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O que mudou com o VAR em quatro anos? Muitos golos anulados e mais tempo útil de jogo, diz estudo da FPF

A Federação Portuguesa de Futebol disponibilizou esta quinta-feira um estudo sobre o impacto desta ferramenta tão amada, tão mal-amada, nas quatro épocas em que esteve em atividade. E há conclusões curiosas

Hugo Tavares da Silva

NurPhoto

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O vídeo-árbitro (VAR) vinha acabar com as conversas quentinhas nos cafés e tabernas. Aquela tecnologia chegava para serenar os ânimos entre trincheiras que não veem o mundo da mesma maneira, talvez se ocupassem mais a falar de táticas ou dribles que mais parecem feitiçaria. Idealmente, o VAR chegava para salvar o futebol, o bom nome do jogo e a verdade desportiva.

Não é consensual, e agora descascam-se as decisões de árbitros e dos vídeo-árbitros que ali estão para ajudar os árbitros. Há ex-futebolistas de renome que se vão lamentando, principalmente pela falta de tacto dos árbitros ao reverem imagens em câmera lenta, seduzidos pela inevitável tremedeira muscular imposta por qualquer sacudidela, independentemente da força ou intensidade. Outros queixam-se do tempo perdido. E há também quem, logicamente, esteja satisfeito, afinal há sempre tempo para caminhar na rota da verdade, mesmo reconhecendo que ali ou aqui, já que dependemos de homens e mulheres, o erro estará sempre à espreita na esquina.

Para apimentar o debate, a Federação Portuguesa de Futebol disponibilizou esta quinta-feira um estudo sobre o impacto desta ferramenta tão amada, tão mal-amada, nas quatro épocas em que esteve em atividade. Há algumas conclusões curiosas, como o tempo útil de jogo que tem vindo a subir. O que reverteu o VAR desde 2017/18? Ora bem, 119 golos e 56 penáltis indevidos (ou seja, anulou-os ou invalidou). Mas também, depois de anulados ou não assinalados, o VAR deu como bons 49 golos e 75 penáltis que escaparam à visão dos árbitros de campo.

O estudo da FPF chama-se “O impacto do VAR nas decisões dos árbitros e no jogo - Análise às quatro épocas desportivas de utilização do VAR em Portugal”. A informação que consta do relatório da FPF está assente nos relatórios dos video-árbitros entre as épocas 2017/18 e 2020/21

A tecnologia vai agora, como vimos, para a quinta época, pelo que faz sentido a recapitulação da matéria. O procedimento é simples: ocorre o incidente, o VAR revê o incidente e, de seguida, há a revisão ou decisão do árbitro, que poderá ser a que havia tomado antes. Ou seja, pode aceitar ou não a opinião do vídeo-árbitro.

O VAR só intervém em quatro ocasiões: golos, penáltis, cartões vermelhos e trocas de identidade, isto é, sancionar um futebolista errado. Há também três formas de revisão: silent check (sem comunicação com o árbitro), que caiu enormemente desde a implementação desta ferramenta (de 1259 para 352 incidentes), o check (pede tempo ao árbitro para analisar lance) e o review, quando o VAR sinaliza um erro claro, comunica-o ao árbitro e convida-o a reverter, um momento em que pode discordância, pelo que é nesta altura que vemos o árbitro a correr para o ecrã junto ao relvado. Nesta altura, revisto o lance, pode aceitar ou não a sugestão do VAR.

São estes os pressupostos do International Football Association Board.

Vamos a números, que é isso que nos traz aqui hoje. Em cada 10 golos, em quatro deles é revista alguma decisão do árbitro por sugestão do VAR, um valor que se enquadra na média que se observa noutros campeonatos europeus.

Quality Sport Images

Curiosamente, seja por afinação entre árbitros ou por atenção extra dos futebolistas e técnicos, os incidentes analisados pelo VAR têm vindo a diminuir ao longo das épocas (-18%). Ou seja, regista-se uma média de cinco incidentes por jogo. Se na primeira época, em 2017/18, foram revistos 1862 incidentes, nesta última temporada foram 1532.

Os lances revistos de cartão vermelho, por exemplo, caíram 64% entre 2017/18 e 2020/21, o que sugere que a malandrice ou impetuosidade dos jogadores estão a ficar mais vezes perto da malinha da higiene e das chaves do carro no balneário. Uma agressão ou um lance mais violento que passava despercebido dificilmente passará como se nada fosse aos olhos do vídeo-árbitro.

