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Futebol nacional

O outro lado do insulto. O que sentem e pensam realmente os futebolistas quando os ouvem?

Jogadores de futebol falam de situações de abuso verbal que sofreram e as suas consequências. E psicólogos explicam o que fazem ao corpo e à mente essas agressões verbais

Hugo Tavares da Silva

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Quando uma agressão verbal emigra e ultrapassa a fronteira dos lábios, o cérebro de quem a escuta faz o que o cérebro costuma fazer e prepara-se, antecipa problemas e mobiliza energia muito rapidamente para a eventual necessidade de defesa. Pelo caminho, na alfândega da decência, é libertado cortisol, uma hormona associada ao stresse e que é produzida quando o cérebro acredita que tem de ir buscar glucose à corrente sanguínea muito rápido, porque, lá está, há esse cenário incerto que poderá levar a uma reação. Se este processo acontecer vezes e vezes sem conta, o corpo é sovado e desenvolvem-se sintomas de uma doença metabólica. “As evidências sugerem que a agressão verbal é tão má quanto a agressão física, a longo prazo, quando olhamos para coisas como a depressão, diabetes e outras doenças metabólicas”, explicou Lisa Feldman Barrett, psicóloga na Northeastern University e na Harvard Medical School, no primeiro episódio do documentário “Deus Cérebro”.

Ou seja, a agressão verbal é nociva para as entranhas das pessoas e para o que não é medível, pois abana também a saúde mental. Mas há um mundo, sobre o qual levitamos quase todos de certa maneira, em que o insulto parece ser moeda corrente, uma banalidade: o futebol. A desculpa perfeita dá pelo nome de “paixão”, mesmo que não se consiga explicar quando esse insulto já vem desde os tempos de infância, quando pais insultam filhos de outros pais como eles. Os futebolistas, que outrora eram só miúdos, habituaram-se aos insultos, dizem-no até com alguma vaidade, alguns chegam a admitir que lhes dá mais ânimo para jogar. E quem não se habitua a isso é que parece estar fora do lugar, como se não tivesse estofo para andar ali, afinal só tem de jogar e ser insultado como se nada fosse, sem esboçar uma reação. É como se aquilo fizesse parte daquele desporto, como se fosse mais uma armadilha do fora de jogo, uma tática inovadora ou um livre estudado nos melhores laboratórios futeboleiros mas levado a cabo pelo impaciente e apaixonado adepto.