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Futebol nacional

Em época sem pessoas nos recintos desportivos, os incidentes aumentaram: 2.335 infrações registadas, 88% das quais no futebol

Na última época, a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto contabilizou 2.335 incidentes, mais do que na temporada anterior, apesar de 2020/21 ter sido a primeira da história que se completou sem público nas bancadas. 91% das medidas de interdição de acesso a recintos desportivos referem-se ao futebol e foram aplicadas a 160 pessoas — mais de metade corresponde a adeptos de seis clubes da I Liga

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA/Getty

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O vazio contínuo nos estádios e pavilhões em Portugal Continental durou, mais ou menos um ano e meio. Entre março de 2020 e o verão deste ano, o bicho invisível que está no meio de nós despiu de gente qualquer tipo de recinto desportivo devido às restrições impostas para o acautelar. Foram meses e meses sem pessoas nas bancadas, o que, presumivelmente, equivaleria a menos faíscas.

Se há menos pessoas nos lugares onde elas poderiam ocorrer, então seria de esperar menos incidentes também — só que não.

Entre 1 de setembro de 2020 e 30 de junho de 2021, foram contabilizados 2.335 incidentes em recintos desportivos em Portugal, dos quais 2.054 relacionados com futebol, o que corresponde a 88% do total.

Em 2019/20, temporada em que, de agosto a março, 'pandemia' era apenas uma palavra no dicionário e as pessoas só não iam a assistir a eventos desportivos se não quisessem, a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) registou 1.719 infrações.

Esta é a principal conclusão do Relatório de Análise da Violência Associada ao Desporto relativo à época 2020/21, revelado esta quinta-feira pela APCVD, que justificou o que classifica de "ligeira subida" com o "aumento de incidentes relacionados com o uso de artefactos pirotécnicos nas imediações dos recintos desportivos".

Esta categoria, que tem a ver, por exemplo, com lançamento de tochas ou de petardos, engloba 1.398 dos 1.719 incidentes registados. O relatório não especifica onde, quando e quais os adeptos (e os respetivos clubes que apoiam) responsáveis por estas infrações. O contraste com a época anterior é claro: em 2019/20, apenas 817 casos relacionados com pirotecnia foram registados.

O único outro ponto no qual o número de infrações aumentou comparativamente com temporada antecessora foi o incumprimento de deveres por parte dos promotores dos eventos — dos 114 de 2019/20, para as 315 de 2020/21.

Em todos os restantes verificou-se uma descida no número de casos de uma época para a outra: nas agressões (128 para 42), no arremesso de objetivos (105-12), nos danos (98-16), no incitamento à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância (73-15) e nas injúrias (144-84).

Futebol, o desporto-rei das infrações

O relatório, da responsabilidade da Polícia de Segurança Pública e da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, esmiúça ainda os incidentes pela modalidade na qual ocorreram. Tendo o futebol um reinado sobre as atenções e interesses desportivas em Portugal, a coroa dos incidentes também lhe assenta na cabeça.

De entre os 2.335 registados, 2.054 aconteceram no futebol. E desses, 1.498 (ou 72%) estão relacionados com jogos da I Liga, seguidos dos 200 reportados nas divisões distritais (9,7%) e dos 112 no Campeonato de Portugal (5,5%).

Na esfera das partidas da principal divisão do futebol português também se efeturam todas as medidas de interdição de acesso a recintos decretadas quer pelos tribunais, quer pela (APCVD).

Foram aplicadas a 160 adeptos, sendo que o clube mais representado é o Vitória Sport Clube (24), seguido do FC Porto (22), do Sporting (18), do Sp. Braga (12), do Benfica (7) e do Famalicão (6). O número, ainda assim, representa uma diminuição face às 222 medidas de interdição aplicadas em 2019/2020.

Dois terços das pessoas a quem foram aplicadas medidas de interdição de acesso aos estádios eram membros de Grupos Organizados de Adeptos (GOA), nome técnico dado às claques de futebol. A tal meia-dúzia de clubes da I Liga mencionados corresponde a 55,7% dos casos.