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Futebol nacional

“Só pedimos hora e meia de felicidade. Esta é a nossa grande religião”. Eis a procissão de regresso dos fiéis da bola às bancadas

“Não nos tratem como bárbaros que não se sabem comportar”, apelava um adepto antes de entrar para assistir ao vivo ao jogo da Supertaça, acompanhado pela filha, ela crente de que “não é o futebol que vai matar alguém, só se for do coração”. As preces dos fiéis do futebol foram ouvidas e a Tribuna Expresso acompanhou a romaria de 6.710 espetadores ao Estádio Municipal de Aveiro

André Manuel Correia e Rui Duarte Silva

RUI DUARTE SILVA

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O público já sentia falta de ir ao estádio, mas de quem Manuel tinha verdadeiramente saudades era dos adeptos. Não fossem eles o seu ganha-pão. “Só vim ver se faturava algum”, começa por dizer, à Tribuna Expresso, o vendedor de cachecóis. Por cinco euros cada um, tinha vendido “meia dúzia deles” e “só do Sporting, pelos do Braga ninguém pergunta”.

A última vez que fez negócio foi a 8 de março de 2020, precisamente quando Rúben Amorim se estreou como técnico leonino, com uma vitória caseira por 2-0 diante do Desportivo das Aves. “Já viu o que é estar mais de um ano e meio sem trabalhar?”, questiona Manuel Fernandes, cabisbaixo por estar a “vender muito pouco, quase nem compensava” ter vindo de Famalicão. Antes de a pandemia ter deixado offside estes pequenos negócios adjacentes ao futebol, “costumava ter uma banca grande, mas aqui não autorizaram”.

Faltam duas horas para o apito inicial do árbitro João Pinheiro, mas no exterior do grande palco da Supertaça há já milhares de adeptos que vieram em romaria para o Estádio Municipal de Aveiro. Muitos aproveitam para fazer o teste à covid-19 nas tendas montadas pela Cruz Vermelha.

Rui Duarte Silva

A falta de clientela notada por Manuel Fernandes é um sinal de que os adeptos, há demasiado tempo em isolamento a celebrar no sofá, ainda não se esqueceram de tudo o que é preciso levar para vibrar a rigor durante um jogo.

Resgataram os cachecóis, as bandeiras, as camisolas com os emblemas dos respetivos clubes, os bonés, os cânticos que sabem de cor, as tochas coloridas e um ou dois petardos para rebentar nos momentos de explosão de alegria.

RUI DUARTE SILVA

Só aquele terço de devotos do futebol — com o bilhete numa mão e o certificado de vacinação ou um teste negativo na outra — pode traduzir realmente o que significa preparar o farnel e fazer quilómetros e quilómetros de viagem só para rever de perto os craques, confraternizar entre amigos ou em família, aplaudir, assobiar, insultar a equipa de arbitragem (quem nunca, não é?) ou abraçar, sem ninguém dar por ela, um amigável desconhecido no momento em que a bola beija o fundo das redes.

Com os rostos cobertos pelas máscaras, ostentam nos olhos sorrisos nus.

A Supertaça simboliza o arranque da nova temporada, mas é também o primeiro sinal de uma nova era, com bancadas lotadas dentro do possível, confinadas a 33% da capacidade. Do total de 8.996 espetadores permitidos pela Federação Portuguesa de Futebol, marcaram presença 6.710 pessoas. Os adeptos do Sporting estiveram em maioria e quase sempre mais ruidosos, ainda embalados pela doce ressaca do campeonato conquistado após 19 anos de jejum.

RUI DUARTE SILVA

A fome de ir à bola, essa, não era menor. É o caso do “confiante” Vítor Carmo, um 'leão' de 69 anos que partiu de Santa Maria da Feira acompanhado por mais três amigos. “Já sentia falta de estar com pele de galinha a torcer pelo meu clube”, confessa à Tribuna Expresso, já com a pulseira amarela que lhe dá luz verde para o lugar onde deve permanecer sentado e com a máscara colocada ao longo dos 90 minutos. “Não sinto qualquer receio de voltar a um estádio”, assegura. “Desde que as pessoas tenham cuidado, não vejo mal nenhum que estejam abertos ao público”, defende o simpatizante do Sporting, enquanto guardava no bolso do casaco o certificado de vacinação que teve de apresentar.

“Cada um é senhor de si mesmo e se cada um fizer a sua parte, toda a gente está segura”, atira, rematando que, “em função dos números, mais caso menos caso, os estádios já podiam ter aberto há muito mais tempo”. É mais cauteloso no número de golos: “1-0 chega”. Para quem? “Para o Sporting, porra!”