Mas há mais. Os lances mais revistos são os de golo: ocupam 57% do bolo. Foram revistos, na última época, 497 incidentes de penálti, quando em 2017/18 haviam sido 482.

Outro facto curioso no relatório é este: “Uma análise aos incidentes por jogo na época 2020/21 torna claro que as equipas que terminaram na metade superior da tabela têm uma percentagem maior na distribuição do número médio de incidentes por jogo”, pode ler-se no documento.

O mesmo é dizer que analisando dois grupos (primeira metade da tabela e segunda metade da tabela) vislumbram-se mais casos de golo revisto no primeiro (36% vs. 28%). Mas, interessante, no que concerne aos cartões vermelhos a cantiga é outra e bem díspar: 44% lances revistos para cartão vermelho no grupo com a segunda metade da tabela, com a tradicional dog fight, como dizem os ingleses (luta pela permanência), a aquecer. Na primeira metade da tabela, esses lances ficam-se pelos 29%.

Outro dado interessante é como se vai notando uma afinação entre árbitro de campo e VAR, seja nos conceitos ou na comunicação: em 2017/18, o árbitro seguiu a indicação do VAR em 76% das vezes. Esta temporada subiu para 96%.

Como já vimos em cima, o VAR reverteu nas últimas quatro épocas 119 golos, 56 penáltis e seis cartões vermelhos. Já em sentido contrário, foram validados ou assinalados 49 golos e 75 penáltis, assim como foram mostrados 48 cartões vermelhos. Só em 2020/21 foram anulados 40 golos e revertidos 18 penáltis assinalados, tal como 11 cartões vermelhos mostrados.

Analisando o que acontecia pré-VAR, nas três épocas entre 2014 e 2017, eram anulados em média 29 golos por época. Com a nova tecnologia, entre 2017 e 2021, foram anulados 77. Há, por isso, cada vez mais golos anulados pelo VAR, daí a desconfiança dos jogadores na hora de festejar: o aumento é de 165% desde a implementação da ferramenta. Esta temporada, 78% dos golos anulados deveram-se a foras de jogo.

David Lidstrom

Um das ideias que o estudo parece desmontar é a de que o VAR quebra o ritmo de jogo e atrasa insuportavelmente todos os relógios do mundo. Segundo a análise da FPF, o VAR não entra sequer nas primeiras cinco razões que prejudicam o tempo útil de jogo e, para o demonstrar, analisou cinco jornadas para representar esta época. Isto é, à frente do VAR, estão livres (13:58), lançamentos laterais (8:29), pontapés de baliza (5:24), pontapés de canto (4:23) e as substituições (3:22). O VAR surge a seguir, com 2 minutos e 58 segundos em média em cada um desses cinco jogos que serviram de amostra (não sabendo nós se foram escolhidos aleatoriamente).

Como era, afinal, antes do VAR? Segundo a FPF, em 2014/15 o tempo útil de jogo na Liga Portuguesa foi de 50 minutos. As barras do gráfico estão a subir: em 2020/21, o tempo útil de jogo foi de 53:20. Nota: quando foi implementada a ferramenta, em 2017/18, até houve um recuo do tempo útil de jogo verificado, ainda que muito ligeiramente, de 51:06 para 51 minutos. A partir daí a tendência é animadora: 52:20, 53:06 e 53:20.

E o que demora mais tempo na hora de analisar? São as reviews (2:24), que, por outro lado, só acontecem 0,4 vezes por jogo. Já o check, que leva 42 segundos por jogo, acontece 3,5 vezes em média por cada 90 minutos. O silent check é o mais despachado (36 segundos), ocorrendo 1,2 vezes por jogo.

Em algumas conversas de amigos e conhecidos, durante o Campeonato da Europa, alguns mostravam-se incrédulos por um torneio daquela envergadura não ter vídeo-árbitro. Mas tinha. Talvez seja esse o caminho, o futuro, a tecnologia atuar sem darmos por ela, mesmo que o erro esteja na esquina, à espera do descuido ou da falta de tacto.

"A introdução do VAR permitiu, nas últimas quatro épocas, corrigir decisões erradas nos momentos importantes do jogo e alertar para situações que tenham escapado ao árbitro de campo”, garante uma das conclusões da FPF no relatório.