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António Salvador quer regressar ao Estádio 1.º de Maio. Abandono da Pedreira gera tensão entre Câmara e Sporting de Braga

O presidente do Sporting de Braga volta a apresentar-se, esta sexta-feira, a mais quatro anos de mandato. Na manga tem um projeto de requalificação majestática do velhinho 1.º Maio, obra que custará €70 milhões aos cofres do clube. Ricardo Rio dá nega por considerar que não salvaguarda traça do estádio, património municipal e Monumento de Interesse Público

Isabel Paulo

D.R.

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No dia em que vai anunciar aos sócios nova candidatura à presidência do Sporting de Braga, António Salvador leva na manga um projeto para requalificar de raiz o histórico 1.º de Maio, estádio em avançado estado de degradação e onde os minhotos jogaram até 2004. A desejada mudança de casa está longe de ser pacífica, não só porque a Câmara de Braga alega que o projeto apresentado à autarquia, em dezembro último, desvirtua a traça original do estádio inaugurado em 1950, mas também pela perplexidade que a deserção da Pedreira pode causar.

Em causa está o abandono de um dos estádios mais caros do Euro 2004, que custou ao erário municipal mais de €150 milhões e é desde sempre considerado a obra do regime socialista do ex-dinossauro autárquico Mesquita Machado. Gizado pela mão do arquiteto Eduardo Souto de Moura, Prémio Pritzker 2011, o estádio carrega a originalidade de só ter bancadas laterais, inovação que faz do recinto uma meca de estudantes de arquitetura, mas nunca convenceu os adeptos.

Com uma lotação de 30 mil lugares, as bancadas íngremes e de difícil acesso são um dos motivos de descontentamento, a somar à queixa que, sem bancadas de topo, perde-se o clamor da assistência no apoio à equipa. “Não é um coliseu. É pouco amigável para os adeptos e jogadores”, refere ao Expresso fonte próxima do clube, defensora da mudança.

Octavio Passos

Apesar de não fechar as portas a uma possível colaboração com o clube local, Ricardo Rio alertou, esta sexta-feira, à Rádio Universidade do Minho, que essa eventualidade dependerá da “salvaguarda patrimonial do próprio Estádio”, propriedade da autarquia e edifício classificado Monumento de Interesse Público.

O novo 1.º de Maio

Na proposta enviada à Câmara de Braga, em dezembro de 2020, António Salvador comprometia-se a financiar a totalidade da reabilitação do recinto e área envolvente, desde que o município cedesse o espaço e os terrenos em redor por um prazo de 80 anos. No projeto de renovação, a que o Expresso teve acesso, a direção do Sporting de Braga compromete-se a preservar a fachada e a emblemática Porta da Maratona, datada do Estado Novo, enquanto o interior do edificado seria todo modificado para acolher todas as valências de um estádio moderno.

A lotação idealizada é de 20 mil lugares e de espaço 'Close to the Action', ou seja, com bancadas anfiteatro, integralmente cobertas e com vários tipos de tipologias: famílias, empresas e adeptos de equipas visitantes, além de camarote presidencial e lounge VIP com 100 lugares e áreas de apoio. Acessibilidades para espetadores de mobilidade reduzida, estacionamento para 800 carros e acesso distinto para autocarros de jogadores à zona de balneários são outras das valências previstas.

A requalificação do ABC faz também parte do pacote de ampliação e reabilitação, enquanto o atual campo de treinos daria lugar a um edifício multiusos que albergará estacionamento público, piscina, 'food court', escritórios e um hotel. Se o projeto vier a acontecer, o clube pretende criar ainda um espaço exterior destinado a lazer e atividades de ar livre no Parque da Ponte, um modelo de negócio que o presidente da Câmara de Braga defende irá criar uma zona de centralidade na cidade.

Ainda longe de ter luz verde por parte do executivo municipal, o presidente da Câmara de Braga concorda ser imperioso requalificar o velhinho 1.º de Maio, referindo que a autarquia e a Universidade do Minho estão a finalizar um levantamento das patologias da infraestrutura, antes de avançar para a reabilitação.

Segundo o autarca do PSD, a proposta de António Salvador, mais do que reabilitar, passa por criar uma nova infraestrutura que não respeita o património do próprio estádio, razão pela qual não houve adesão do executivo municipal. E Ricardo Rio, que desde os tempos de vereador da oposição sempre defendeu a requalificação do antigo estádio bracarense em detrimento da construção do novo, não esconde que a troca de estádio vem corroborar a conclusão de muitos bracarenses: “A de que o novo Estádio Municipal foi um desbaratar de recursos públicos, que nem sequer serve ao SC Braga”.