante para as pessoas. Quer para a comunidade do futebol, os clubes, os dirigentes, os atletas, quer para os adeptos e a outras pessoas que se calhar nunca tinham pensado no futebol dessa maneira. O nosso grande objetivo é trazer conhecimento para assuntos que são vistos com menos profundidade", explica Mafalda Urbano, elogiando os vários projetos paralelos da FPF, como a Portugal Football School, a "pioneira" Unidade de Saúde e Performance e a Direção de Inteligência e Serviço ao Adepto.

"Costumamos dizer internamente que somos mais do que uma Federação. Se calhar estes projetos todos são um reflexo disso, de pensarmos como podemos ser relevantes na sociedade. Diria que a Federação tem como grande objetivo pôr mais rapazes e mais raparigas a jogar futebol. A questão é pensar em contribuir com maneiras diferentes para que isso aconteça." Como, por exemplo, com um observatório.