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Providenciar contra o espetáculo e acautelar um título de campeão

Muitas faltas, paragens e intervenções do VAR depois, Benfica e FC Porto acabaram empatados (1-1) em mais um jogo entre grandes como é clássico haver em Portugal: a providenciar em cautela e não tanto em espetáculo. E, agora, o rival de ambos já só precisa de dois pontos em três jornadas para ser campeão nacional

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Tivesse o futebol as redondezas do juridiquês e pescaríamos ainda menos das suas mundividências, lá se via a bola e chutar-se-ia antes em quadrados, hexágonos ou um polígono generoso em lados, porque não é de leviandade que se fala, nem de um receio qualquer, é de um “sério receio de que alguém lhe venha a causar uma lesão grave e dificilmente reparável ao seu direito”, no caso é o de Sérgio, poderia ser o de Rúben ou quiçá o de João.

Perdoem o abuso, é só mais uma linha ou outra de paciência, mas a definição de providência cautelar da Fundação Francisco Manuel dos Santos importa, por estes dias, cá no futebol do burgo, pois o que é hoje punição amanhã é ordem de soltura e as consequências dos atos ficam para quando der mais jeito, o FC Porto tem o treinador presente na Luz para um jogo a que se chama clássico por direito, não propriamente pela meritocracia de espetáculo.

Aos 14 segundos já Weigl derrubava Díaz, antes dos dois minutos era o alemão a ser parado e o terceiro minuto ainda nem se cumprira quando Zaidu se atirou aos pés de Rafa, faltas e mais faltas, ao intervalo havia 19 e muito haveria para teclar sobre a clássica costela faltosa destes jogos que se tapa com o chapéu da garra, intensidade, vontade e querer onde, muitas vezes, falta sombra onde a bola possa rolar.

Ela vai pouco, muito pouco, ao meio de cada metade do campo na Luz e sobretudo na defendida pelo FC Porto, que cerra os espaços entre linhas e tapa o corredor central. O Benfica faz a primeira parte sem encontrar uma receção de Seferovic, de costas voltadas à baliza, para servir de apoio às deambulações de Rafa ou Everton à beira-área, Pizzi só tem bola de frente para o jogo quando se aproxima dos alas e nem Weigl, no início das coisas, tem segundos para ordenar os passes da equipa.

O FC Porto pressiona em cima cada saída da área ou lançamento lateral feito lá perto, aí o bloco é alto, apenas o baixa para a linha do meio-campo das vezes que o Benfica recicla uma posse de bola e a devolve aos três defesas. São raras, serem os centrais e os alas quem mais toques somam em 45 minutos explica-se pelas amarras que os condicionam e, coletivamente, a equipa de Jorge Jesus nada resolve.

O desequilíbrio surgiu com Everton, dançarino de pés soltos para se livrar de Uribe e Mbemba num cubículo, tabelar com Seferovic e, perante o socorro de Pepe, rematar-lhe a bola por entre as pernas e 1-0 é o resultado a partir dos 23’. Mas, antes e depois, é o FC Porto a forçar com a sua habitualidade - consegue, em três tentativas, lançar Marega no espaço entre central e ala/lateral, por onde há épocas é arremessado para a profundidade. Grimaldo e Vertonghen, contudo, são surpreendidos.

Os cinco remates do FC Porto não acertam no retângulo com redes e dois cruzamentos se veem em que o triz lhe escapou na área - Taremi, nas costas de Veríssimo, desvia uma bola na direção oposta à baliza e, depois, Helton Leite antecipou-se nas últimas a Marega - enquanto o Benfica, nas raras descobertas de espaços, apenas os avista em transições rápidas, sempre na ressaca de cantos ou bolas paradas do adversário. É um clássico de muitos clássicos passados, com a pitada de modernidade do VAR anular um penálti (de Manafá sobre Rafa) por fora-de-jogo.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

A pressa acresceu para o FC Porto na segunda parte e os primórdios da retoma do jogo mostraram-no, Otávio e Luis Díaz já muito mais projetados para forçarem duelos com os alas e a equipa, com os minutos, a esburacar a sua capacidade para reagir às bolas perdidas. E o Benfica foi ligando mais contra-ataques, mais transições para lançar Rafa e Everton na pradaria onde, embalados, mais rendem para decidirem jogadas sozinhos.

Essa tendência nem 15 minutos duraria, mas tempo houve para o VAR, de novo, rever um pretenso penálti (de Zaidu sobre Diogo Gonçalves). Feita a hora de jogo e tudo se encruzilhou como na primeira parte, as faltas, as paragens, os ressaltos e nem cinco passes a serem ligados por alguém no meio-campo contrário. O Benfica dependia dos improvisos de Everton, o FC Porto deixou de se ligar às diagonais típicas de Marega e o maliano até sairia de campo quando a equipa já só ameaçava quando a bola parava para alguém a curvar área dentro.

E de um livre de Sérgio Oliveira com ricochete na barreira seguiu-se para o canto cortado da área, cuja ressaca foi até à direita e a João Mário, o novato desaparecido dos campos da equipa principal desde 13 de fevereiro, que se livrou da precipitação de Taarabt, voltou a cruzar a bola e o jeito no pé direito de Uribe empatou (75’) as coisas, que só no crepúsculo deixaram de ser tão clássicas.

Ao quarto de hora de encolhimento do Benfica - desmanchado, apenas, para crateras de espaço em que a transição rápida fosse garantida - e da insistência sem maneiras do FC Porto - incapaz de chegar à área contrária por outras vias que não massacrar a linha defensiva com movimentos de rutura e bolas no espaço - sucederam-se uns minutos de desconto, condignamente assim chamados para descontar algo na fatura de mais um clássico sensaborão.

Aí, houve a vertigem de um contra-ataque terminado com uma bola na barra, rematada por Taarabt e desviado por Marchesín; viu-se um remate de Luis Díaz da entrada da área; e outra transição rápida fez Darwin (perigoso acabar, com correrias nas costas do lateral João Mário) atrasar um passe para Diogo Gonçalves o remeter para Pizzi, à direita, disparar de primeira o que parecia ser o 2-1. O rejúbilo dos da casa foi adormecido por outro fora-de-jogo visto pelo VAR.

Já era tarde, o 1-1 ficou, o penúltimo clássico da época a terminar como tantíssimos outros e a contribuir, talvez, para que o derradeiro dos jogos há muito habituais em Portugal seja irrelevante, na prática - quando o Sporting entrar no Estádio da Luz, a uma jornada do fim, já poderá ser campeão nacional como não o é há 19 anos. Porque este empate requer ao rival de Benfica e FC Porto apenas dois pontos em nove possíveis para garantir o título.

Tudo numa época de tribunais e juridiquices e recursos a serem jogadores num jogo que, em Portugal, providencia cada vez mais pitadas de extrafutebol, quando toda a gente ficaria a ganhar se o destinatário dos acautelamentos fosse, de facto, o futebol.