O nome inscrito na camisola verde e branca não engana: José Salgado, adepto do Sporting, pois claro. Tem 75 anos e é sócio há 15. Para que não restem dúvidas, puxa do cartão e exibe-o bem alto, com a mão erguida, para toda a gente ver, enquanto grita: “Sou do Sporting! Olhem aqui! Sou do Sporting! Tenho as quotas todas em dia!” Veio “cheio de saúde e de alegria” de Trás-os-Montes de propósito para Aveiro, onde chegou às 15h, arrastando a esposa, mais tímida, com ele.

Não tem bilhete, mas fez questão de ali estar para aplaudir os jogadores, aquando da passagem do autocarro que transportava a equipa. “Vim cá ver o Sporting. Tinha saudades dele”, admite, prometendo comprar bilhete, “se deus quiser, para ir a Braga” na segunda jornada assistir a mais um embate entre os dois Sporting, no seu caso para apoiar o de Portugal.

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“Foram 510 dias, estive eu hoje a contar”, especifica Carlos Mariano de Carvalho, desde o último jogo a que assistiu ao vivo, em Alvalade, no dia 8 de março de 2020. É sócio do Sporting há 23 anos, ou seja, desde que nasceu. Fez teste de antigénio na manhã deste sábado para poder retornar a um estádio. “Não sinto qualquer insegurança em aqui estar e essa tem de ser a mensagem para o resto da época”, afirma, para quem “a única pena é que só possam estar 33% dos adeptos”, acreditando que podia estar “muito mais gente, se isto não tivesse sido planeado apenas em quatro dias”.

Todavia, considera que chegou a hora de “dar o exemplo a todo o país, para mostrar que as pessoas podem estar tranquilamente, seja num bar ou no futebol, desde que testadas e vacinadas”. Na sua opinião, “é importante que as pessoas sejam incentivadas a adotar boas práticas em vez de as reprimir”, até porque, advoga, “o povo contribui, faz aquilo que lhe é pedido, mas também quer ter um pouco da sua liberdade”.

Mariano e o primo vieram atraídos pelo jogo e aproveitaram para visitar a cidade. “Bebemos uma cerveja, convivemos em segurança com adeptos de outros clubes no centro de Aveiro, sempre num clima de festa”, enaltece, sem dúvidas de que faz bem a todos. “Até para a economia local é importante que os adeptos regressem. O futebol alavanca o comércio e a restauração, além de que sobe os índices de felicidade das pessoas, o que é importantíssimo”, sustenta, num tom muito ponderado, apesar de não ser “nada calmo” no momento de comemorar um golo.

“O futebol tem essa parte, que não é tão lógica e racional, de nos fazer abraçar desconhecidos. A beleza também é essa: rompe todas as fronteiras, políticas ou religiosas. Isso faz muita falta, porque traz um espírito de união. Esta é a nossa grande religião”, exorta o crente sportinguista, minutos antes de ir à missa do desporto-rei comungar de uma “paixão que move montanhas” e que o puxou do Estoril.

RUI DUARTE SILVA

“Não é o futebol que vai matar alguém, só se for do coração”

“Nós não somos desses que ficam a ver no sofá. Nós vivemos da bola”, assevera Manuel Ferreira, vestido a rigor com a camisola do Braga, ladeado pelas duas filhas, Cláudia e Tânia, com quem vai sempre ao futebol. Têm lugar anual, mas desde outubro, quando o Braga defrontou o AEK de Atenas, que eram obrigados a ficar em casa. “Faz-nos falta a todos, mesmo às próprias equipas”, salienta o bracarense de 54 anos, sócio dos arsenalistas há 24.

“O futebol sem público não tem graça nenhuma. Estar sentado à frente de um ecrã só serve para aqueles que não sentem verdadeiramente o clube”, atira, enquanto pede uma pausa na conversa com a Tribuna Expresso porque “vem aí a equipa” e “até de ver o autocarro a passar já tinha saudades”.

Para a filha, Tânia, “já não dá mais para aguentar ficar impedida de entrar num estádio”, certa de que não é o futebol que vai matar alguém, só se for do coração”, diz, entre risos. “Isto para nós é um ritual de família, vimos sempre os três ao futebol”, conta a jovem de 27 anos. O pai aproveita para deixar um apelo: “Não nos tratem como bárbaros que não se sabem comportar. Nós só pedimos hora e meia de felicidade”.

RUI DUARTE SILVA

Pai e filho partilham o mesmo nome: Carlos Braga. O apelido de família não engana.

Saíram da cidade dos arcebispos às 13h e, pelo meio, deram um salto a Santa Maria da Feira. “Aproveitámos para ir comprar uma fogaça”, confidencia o patriarca. “Se o Braga ganhar, vai ser fogaça e vinho noite dentro”, antecipa. Para isso, “o que é preciso é o Braga mandar duas fogaças ao Sporting”, até porque “a garrafinha de champanhe está à espera no frigorífico”. Tudo somado, gastaram 100 euros para estar ali, mas “o entusiasmo não tem preço”, assim como “o abraço preparadinho” entre pai e filho, “assim sem ninguém ver”, de valor inestimável.