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Futebol nacional

O futebol sem lei às vezes é o melhor futebol

Num jogo todo balançado para o ataque, sem grandes amarras ou regras - e por isso provavelmente o mais animado do ano - o Benfica bateu o Sporting por 4-3, terminando assim com a invencibilidade dos leões, que entraram em campo já a pensar no próximo ano

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Setenta e duas horas após a terça-feira mais longa da história do Sporting, Rúben Amorim apareceu aparentemente fresco para fazer a antevisão ao encontro com o Benfica e nem foi propriamente críptico. Sem o dizer taxativamente, ficou implícito que o Sporting iria à Luz com dois objetivos e que o principal não seria manter a invencibilidade.

A invencibilidade é um recorde engraçado, que fica bem a uma equipa. Ainda hoje falamos daquele Arsenal de 2003/04 como os The Invincibles, mas sabem quantos títulos na Premier League ganharam os gunners depois disso? Pois.

É possível que Rúben Amorim tenha pensado nisso na preparação para o dérbi. Na conferência disse avisou que por muito que gostasse de terminar o ano sem derrotas, mais importante era trabalhar desde já para a próxima temporada, aumentar a competitividade da equipa e isso já adivinhava um onze com surpresas.

E daí a titularidade de Matheus Nunes e Daniel Bragança nos lugares de Palhinha e João Mário, com Amorim provavelmente à procura de soluções para os seus médios titulares, já a pensar num 2021/22 em que o Sporting terá uma carga competitiva bem superior à de este ano.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Fazer uma alteração desta monta frente a um Benfica em subida de forma teria sempre os seus riscos e não resultou: depois de um início equilibrado, o Benfica aproveitou a menor agressividade e estabilidade leonina a meio-campo para ganhar o terreno e partir com alguma facilidade para o ataque apoiado, com alguns pormenores técnicos de abrir o olho pelo meio.

Os golos não demoraram: Seferovic marcou aos 12’, a picar a bola por cima de Adán depois de isolado por Pizzi; à meia-hora uma bela jogada de combinação entre Cebolinha e Pizzi no corredor central acabou com golo do português e o terceiro chegaria sete minutos depois, por Lucas Veríssimo, após um canto.

Com bola, os problemas do Sporting baixavam consideravelmente e mesmo a sofrer em 45 minutos mais golos do que em qualquer jogo da liga esta temporada, os leões iam conseguindo chegar com processos simples à área do Benfica - foi no momento em que teve mais posse contínua, no final da 1.ª parte, que surgiu o golo de Pedro Gonçalves, com um bom remate à entrada da área.

Ao intervalo, Amorim deixou-se de experimentações e Palhinha e João Mário saltaram lá para dentro, mantendo Matheus Reis, outra das novidades no onze e uma fonte de problemas para a defesa do Sporting na 1.ª parte. Entrou aqui o objetivo invencibilidade e, sem as amarras táticas do encontro da 1.ª volta, apesar da vantagem do Benfica de 3-1, o dérbi estava aberto.

De tal forma que na 2.ª parte o encontro tornou-se numa espécie de jogo sem lei, com ambas as equipas à procura da baliza: o Sporting para evitar a primeira derrota na liga e o Benfica para dar a Seferovic a vantagem na lista de melhores marcadores.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

O suíço marcaria logo no arranque, através de grande penalidade, com o Sporting a responder com mais bola e balançado para o ataque. Picado com a luta entre os goleadores, Pedro Gonçalves respondeu com uma bola ao poste e aos 62’ Nuno Santos reduziu com um belo remate na área a passe de Paulinho, isto enquanto o Benfica ia desperdiçando alguns lances de perigo por procurar em demasia Seferovic.

Por esta altura, com 4-2 no resultado, um ritmo alto de parte a parte e alguma anarquia instalada, era impossível apostar como iria acabar o jogo - e isso, diga-se, se calhar não agradou aos treinadores, mas tornou este dérbi no jogo mais divertido de se ver neste ano.

A incerteza aumentou quando aos 77’ Pedro Gonçalves fez o 4-3, numa grande penalidade, no melhor período do Sporting, com o transmontano quase a fazer o hat trick dois minutos depois, num grande remate bem defendido por Helton Leite.

Nos últimos 10 minutos o jogo partiu, ficou menos interessante, com o Benfica a conseguir sacudir alguma da pressão dos leões, mas sem criar perigo até aos descontos, quando Adán defendeu com os pés um golo certo de Pizzi - até na defesas o jogo teve espectáculo.

Posto isto, com esta vitória o Benfica ainda pode sonhar, talvez apenas por umas horas e o Sporting perde a invencibilidade, apesar da boa 2.ª parte, a jogar com os melhores e por isso mesmo a elevar-se no jogo.

Na ressaca do título, é possível que Rúben Amorim tenha, no entanto, falhado os dois objetivos para o jogo, já que Matheus Nunes e Daniel Bragança, juntos, ainda não são alternativa a Palhinha e João Mário e Matheus Reis também não ajudou na hora de render Feddal. São dores de crescimento que por esta altura também pouco importam.