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O improvável bilhete olímpico de Matthew Nogueira começou em Toronto, carregando baldes de massa às costas com um sonho: ser como Ricardo

O guarda-redes da equipa B do Marítimo vai disputar o primeiro jogo da qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, pelo Canadá, um dia depois de completar 23 anos. Filho de portugueses, Matthew Nogueira foi descoberto pelo ex-guardião Nuno Santos, em Toronto, e dois anos depois estava nas camadas jovens do Benfica a aprender as bases que lhe alimentaram o sonho de um dia jogar na liga inglesa e defender as redes da seleção principal do país natal, no mundial de 2026

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Um dia depois de completar 23 anos, Matthew Nogueira vai estrear-se contra El Salvador (19 de março) naquele que será o primeiro jogo de qualificação da seleção olímpica do Canadá para os JO de Tóquio. Seguem-se os confrontos com Haiti e Honduras. Filho de portugueses, que se conheceram em Toronto, o guarda-redes da equipa B do Marítimo confessa que chegou a pensar representar a seleção portuguesa, mas que “nada é melhor do que representar o país onde nasceste”.

Aos seis anos, quando viu Ricardo defender um penálti sem luvas e marcar golo logo a seguir, no Euro2004, Matthew descobriu o que era um ídolo e viu o sonho de ser jogador profissional de futebol, isto é, guarda-redes, ganhar asas na sua imaginação.

Convenceu os pais e foi jogar para o Sporting Clube de Toronto, mas teve de esperar outra meia dúzia de anos até a primeira porta ser aberta. “O Nuno Santos, que foi guarda-redes do Benfica, foi a Toronto fazer um campus e eu fui lá. No final do treino ele foi diretamente falar com a minha mãe. Disse que eu era um diamante por lapidar e que bem treinado podiam surgir oportunidades na Europa”. O sonho estava em marcha.

Depois de dois anos a treinar com Nuno Santos, no Canadá, abre-se a segunda porta. “O Nuno tinha conhecimentos no Benfica e fui lá à experiência. Mas também fui ao Sporting”. Os rivais da 2ª circular gostaram do que viram, mas ditaram-lhe caminhos distintos. Enquanto na Luz ficavam com ele na formação, em Alvalade a ideia era emprestá-lo. “Preferi ficar numa estrutura profissional. Devo toda a minha base ao Benfica e ao treinador Ricardo Pereira com quem aprendi muito dos 14 aos 16 anos. E devo muito à minha mãe que ficou dois anos em Portugal comigo, com a ajuda dos meus avós maternos”, conta Matthew.

D.R.

O futuro parecia bem lançado, não fosse a imaturidade da juventude pregar das suas. Em mais uma ida de férias a Toronto, o jovem guarda-redes descobre, com 16 anos, que vai ser pai de uma namorada, canadiana, de quem entretanto já está separado.

Com o nascimento da Alexandra, a vida do jovem guarda-redes e estudante deu lugar ao trabalho nas obras de construção, seguindo as pisadas do pai. Foram precisos dois anos, muitas noites mal dormidas e inúmeros baldes de massa às costas para Matthew voltar a dar ouvidos à voz interior e à dos colegas e treinadores do Toronto FC, onde passou a treinar, que lhe apontavam um futuro promissor como guarda-redes.

“Eu queria mais para a minha vida do que trabalhar nas obras e o meu sonho era mesmo ser jogador de futebol, por isso resolvi fazer o sacrifício de estar longe da minha filha”. Através de um empresário chegou sozinho a Barcelos, com 18 anos, para jogar nos juniores do Gil Vicente. “Foi difícil no início, mas lembrava-me da vida que tinha nas obras e isso deu-me força”.

O Gil Vicente não quis ficar com ele nos seniores e o mesmo empresário, com quem já não tem contacto, abriu-lhe mais uma porta, a do Fornos de Algodres. Sem jogar e enfiado numa vila demasiado pequena para a dimensão de quem estava habituado a uma cidade como Toronto, Matthew cerrou os dentes, continuou a trabalhar e uma semana depois de ter jogado contra o Recreio de Águeda, este foi buscá-lo. O cenário não mudou. “No início também não jogava, mas continuei a trabalhar porque sabia que a minha oportunidade ia surgir”. Surgiu contra o Marítimo, em que jogou com um dedo deslocado.

Há duas épocas e meia na equipa B do Marítimo, foi Petit quem lhe abriu mais uma porta, a da equipa sénior, pouco tempo depois de Matthew aterrar pela primeira vez na Madeira. “Devo muito a ele porque acreditou em mim, num jogo da Taça da Liga, contra o Estoril Praia”. Mas Petit saiu e Matthew também voltou à equipa B.

Operado ao menisco em setembro do ano passado, o luso-canadiano ainda não conseguiu abrir mais nenhuma porta em Portugal, mas no Canadá o seu caminho não foi despercebido e há uma semana recebeu a confirmação da presença na convocatória para a qualificação olímpica. As saudades da filha continuam a ser uma ferida aberta, mas a vontade de lhe dar uma vida boa e o sonho de menino de um dia jogar “no melhor campeonato do mundo, a liga inglesa”, parecem continuar a querer fazê-lo abrir portas.